Antigo Testamento

21

18

1Respondeu porém Job, e disse:

2Ouvi attentamente as minhas razões; e isto vos sirva de consolações.

3Soffrei-me, e eu fallarei: e, havendo eu fallado, zombae.

4Porventura eu me queixo a algum homem? porém, ainda que assim fosse, porque se não angustiaria o meu espirito?

5Olhae para mim, e pasmae: e ponde a mão sobre a bocca.

6Porque, quando me lembro d'isto, me perturbo, e a minha carne é sobresaltada d'horror.

7Por que razão vivem os impios? envelhecem, e ainda se esforçam em poder?

8A sua semente se estabelece com elles perante a sua face; e os seus renovos perante os seus olhos.

9As suas casas teem paz, sem temor; e a vara de Deus não está sobre elles.

10O seu touro gera, e não falha: pare a sua vacca, e não aborta.

11Mandam fóra as suas creanças, como a um rebanho, e seus filhos andam saltando.

12Levantam a voz, ao som do tamboril e da harpa, e alegram-se ao som dos orgãos.

13Na prosperidade gastam os seus dias, e n'um momento descem á sepultura.

14E, todavia, dizem a Deus: Retirate de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos.

15Quem é o Todo-poderoso, para que nós o sirvamos? e que nos aproveitará que lhe façamos orações?

16Vêde porém que o seu bem não está na mão d'elles: esteja longe de mim o conselho dos impios!

17Quantas vezes succede que se apaga a candeia dos impios, e lhes sobrevem a sua destruição? e Deus na sua ira lhes reparte dôres!

18Porque são como a palha diante do vento, e como a pragana, que arrebata o redemoinho.

19Deus guarda a sua violencia para seus filhos, e lhe dá o pago, que o sente.

20Seus olhos vêem a sua ruina, e elle bebe do furor do Todo-poderoso.

21Porque, que prazer teria na sua casa, depois de si, cortando-se-lhe o numero dos seus mezes?

22Porventura a Deus se ensinaria sciencia, a elle que julga os excelsos?

23Este morre na força da sua plenitude, estando todo quieto e socegado.

24Os seus baldes estão cheios de leite, e os seus ossos estão regados de tutanos.

25E outro morre, ao contrario, na amargura do seu coração, não havendo comido do bem.

26Juntamente jazem no pó, e os bichos os cobrem.

27Eis que conheço bem os vossos pensamentos: e os maus intentos com que injustamente me fazeis violencia.

28Porque direis: Onde está a casa do principe? e onde a tenda das moradas dos impios?

29Porventura o não perguntastes aos que passam pelo caminho? e não conheceis os seus signaes?

30Que o mau é preservado para o dia da destruição; e são levados no dia do furor.

31Quem accusará diante d'elle o seu caminho? e quem lhe dará o pago do que faz?

32Finalmente é levado ás sepulturas, e vigia no montão.

33Os torrões do valle lhe são doces, e attrahe a si a todo o homem; e diante de si ha innumeraveis.

34Como pois me consolaes com vaidade? pois nas vossas respostas ainda resta a transgressão.