Jó 4
Thomas Aquinas
Jó 4:1
Os amigos de Jó que vieram consolá-lo, que tinham guardado silêncio até agora porque a intensidade de sua dor, depois que Jó tinha terminado tomaram a ousadia de falar. Primeiro fala Elifaz o Temanita. Ele não tinha recebido as palavras de Jó no espírito em que foram ditas. Ele imputou o ódio de sua vida presente que Jó disse que sofria ao desespero; sua grande amargura à impaciência e sua profissão de sua inocência à presunção. — Comentário sobre Jó
Jó 4:2
Primeiro, ele acusa Jó de impaciência e começa a falar com ele como se fala com um homem sujeito ao pecado da impaciência, que imediatamente reage com raiva às palavras que lhe são dirigidas. Então ele diz: “Se alguém arriscar uma palavra com você, talvez você fique ofendido”. Aqui ele avalia adequadamente o temperamento habitual de um homem impaciente e raivoso, que não suporta ouvir alguém terminar seu argumento, mas é imediatamente provocado a responder quando ele apenas começa a falar. Ele diz, “talvez” para que não seja condenado por julgamento precipitado, embora também se deva interpretar palavras ou ações em coisas presunçosas ou suspeitas sob uma luz melhor. Mas ao mesmo tempo que acusa Jó de impaciência, mostra-se alguém dado à impaciência e à tolice quando diz: “mas quem pode deixar de falar?” Assim, Sirach diz: “Como flechas infligidas na coxa de um cão, assim é a palavra no coração de um tolo” (19:12), embora se possa admitir que mesmo os justos por zelo divino são às vezes incapazes de ficar em silêncio ao falar o que deve ser dito para a honra de Deus. Como diz Jeremias: “Se eu disser, não me lembrarei”, isto é, das palavras do Senhor, “nem falarei mais em seu nome, há uma espécie de fogo ardente em meu coração, encerrado em meus ossos, e estou cansado de mantê-lo e não posso”. (20:9) - Comentário sobre Jó
Jó 4:3
Em seguida, ele demonstra claramente a impaciência de Jó, exagerando essa impaciência de dois pontos de vista: seus ensinamentos anteriores e sua vida anterior. De fato, de seus ensinamentos anteriores, porque é vergonhoso para um homem não praticar o que ensina aos outros. Como diz São Mateus: “Pois eles dizem e não fazem”. (23:3) Antes, Jó havia contido muitos da impaciência e costumava adaptar seu ensino a diferentes homens, de diferentes maneiras. Pois há alguns que são impacientes por ignorância, enquanto não sabem usar as adversidades para a virtude. Quanto a estes, ele diz: “Eis que instruíste a muitos”. Outros, porém, a princípio praticam a virtude na adversidade, mas quando a adversidade dura muito tempo, ficam desanimados, como se estivessem cansados da ação correta. Quanto a estes, ele diz: “e você fortaleceu os que tinham mãos fracas”, persuadindo-os a boas obras. - Comentário sobre Jó
Jó 4:4
Há também alguns que na adversidade caem em uma condição de dúvida quanto a se isto aconteceu do julgamento divino. Quanto a estes ele diz, "Vossas palavras sustentaram o vacilante." Há também alguns que suportam uma pequena adversidade mas sob grande adversidade caem esmagados por um fardo pesado. Para estes ele diz, "e fortalecestes aqueles com joelhos tremendo," ou seja, com vossos conselhos, pois os joelhos de um homem tremem quando ele carrega um peso grande. O Senhor nos exorta a nos aperfeiçoarmos nesta condição dizendo em Isaías, "Fortalecei as mãos fracas e confirmei os joelhos tremendo." (35:3) — Comentário sobre Jó
Jó 4:5
Elifaz quer mostrar como consequência que Jó não praticava as coisas que ensinava a outros, e assim continua: "Mas agora uma provação veio a ti, e tu também te desviaste", a saber, da firmeza de ânimo que parecías ter e que recomendavas a outros. Isto se refere à adversidade que havia sofrido nas coisas exteriores. "Tocou-te, e te perturbas", isto é, perdeste a paz de espírito que parecías ter. Isto se refere à aflição de corpo que estava padecendo. Assim Satanás disse acima: "Estende tua mão e toca seus ossos e sua carne." Portanto, tinha acusado Jó de não viver seu ensinamento anterior praticando a paciência subsequente. Isto é contra o Provérbio: "Um homem aprende bom senso pela paciência." (19:11) — Comentário a Jó
Jó 4:6
Ele também exagerou a impaciência subsequente que apareceu em Jó em sua vida passada. Pois a virtude que falha tão rapidamente na provação não parece verdadeira porque, como está escrito no Eclesiástico, “Ouro e prata são provados no fogo; os homens são provados no cadinho da humildade”. (2:5) Um homem é preservado por muitas virtudes para que não falhe nas provações. Primeiro, alguns são preservados pelo temor a Deus, quando consideram que as coisas más que sofrem provêm da providência divina. Como Jó disse acima: “Como quis o Senhor, ele fez”. (1:21) Elifaz disse para excluir esta virtude: “Onde está o seu medo?” com o qual você parecia reverenciar a Deus. Segundo, alguns são preservados através da constância da alma, que tem dois graus. Em alguns homens, a força da alma é tão grande que eles não se incomodam excessivamente com as adversidades. Isto se deve à coragem. Então ele diz: "Onde está sua coragem?" Isto não deve ser entendido aqui como uma referência à fortaleza que os homens guardam para não sucumbirem ao medo, mas para que não desanimem na tristeza. Alguns sofrem uma grande tristeza devido à adversidade, mas não são desviados por ela por causa da boa disposição de sua razão. Isso se deve à paciência. A diferença entre paciência e coragem é a mesma diferença que os filósofos colocam entre continência e castidade. Então ele continua: “Sua paciência?” Terceiro, alguns são protegidos pelo amor à ação correta e pelo horror de fazer algo vil, de modo que, mesmo que sejam interiormente perturbados pela adversidade, ainda assim não irrompem em nada indigno, seja em palavras ou ações. Então ele acrescenta: “Onde está a integridade dos seus caminhos?” "Caminhos" aqui significam ações pelas quais alguém chega a um fim, como se fosse por certos tipos de estradas. "Caminhos" também pode significar um conselho cuidadosamente pensado, pelo qual alguém passa a confiar que pode escapar das adversidades e, assim, tolerar as adversidades com mais facilidade. - Comentário sobre Jó
Jó 4:7
Depois que Elifaz acusou Jó de impaciência, tomando sua oportunidade do que Jó havia dito, "Antes de comer, suspiro," (3:24), ele agora tem a intenção de acusá-lo de presunção pelo fato de ter dito que era inocente. Para mostrar-lhe que não é inocente, ele tira seu argumento da premissa de sua adversidade, dizendo, "Lembro-te, peço, quem, sendo inocente, jamais pereceu; ou quando foram destruídos os retos?" Considere aqui novamente que Elifaz e seus outros dois companheiros eram da opinião de que as desgraças deste mundo não acontecem a alguém exceto como punição pelo pecado e, por outro lado, a prosperidade vem como recompensa pela justiça. Então, segundo sua opinião, não pareceria conveniente que alguém inocente perecesse temporalmente ou que alguém que fosse reto, isto é, justo de acordo com a virtude, fosse destruído pela perda da glória temporal, que ele pensava ser uma recompensa pela justiça. Ele acreditava nesta opinião ser tão verdadeira que nem mesmo Jó poderia discordar dela. Ainda assim, ele pensou que Jó havia, por assim dizer, esquecido a verdade que conheceu uma vez, porque seu espírito estava perturbado. Então ele diz, "Lembra-te.". — Comentário sobre Jó
Jó 4:8
Dado portanto que a adversidade não acontece aos inocentes e aos retos, ele consequentemente identifica aqueles que experimentam adversidade: "Não, de fato, vi aqueles que fazem o mal e semeiam dores, recolhem o mesmo." Quando ele diz, "Vi," ele faz alusão ao fato de que ele mesmo provou estas coisas pela experiência. Para aqueles "que fazem o mal," ele entende aqueles que abertamente cometem injustiça especialmente prejudicando outros. Para aqueles que "semeiam dores e recolhem o mesmo," ele entende aqueles que prejudicam outros pela fraude. Estes semeiam dores quando preparam calúnias pelas quais fazem outros sofrerem. Aqueles homens recolhem dor quando continuam seu malfeito até que tenha efeito, e eles tomam isto como fruto excelente. — Comentário a Jó
Jó 4:9
Ele leva essa metáfora adiante ao falar sobre punição. Os campos de milho geralmente secam e são destruídos por um vento abrasador. Como diz Malaquias: “Repreenderei o devorador”, isto é, o vento, “para que não devore o fruto da tua terra”. (3:11) Ele se refere a isso quando diz: “eles perecerão pelo sopro de Deus”, como se o próprio julgamento divino vindo para punir o mal fosse semelhante ao sopro do vento. A própria vingança de Deus é chamada de sopro, ou seja, o vento, de sua raiva. Ele diz não apenas que eles perecem, mas que são consumidos, porque não são apenas punidos em suas próprias pessoas, mas seus filhos e toda a sua família perecem, de modo que nada parece restar deles. Isto parecia expressar Jó porque ele havia sido afligido em seu corpo e havia perdido seus filhos, sua família e sua riqueza. - Comentário sobre Jó
Jó 4:10
Mas o fato de que os filhos e a família deveriam sofrer pelos pecados dos pais parecia contradizer a opinião de Elifaz, visto que ele pretende defender a opinião de que as adversidades neste mundo são castigos pelo pecado. Elifaz responde a esta objeção dizendo: "O rugido do leão, a voz da leoa, e os dentes do filhote foram quebrados." Aqui primeiro ocorre a consideração de que o homem é mais nobre que outros animais por causa da razão. Quando, portanto, ele deixa de lado a razão, ele segue as paixões das bestas, e assim ele porta a semelhança de bestas e o nome de besta convém a ele porque imita suas paixões. Por exemplo, aquele que se rende à paixão da concupiscência é comparado a um cavalo ou uma mula nos Salmos: "Não sejais como cavalo e mula, sem inteligência." (31:9) O que se rende à ira ou ferocidade é chamado de leão ou urso nos Provérbios: "Um leão que ruge ou um urso faminto é o príncipe ímpio sobre o povo pobre" (28:15) e em Ezequiel: "Tornou-se um leão e aprendeu a apanhar presa e devorar homens." (19:3) Assim agora ele compara um homem furioso a um leão dizendo: "O rugido do leão", pois o rugido é uma indicação da ferocidade do leão. Frequentemente o incitamento de uma esposa acrescenta à ferocidade de seu marido, e assim a coisa feroz que o marido faz é imputada à culpa de sua esposa. Isto é claro com a esposa de Herodes, que o incitou a decepar João Batista. (cf. Mt. 14:8) Assim ele diz: "A voz da leoa." Às vezes o que um tirano adquiriu por crueldade, seus filhos usam levianamente e assim se alegram com a rapina do pai. Portanto não estão isentos de culpa. Assim o texto continua: "os dentes dos filhotes foram quebrados." Naum diz: "O leão caçou bastante para seus filhotes." (2:12) Assim parece ter respondido à objeção premissa, porque não é justo que a esposa e os filhos sejam punidos pelos pecados do marido, quando foram participantes com ele na culpa. Ele disse tudo isto tentando tornar Jó e sua família infames pela rapina. — Comentário a Jó
Jó 4:11
Porém pareceu que o que ele disse não pertencia a Jó, porque sua mulher não parecia estar sendo punida. Para remover esta dificuldade, ele diz: "A tigresa pereceu com ele por falta de presa." Pois aqueles que roubam como prática, pensam-se punidos se não lhes é permitido roubar. Considere que as mulheres são comparadas a uma leoa por causa da ferocidade de sua ira e a uma tigresa por causa da presteza e rapidez de sua ira. Como Siraque diz: "Não há ira como a ira de uma mulher" (25:23) e "Toda malícia é breve comparada à malícia de uma mulher." (25:26) Porque todos os filhos de Jó haviam completamente perecido, ele acrescenta: "e os filhotes da leoa foram dispersos." — Comentário sobre Jó
Jó 4:12
Como Elifaz havia aceitado que as adversidades nesta vida só aconteciam a alguém por causa do seu pecado, ele queria a partir disso acusar Jó e sua família de estarem sujeitos ao pecado. Como exatamente o contrário acontecia com Jó e sua família, ele queria mostrar que nem Jó nem sua família estavam imunes ao pecado. Como sua opinião parecia fraca por causa da autoridade de Jó e de sua reputação, ele se referiu a uma autoridade superior, mostrando que estava prestes a propor que aprendeu com a revelação. Ele primeiro propõe a obscuridade da revelação para demonstrar sua fonte elevada. Quanto mais as coisas superiores estão acima do homem, menos perceptíveis elas são para o homem. Como diz São Paulo em 2 Coríntios: “Ele foi elevado ao paraíso de Deus e ouviu coisas que não podem ser contadas ao homem”. (12:4) Desta forma, Elifaz fala verdadeira ou falsamente, dizendo: “Agora uma palavra me foi dita em segredo”. Considere que algumas verdades, embora escondidas dos homens devido ao seu caráter exaltado, ainda são reveladas a alguns claramente e a outros de forma oculta. Para evitar a acusação de vanglória, ele diz que esta verdade lhe foi revelada de forma oculta, “furtivamente meu ouvido percebeu o leito seco de seu sussurro”. Aqui ele sugere que existem três maneiras pelas quais as coisas estão escondidas nas revelações. A primeira delas é quando a verdade inteligível é revelada a alguém através de uma visão imaginária. Como diz Números: "Se entre vós houver um profeta do Senhor, falarei com ele em visão ou em sonho. Não é assim com meu servo Moisés; com ele falo boca a boca, e ele não vê Deus claramente e nem por meio de enigmas." (12:6-8) Moisés, então, ouviu esta palavra oculta com uma voz clara. Outros, entretanto, ouvem como um sussurro. A segunda maneira oculta está na visão imaginária, quando são pronunciadas palavras que às vezes contêm expressamente a verdade, como no texto de Isaías: “Eis que uma virgem conceberá” (7:14) ou às vezes sob certas figuras de linguagem, como em Isaías: “Do toco de Jessé brotará um rebento e uma flor, etc.” (9:1) Quando, portanto, Isaías ouviu: “Eis que a virgem conceberá”, ele percebeu o próprio sussurro, mas quando ouviu: “Um rebento brotará do toco de Jessé”, ele percebeu a tensão do sussurro. Pois as figuras de linguagem são como estirpes derivadas da própria verdade através da semelhança de um símile. A terceira forma oculta é quando alguém às vezes tem uma revelação frequente e duradoura de Deus, como diz Êxodo sobre Moisés: “O Senhor falava com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo”. (33:11) Às vezes alguém tem uma revelação repentina e passageira. Elifaz mostra o caráter repentino de sua revelação quando diz “furtivamente”, pois ouvimos quase furtivamente aquelas coisas que chegam até nós rapidamente e, por assim dizer, em um momento fugaz. - Comentário sobre Jó
Jó 4:13
Depois que mostra a alta fonte da visão desta forma, ele procede às circunstâncias da revelação. Primeiro, ele fala do tempo dizendo: "Na visão terrível da noite, quando cai sono profundo sobre os homens", porque a noite tranquila é mais apropriada para receber revelações. Durante o dia, a mente sofre ruído das perturbações dos homens e das ocupações dos sentidos, de modo que não pode perceber o sussurro de uma palavra oculta. — Comentário sobre Jó
Jó 4:14
Segundo, ele fala da disposição do receptor, e assim acrescenta, "O medo tomou conta de mim." Pois os homens geralmente são tomados de medo pelo inusitado, e assim quando alguém tem revelações estranhas, sofre medo no começo. Para mostrar a grandeza deste medo acrescenta, "e tremendo," pois o tremor do corpo é uma indicação da grandeza do medo. Para enfatizar este tipo de tremor, continua, "que fez todos os meus ossos tremerem" como se dissesse: Este tremor mostra que o tremor não era superficial, mas violento, o tipo que atingiu até os ossos. Uma semelhança é descrita em Daniel, "Assim vi aquela grande visão, e não me restou força nenhuma; meu rosto mudou de cor, e desmaiei e não me restou força alguma." (10:8) — Comentário sobre Jó
Jó 4:15
Como consequência, ele mostra a causa desse medo quando diz: “Quando um espírito passou pelo meu rosto, os pelos da minha carne se arrepiaram”. Pois é razoável que alguém com menor poder fique impressionado na presença de alguém com maior poder. É óbvio que o poder do espírito é maior que o poder da carne e por isso não é surpreendente que os pelos da carne se arrepiem na presença do espírito, como acontece quando alguém é dominado por um medo repentino. Isto é especialmente verdadeiro quando a presença do espírito é sentida em algum estranho fenômeno corporal, pois coisas estranhas geralmente levam à admiração e ao medo. Para que o tempo expresso possa ser adequado ao pavor que ele lembra ter sofrido, pois disse acima: “Na terrível visão da noite”. Como não se pode discernir as coisas pela vista na escuridão, qualquer pequena comoção geralmente induz perturbação naquele que pensa que é algo maior. Isto é o que diz a Sabedoria: “O suspiro do vento, o canto melodioso dos pássaros nos galhos espalhados, tudo os mantinha paralisados de medo”. (17:17) - Comentário sobre Jó
Jó 4:16
Ele coloca a pessoa reveladora em terceiro lugar, quando o texto diz: “Ele parou, mas não consegui discernir o rosto, uma imagem diante dos meus olhos”. Aqui ele indica três coisas que mostram com certeza que foi uma visão. Observe que às vezes, por causa de uma perturbação excessiva da fumaça ou das névoas, ou os sonhos não aparecem, porque não há fantasmas, ou os sonhos aparecem de forma confusa e perturbada, como costuma acontecer com quem tem febre. Visto que sonhos desse tipo têm pouco ou nenhum conteúdo espiritual, eles são completamente desprovidos de significado. Quando, porém, as névoas e a fumaça se assentam, aparecem sonhos tranquilos e ordenados, e como estes são mais espirituais, emergem da parte intelectual da alma com alguma força. Sonhos desse tipo geralmente são mais verdadeiros. Portanto ele diz: “Ficou parado”, o que mostra a estabilidade da visão. Observe ainda que mesmo quando os sonhos são tranquilos e geralmente cheios de pensamentos que permanecem de coisas experimentadas anteriormente, como resultado, a pessoa freqüentemente vê em um sonho aqueles com quem mantém contato normal. Como tais sonhos têm sua causa em nosso caráter e não em uma natureza superior, eles não têm grande significado. Ele mostra que não é esse o caso quando diz: “mas não consegui discernir o rosto”. Nisto ele mostra que esse tipo de visão não teve origem em algo que ele já havia experimentado, mas em uma causa mais oculta. Terceiro, considere que visões deste tipo que surgem de uma causa superior, às vezes aparecem para alguém dormindo e outras vezes para aqueles que estão acordados. Estes parecem ser mais verdadeiros e mais certos quando aparecem aos que estão acordados do que quando aparecem aos que dormem, porque a razão é mais livre em quem está desperto e porque no sono não se discerne facilmente a diferença entre revelações espirituais e sonhos frívolos ou comuns. Para mostrar que esta revelação não foi feita a alguém que dormia, mas que estava acordado, ele diz: “Uma imagem estava diante dos meus olhos”. Ele quer dizer aqui que viu isso com os olhos abertos de alguém acordado. Ele também quis expressar isso antes quando disse: “Quando o sono cair sobre os homens” (v. 13), onde esclarece que foi tomado pelo sono. Em seguida, ele conta a maneira como a declaração lhe foi feita, dizendo: “Ouvi uma voz como uma brisa suave”. Observe aqui que aparições deste tipo são feitas ora por um espírito bom, ora por um espírito maligno. Em ambos os tipos, o homem sente medo no início por causa do caráter incomum da visão. Mas quando a aparição procede de um espírito bom, o medo termina em consolação, como fica claro no anjo que consola Daniel (10,18) e quando Gabriel consola Zacarias e Maria em Lucas 1. Um espírito maligno, porém, deixa o homem perturbado. O fato de ele dizer: “Ouvi uma voz como uma brisa suave” demonstra um consolo que pôs fim ao seu antigo medo. Por meio desta afirmação, fica provado que a visão provém de um espírito bom e não de um espírito iníquo, cujas visões mentirosas são freqüentemente mostradas. O final de 1 Reis expressa a mesma coisa: “Eu sairei e serei um espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas”. (22:22) O terceiro livro dos Reis também fala desta forma da aparição feita a Elias: “Depois do terremoto ouviu-se uma voz mansa e delicada, e o Senhor estava na voz”. (19:12) No entanto, devemos notar que às vezes ouvimos grandes perturbações e vozes horríveis, mesmo em visões que vêm de um bom espírito, como fica claro em Ezequiel quando é dito: “Olhei e eis que um vento tempestuoso vinha do norte” (1:4) e depois de muitos versículos são acrescentados: “Ouvi o som de suas asas, como o som de águas poderosas”. (1:24) Apocalipse diz: “E ouvi atrás de mim uma voz alta, como de trombeta”. (1:10) Isto descreve as ameaças ou outros perigos graves contidos neste tipo de revelação. Mas a mensagem aqui deveria ter sido de consolo, e por isso ele apresenta a voz do orador como semelhante a uma brisa suave. - Comentário sobre Jó
Jó 4:17
Finalmente, ele expressa as palavras que afirma lhe terem sido reveladas quando diz: “Pode o homem mortal ser justo diante de Deus?” Ele introduz estas palavras para confirmar a sua opinião que já abordou (v. 7), a saber, que as adversidades não acontecem a ninguém nesta vida, exceto por causa do pecado. Ele apresenta três razões para provar que ninguém pode desculpar-se quando sofre coisas adversas afirmando que está livre do pecado. A primeira delas é tirada de uma comparação do homem com Deus e leva a uma conclusão impossível. Pois se o homem é punido por Deus sem ter culpa, segue-se que o homem seria mais justo do que Deus. A obra da justiça é dar a cada um o que lhe é devido. Portanto, se Deus infligisse punição a alguém que era inocente, a quem a punição não é devida, mas o homem que sofre por causa de Deus não infligisse punição a outro homem sem culpa - o que aconteceria necessariamente se aquele que foi punido por Deus fosse inocente - segue-se que um homem punido por Deus é mais justo do que Deus. Justificar o homem em relação a Deus equivale a justificá-lo em relação a Deus sob o aspecto da justiça. Como talvez isso possa não parecer uma conclusão inadequada para alguém, ele leva o argumento a outra conclusão aparentemente mais inadequada, dizendo: "Pode um homem ser puro diante de seu criador?" Cada coisa tem pureza porque conserva sua própria natureza, que recebe de suas próprias causas. Assim, a pureza de cada efeito depende da sua causa e não pode superar a sua causa em pureza. Assim, um homem não pode ser mais puro que o seu Criador, que é Deus. - Comentário sobre Jó
Jó 4:18
Seu segundo argumento vem de uma comparação com os anjos. É do maior quando ele diz, "Até os que o servem não são estáveis e em seus anjos ele encontra o mal." Esta opinião é clara conforme a fé Católica. A fé Católica sustenta como certo que todos os anjos foram criados bons. Alguns deles caíram através de sua própria culpa do estado de justiça; alguns, porém, alcançaram maior glória. O fato de que os anjos caíram do estado de justiça parece espantoso por duas razões. Uma pertence ao seu poder contemplativo, a outra ao seu poder ativo. Pelo poder contemplativo parece que deveria haver constância nos anjos. É claro que a causa da mutabilidade é a potencialidade; a causa da imutabilidade é o ato. Pois é da natureza da potencialidade que algo possa ser ou não ser. Mas quanto mais algo é completado pelo ato, mais firma é sua posse da unidade, o que é ato em si mesmo é completamente imutável. Repare que assim como a matéria se relaciona com a forma, assim a potencialidade se relaciona com o ato, e a vontade com o bem. O que é bom em si mesmo, a saber Deus, é completamente imutável. Porém as vontades de outras naturezas que não são boas em si mesmas se comparam a ele como potencialidade a ato. Assim quanto mais se apegam a ele, mais confirmadas ficam no bem. Assim pois que os anjos parecem se apegar mais a Deus e em proximidade mais estreita do que outras criaturas, naquilo em que o contemplam mais exatamente, parecem ser mais constantes do que outras criaturas. Contudo não foram constantes. Logo muito menos podem criaturas inferiores como homens, na medida em que se apegam a Deus mediante o o reverenciar-o em servi-lo, ser julgados também como constantes. Porém, pelo poder ativo parece que nos anjos pode haver pouca ou nenhuma depravação. Quanto mais a regra se aproxima da verdadeira medida do reto, tanto menos torção tem. Deus, em quem existe a justiça primeira, dirigindo todas as coisas por sua providência, dispõe as criaturas inferiores através das superiores. Logo, já que são enviados por Deus para dirigir outros, parece haver pouca ou nenhuma perversidade possível nas criaturas superiores chamadas anjos. Assim se pode haver perversidade neles, deve-se acreditar que depravação poderia ser encontrada em qualquer homem, por mais que ele possa parecer. Porém, é preciso se acautelar para que desta opinião, ele não caia no erro de Orígenes que afirma que até agora todos os espíritos criados não são estáveis e podem ser seduzidos à depravação. Pois alguns ganharam pela graça o favor de se apegarem a Deus inalteravelmente ao vê-lo em sua essência. Deste modo, até alguns homens, embora sejam inferiores em natureza aos anjos têm concedido pela graça imunidade da depravação do pecado mortal até mesmo nesta vida. — Comentário sobre Jó
Jó 4:19
Elifaz toma seu terceiro argumento para mostrar que a adversidade vem do pecado, a partir da condição humana que ele une à conclusão do argumento anterior. Assim um argumento poderia ser formado de dois e ele significa isso quando diz: "Quanto mais aqueles que habitam em casas de barro." A condição humana é tal que o corpo é formado de matéria terrena. Ele indica isso dizendo: "Quanto mais aqueles que habitam em casas de barro?" O corpo humano é dito ser barro porque é formado mais completamente de terra e água, os elementos mais pesados, como seu movimento deixa evidente. Assim Gênesis diz: "Deus formou o homem do lodo da terra." (2:7) Este corpo de barro é chamado a casa da alma porque a alma humana está situada no corpo como um homem em uma casa ou um marinheiro em um navio, como o motor do corpo. Havia alguns que diziam, por causa disso, que a alma era apenas acidentalmente unida ao corpo como um homem está para as roupas ou um marinheiro em um navio. Mas ele refuta essa opinião quando acrescenta: "cuja fundação é pó." Por isto é nos dado a entender que a alma humana está unida ao corpo como forma à matéria. Pois a matéria é dita ser a fundação da forma, porque é a primeira parte na geração de uma coisa como a fundação é a primeira parte na construção de uma casa. Agora, ele usa este modo de falar para atribuir o que é da alma ao homem porque a alma é o homem, como alguns mantinham que disseram que o homem não é nada senão uma alma revestida com um corpo, mas porque a alma é a parte mais principal do homem. Cada coisa é geralmente chamada pelo que é mais principal nela. Essas duas coisas que ele diz sobre a fraqueza do homem parecem ser colocadas em oposição ao que ele já disse sobre a excelência dos anjos. Pois a frase: "aqueles que habitam em casas de barro", parece ser colocada em oposição ao que ele disse em "Aqueles que o servem," (v. 18) se apegam a ele e vivem espiritualmente nele. Porém, quando diz: "cuja fundação é pó", isto parece se opor: "nos seus anjos," (v. 18) pois os anjos são incorpóreos em natureza de acordo com o Salmo 103: "Ele faz seus anjos espírito." (v. 4) Ele usa a condição do homem como premissa e assim conclui para seu destino miserável dizendo: "que são comidos como pela traça." Isso pode ser entendido em um sentido literal à primeira vista para referir-se à morte corpórea que o homem sofre necessariamente pelo fato de ter uma fundação terrena. Primeiro, morte natural pela expressão: "que são comidos como pela traça." Pois assim como uma traça corrompe a roupa de que nasce, assim a morte natural do corpo surge de causas interiores. Porém note que este não é o sentido do literal, porque acima ele se dirigiu ao defeito do pecado, quando disse: "e aos seus anjos cobra erro." Assim como a conclusão deve seguir das premissas, esta passagem também deve referir-se ao pecado. O pecado consome a vida da justiça no homem de duas formas. De uma forma, pela corrupção interior, que ele refere em dizendo: "que são comidos pela traça." Assim como a roupa é comida pela traça que nasce dela, assim a justiça de um homem é destruída por aquelas coisas que surgem no homem, como a corrupção dos desejos malvados, pensamentos ruins e outras coisas assim. — Comentário sobre Jó
Jó 4:20
Isto pode também referir-se à morte violenta pois ele diz a seguir, "Entre a manhã e a tarde serão destruídos", porque árvores são cortadas por uma causa fora da árvore mesma. Ele diz distintamente, "entre a manhã e a tarde", porque a morte natural pode certamente ser prevista antes de acontecer por certos sintomas naturais, mas a morte violenta é completamente incerta como se estivesse sujeita a causas diferentes. Por esta razão, um homem não pode saber se viverá da manhã até a tarde. De outra maneira o pecado é corrompido por tentação exterior, que é indicada quando ele diz, "Entre a manhã e a tarde, serão cortados". Considere aqui que a tentação interior não derruba alguém subitamente, mas o supera gradualmente quando através da negligência ele não se importa em conter os primeiros movimentos do pecado nele. Como Qohelet diz, "Aquele que negligencia pequenas coisas, gradualmente cai". (19:1) Da mesma maneira, a roupa que não é agitada, é comida por uma traça. Porém, a tentação exterior geralmente supera um homem subitamente, como Davi que se precipitou no adultério à vista de uma mulher e também muitos que negaram a fé sob tortura. De qualquer maneira que um homem caia em pecado, ele obterá misericórdia se reconhecer seu pecado e se arrepender. Mas porque não há ninguém que possa compreender todos os seus pecados, conforme o texto, "Quem pode compreender seus pecados", (Sl. 18:12) segue que a maioria dos homens não aplica o remédio a seus pecados que os libertará porque não conhecem seus pecados. No versículo seguinte ele expressa isto dizendo, "Como ninguém compreende", para evitar a armadilha dos pecados, "perecerão para sempre", pois a maioria dos homens nunca é libertada do pecado. — Comentário sobre Jó
Jó 4:21
Mas porque há alguns que aplicam remédios contra os pecados, embora não os entendam, como Davi que disse: "Das faltas ocultas me purifica, Senhor", (Sl. 18:12) ele acrescenta: "Os que, porém, permanecerão" do número dos que perecem na eternidade, "são levados longe deles", pois serão separados de sua companhia. "Morrerão", porque embora um homem possa se arrepender de seu pecado, ele ainda não está livre da necessidade de morrer, mas a sabedoria não morrerá neles. Ele diz isto a seguir: "Mas não em sabedoria." Ou quando ele diz: "Morrerão mas não em sabedoria", ele não completa o pensamento que imediatamente precedeu mas sim o que disse um pouco antes, "Eles perecerão na eternidade", de modo que o sentido é que morrerão sem sabedoria. Ou "Os que permanecem" podem significar os filhos que permanecem depois que seus pais morrem, porém porque imitam os pecados de seus pais, são levados para a morte sem sabedoria. Elifaz quer estabelecer a partir de todos estes argumentos que, visto que a condição do homem é tão frágil, enquanto um homem não sabe que ele ou seus filhos vão à perdição, ele facilmente cai em pecado. Então, embora Jó não reconhecesse que era um pecador, deve-se crer que ele e seus filhos sofreram por causa de alguns pecados. — Comentário a Jó