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1 Coríntios 4

Thomas Aquinas

1 Coríntios 4:1

Tendo repreendido os coríntios por se gloriarem em certos ministros, o apóstolo agora os ataca por desprezarem outros ministros. A respeito disso, ele faz duas coisas: primeiro, censura a culpa deles; segundo, ele se concentra em corrigi-los (v. 14). Em relação ao primeiro, ele faz duas coisas: primeiro, censura a imprudência deles em julgar mal os ministros; em segundo lugar, a sua arrogância em menosprezar os ministros de Cristo (v. 6). Em relação ao primeiro, ele faz duas coisas: primeiro, mostra o que certamente deveria ser sentido pelos ministros de Cristo; segundo, que não sejam julgados precipitadamente (v. 2). Primeiro, portanto, ele diz: Eu disse que nenhum de vocês deveria se gloriar nos homens; no entanto, cada um de vocês deve reconhecer a autoridade do nosso ofício, que é o de sermos mediadores entre Cristo a quem servimos - ele se refere a isso quando diz: É assim que se deve considerar-nos, como ministros de Cristo; “Os homens falarão de vós como ministros do nosso Deus” (Is 61:6) – e dos Seus membros que são os fiéis da Igreja, a quem dispensamos os dons de Cristo. Ele se refere a isso quando diz: e despenseiros dos mistérios de Deus, isto é, dos Seus segredos. Estes são os Seus ensinamentos espirituais: “Ele profere mistérios no Espírito” (1 Cor 14,2) ou os sacramentos da Igreja, nos quais o poder divino opera secretamente a salvação; por isso na fórmula de consagração da Eucaristia se diz: “um mistério de fé”. Portanto, ao governar os seus súditos, os prelados da Igreja devem procurar servir somente a Cristo, por amor de Quem apascentam as Suas ovelhas: “Se me amais, apascentai as minhas ovelhas” (Jo 21,17). Além disso, eles deveriam dispensar as coisas de Deus ao povo: “Recebi uma comissão” (1 Cor 9,17). É assim que eles são mediadores entre Cristo e o povo: «Naquele tempo eu estava entre vós e o Senhor» (Dt 5, 5). Esta visão dos prelados da Igreja é necessária para a salvação dos fiéis, pois, a menos que os reconheçam como ministros de Cristo, não lhes obedecerão como Cristo: «Recebestes-me como anjo de Deus, como Cristo Jesus» (Gl 4,14). Mais uma vez, se não os considerassem como mordomos, recusariam receber presentes deles, ao contrário do que diz o Apóstolo: «O que perdoei, se alguma coisa perdoei, foi por amor de vós, na presença de Cristo» (2 Cor 2, 10). - Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:2

Então quando diz: Além disso, é requerido, mostra que não devem julgar precipitadamente em matérias concernentes aos ministros de Cristo. Quanto a isto faz três coisas: primeiro, menciona o padrão pelo qual julgar a fidelidade dos ministros; segundo, mostra que não se importa com este julgamento mas o deixa a Deus (v. 3); terceiro conclui sua proibição contra julgamento precipitado (v. 5). Quanto ao primeiro devem notar-se duas coisas: alguns são ministros fiéis e dispensadores de Cristo, e alguns infiéis. Os ministros infiéis não buscam o bem do povo e a honra de Cristo quando dispensam os mistérios divinos: "Não fostes fiéis na riqueza injusta" (Lc 16:11). Mas os fiéis buscam a honra de Deus e o bem de seus membros em todas as coisas: "Quem pois é o servo fiel e prudente, a quem o seu senhor constituiu sobre a sua casa?" (Lc 12:42). Quem são os ministros fiéis será revelado no julgamento divino que há de vir. Mas os coríntios desejavam precipitadamente discutir quais dispensadores eram fiéis e quais infiéis. E isto é o que diz: além disso, agora, isto é, no tempo presente, é requerido, isto é, está sendo discutido, que os dispensadores se achem dignos de confiança. Pois julgavam que muitos eram infiéis, supondo que dificilmente alguém era fiel: "Muitos há que se gloriam da sua fidelidade, mas homem fiel quem o achará?" (Pv 20:6). — Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:3

Então, quando ele diz: Mas comigo, ele mostra que não se importa com esse julgamento. Primeiro, ele afirma que não está preocupado com o julgamento dos outros neste ponto, dizendo: Mas para mim, que sou o menor dos dispensadores, é uma coisa muito pequena, isto é, considero um bem trivial, ser julgado por você como fiel ou infiel. Mas para que não suponham que ele diga essas coisas por desdém, como se desprezasse a opinião deles por vir de pessoas inúteis, acrescenta ele, ou por qualquer tribunal humano, isto é, pelo intelecto das pessoas que julgam neste tempo. Como se dissesse: Estou pouco preocupado com o seu julgamento ou com o de qualquer homem: “Não desejei o dia do homem, você sabe”. (Jeremias 17:16). Deve-se notar, contudo, que se deve considerar o julgamento dos homens de duas maneiras: primeiro, em relação aos outros que são edificados ou escandalizados pelo que ouvem. Por isso os santos não consideravam uma coisa pequena, mas muito importante, ser julgados pelos homens, pois o Senhor disse: “Para que vejam as vossas boas obras e deem glória ao vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5:16). Em segundo lugar, em relação a si mesmos, e então eles não se importam muito, porque não desejam a glória humana: “Nem buscamos a glória dos homens, nem de vós nem de outros” (1 Tessalonicenses 2:6), nem temem as repreensões dos homens: “Não temas a reprovação dos homens, e não tenhas medo das suas blasfêmias” (Is 51:7). Por isso o Apóstolo diz significativamente: Mas comigo, isto é, no que me diz respeito. Nem o considera como nada, mas como uma coisa pequena, porque as coisas temporais, entre as quais a boa reputação encontra lugar, não são bens nulos, mas bens muito pequenos, como diz Agostinho no livro Sobre o Livre Arbítrio. Por isso também é afirmado em Sab (7:9): “Todo ouro comparado a ela é como um pouco de areia”. Em segundo lugar, mostra que nem sequer pretende julgar a si mesmo, dizendo: eu nem me julgo. Mas isto parece entrar em conflito com uma declaração posterior: “Se nos julgássemos verdadeiramente, não seríamos julgados” (1 Coríntios 11:31). Portanto, cada um deveria julgar a si mesmo. Contudo, convém salientar que cada um deve julgar-se com o juízo do auto-exame, de que aqui fala o Apóstolo, segundo o espírito do Sl 77 (v. 6): “Medito e esquadrinho o meu espírito”, bem como com o juízo de condenação e reprovação diante dos males evidentes: “Reprovarei os meus caminhos aos seus olhos” (Jb 13,15). Mas com o juízo de absolvição a pessoa não deve presumir-se de julgar-se inocente: «Embora eu fosse inocente, a minha própria boca me condenaria; embora eu fosse inocente, ele me provaria perverso» (Jb 9,20). - Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:4

Ele atribui a razão disso quando diz: não tenho consciência de nada contra mim, ou seja, não tenho consciência de nenhum pecado mortal: “Meu coração não me censura em nenhum dos meus dias” (Jb 27,6); mas por isso não sou absolvido, isto é, isso não é suficiente para me declarar justo, porque certos pecados podem estar escondidos em mim, que não conheço: "Quem pode discernir os seus pecados?" (Sl 19:12); “Sou irrepreensível; não me considero” (Jó 9:21). Em terceiro lugar, ele conclui àquele a quem este julgamento deve ser reservado, dizendo: É o Senhor quem me julga, ou seja, é competência exclusiva de Deus julgar se sou um ministro fiel ou não, porque isto pertence à intenção do coração, que só Deus pode pesar: “O Senhor pesa o espírito” (Pv 16:2); "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o poderá compreender? Eu, o Senhor, esquadrinho a mente e provo o coração" (Jeremias 17:9). - Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:5

Quando ele diz: Não julgue antes, ele conclui a proibição de julgamento precipitado. A respeito disso, ele faz três coisas: primeiro, proíbe-os de antecipar o julgamento de Deus, dizendo: Portanto, seguindo o meu exemplo, que não me julgo nem me importo de ser julgado pelos outros, mas reservo meu julgamento a Deus, não pronuncie o julgamento antes do tempo, porque "cada assunto tem seu tempo" (Ec 8:6), antes que o Senhor venha julgar: "O Senhor entra em julgamento com os anciãos e príncipes do seu povo" (Is 3:14). Por isso o próprio Senhor disse: “Não julgueis” (Mateus 7:1). Contudo, isto deve ser entendido das coisas ocultas, porque Deus encarregou os homens de julgar as coisas manifestas: “Ouvi então e julgai o que é justo” (Dt 1,16). Pois algumas coisas se manifestam não só pela prova do fato, sendo notório, mas também pela confissão ou pelo depoimento comprovado de testemunhas. Mas Deus reserva coisas ocultas para Seu próprio julgamento. Mas as coisas que estão em nosso coração ou são feitas em segredo estão escondidas para nós mesmos. Destes diz no Sal 4 (v. 5): “As coisas que dizeis em vossos corações, lamentai-vos em vossas camas”. Portanto, um homem é tão precipitado ao julgar estas questões como um juiz delegado, que excede o seu mandato ao julgar assuntos que não lhe foram confiados. Conseqüentemente, um julgamento é precipitado quando uma pessoa julga sobre assuntos duvidosos; mas é perverso quando ele pronuncia um julgamento falso. Ora, embora o julgamento não deva ser feito a respeito de pessoas, como quando uma pessoa julga como mau um homem que é bom, ainda assim é mais grave, quando é um julgamento perverso sobre as próprias coisas, como quando uma pessoa diz que a virgindade é má e a fornicação boa, contra o que Is (5:20) diz: “Ai de vós que chamais ao bem mal e ao mal bem”. Em segundo lugar, ele descreve a plenitude do julgamento divino que está por vir, dizendo: quem, a saber, o Senhor vindo para julgar, trará à luz as coisas agora escondidas nas trevas, ou seja, tornará claras e óbvias as coisas feitas secretamente nas trevas; e revelará os propósitos do coração, ou seja, todos os segredos do coração: “Ele revela as profundezas das trevas e traz à luz a sombra da morte” (Jó 12,22); “Voltarei a Jerusalém com lâmpadas” (Sof 1:12). Isto, claro, refere-se tanto às coisas boas como às coisas más que foram cometidas e cobertas pela penitência, para o Salmo 32 (v.1): “Bem-aventurado aquele cujas transgressões são perdoadas, cujo pecado é coberto”. Em terceiro lugar, ele menciona o fruto que os homens bons obterão do julgamento divino, dizendo: Então todo homem receberá de Deus o seu elogio, isto é, todo homem que é bom. Esta recomendação será verdadeira, porque Deus não pode enganar nem ser enganado: «O seu louvor não vem dos homens, mas de Deus» (Rm 2,29); “Não é o homem que se recomenda que é aceito, mas aquele a quem o Senhor recomenda” (2 Cor 10,18). - Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:6

Após censurar os Coríntios pela temeridade com que julgavam os ministros de Cristo, o Apóstolo agora censura a auto-satisfação com que desprezavam os ministros de Cristo. Quanto a isto ele faz três coisas: primeiro, ele afirma sua proposição; segundo, ele atribui uma razão (v. 7); terceiro, ele diminui sua atitude desdenhosa (v. 8). Quanto ao primeiro deve ser notado que acima quando o Apóstolo tentou reprimir a rivalidade sobre ministros entre os Coríntios, ele havia usado os nomes de bons ministros de Cristo, como quando disse: "Cada um de vós diz, 'Eu sou de Paulo,' ou 'Eu sou de Apolo,' ou 'Eu sou de Cefas'" (1 Co 1:12) e novamente: "Seja Paulo ou Apolo ou Cefas" (1 Co 3:22). Mas de fato eles não estavam se gloriando nos bons ministros de Cristo ou discordando sobre eles mas sobre os falsos apóstolos, aos quais ele escolheu não nomear, para que não parecesse que ele estava falando contra eles por ódio ou inveja. Pelo contrário, havia empregado seu próprio nome e os nomes de outros bons pregadores. E é isto que ele está dizendo agora: Mas tudo isto, irmãos, a saber, o que eu disse sobre os ministros em quem vos gloriais e por quem competis, eu apliquei a mim mesmo e a Apolo. Pois diz em Pv (1:6): "Para entender um provérbio e uma figura, as palavras dos sábios e seus enigmas", e isto para vosso benefício: "Todas as coisas são para vosso benefício" (2 Co 4:15); para que aprendais por nós que nenhum de vós seja inchado, isto é, com orgulho, em favor de um, isto é, por qualquer um dos ministros de Cristo, contra outro [acima do que está escrito], isto é, além da forma descrita no que precede; pois Sb (4:19) afirma: "Ele os lançará inchados e mudos ao chão." — Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:7

Então ele atribui a razão pela qual não se deve ser soberbo contra outro, dizendo: Pois quem vê em ti algo diferente? Isto pode ser interpretado de duas formas: de uma forma de modo que signifique, 'Quem te distinguiu da massa dos condenados?' Tu não podes te distinguir; logo não tens em ti nada como fundamento para te exaltares. Dessa distinção Sl 43 (v.1): 'Julga-me, ó Deus, e distingue minha causa de um povo ímpio.' Pode ser entendido de outra forma: Quem vê em ti algo diferente para fazer-te superior ao teu próximo? Isto é algo que tu não podes fazer; logo não deves exaltar-te acima dele. Dessa exaltação Eclesiástico (33:11) diz: 'Na plenitude de seu conhecimento Deus os distinguiu e designou seus caminhos diferentes.' Mas não há distinção entre os homens, enquanto são fiéis de Cristo, porque 'nós, sendo muitos, somos um corpo em Cristo' (Rm 12:5); 'Deus não fez distinção entre nós e eles, purificando seus corações pela fé' (At 15:9). Então ele rejeita uma razão aparente. Pois alguém poderia ser distinguido de homens bons ou de homens maus, porque é melhor que eles por causa das bênçãos que tem, tais como fé, sabedoria e semelhantes. Mas o Apóstolo exclui isto, dizendo: Que tens tu que não tenhas recebido? Como se dissesse: Nada; pois todas as bênçãos vêm de Deus: 'Quando abres tua mão, são preenchidos com coisas boas' (Sl 104: 28); 'Todas as coisas vêm de ti, e do que é teu nós te demos' (1 Cr 29:14). Disto ele tira sua conclusão, dizendo: Se então o recebeste, por que te glorias como se não fosse um dom? Portanto, uma pessoa se gloria como se não tivesse recebido, quando se gloria em si mesma e não em Deus, como aqueles mencionados em Sl 49 (v.6): 'Homens que confiam em suas riquezas e se gloriam da abundância de suas posses.' Esta é a forma como a primeira forma de soberba se exprime, a saber, quando uma pessoa, tendo orgulho no que tem, diz que o tem de si mesma, como Sl 12 (v. 4): 'Com nossa língua prevaleceremos, nossos lábios estão conosco; quem é nosso mestre?' Mas uma pessoa se gloria como quem recebe, quando se glorifica em si mesma atribuindo tudo a Deus, como foi dito acima (1:31): 'Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.' Gloriar-se desta forma não é soberba mas humildade diante de Deus, a Quem um homem dá glória como em Eclesiástico (51:17): 'Aquele que me dá sabedoria, dar-lhe-ei glória.'

1 Coríntios 4:8

Então, quando ele diz, Já vós estais fartos!, ele zomba do orgulho daqueles que desprezavam os apóstolos de Cristo: primeiro, em geral; depois especificamente. Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas: primeiro, ele ridiculariza a eles por presunção excessiva em si mesmos; segundo, por desprezarem os apóstolos (v. 9). Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas: primeiro, ele os ridiculariza por presumirem atribuir a si mesmos o que não tinham; segundo, por atribuírem a si mesmos uma abundância de coisas boas, algumas das quais são internas. Quanto a estas, ele diz, já vós estais fartos, isto é, parece-vos que estais fartos, isto é, completamente saciados com deleites espirituais, sobre o que o Sl 17 (v. 15) diz: "Serei saciado, quando vosso resplendor aparecer." Mas teria sido verdade dizer a eles, já vós estais fartos, não com plenitude mas com náusea: "Aquele que está saciado aborrece até o favo de mel" (Pr 27:7). Mas alguns bens eram externos. Quanto a estes, ele diz, Já vós vos enriquecestes! Parece-vos, com riquezas espirituais sobre o que Is (33:6) diz: "Riquezas de salvação, sabedoria e conhecimento." Isto é semelhante a Ap (3:17) "Dizes: Sou rico, enriqueci-me, e de nada tenho falta." Mas isto parece estar em conflito com sua afirmação anterior (1:5): "Por todo o modo abundastes em tudo, ele com toda a palavra e todo conhecimento." A resposta é que a afirmação anterior se referia aos bons homens entre eles; mas ali ele está falando sobre os presunçosos, que se orgulhavam do que não tinham. Ou uma distinção pode ser feita entre plenitude e riqueza, de modo que a primeira se refere ao uso da graça para desfrutar das coisas espirituais, enquanto que riquezas se referiria à própria posse da graça. Em segundo lugar, quando ele diz, Sem nós vos tornastes reis!, ele brinca com eles por atribuírem a si mesmos individualmente coisas que não possuíam individualmente; por isso ele diz, sem nós vos tornastes reis, isto é, parece-vos que o reino vos pertence e não a nós. Pois tinham sido enganados pelos falsos apóstolos a tal ponto como para supor que somente eles possuíam as verdades da fé, que consiste no reino de Deus, e que o Apóstolo e seus seguidores estavam em erro. Contra estes Is (5:8): "Habitais vós sozinhos no meio da terra?" E para que não pareça que o Apóstolo diz isto por inveja, ele continua: E quem dera fôsseis reis! Assim ele deseja que tivessem a verdadeira fé: "Queria para Deus que, não somente por pouco tempo, mas também por muito tempo, fôsseis todos assim como eu sou, salvo estas cadeias" (At 26:29). E para oferecer-lhes um exemplo de humildade, ele acrescenta: para que também reinásseis conosco! Como se dissesse: Se tendes algo que valha a pena, não sou demasiado orgulhoso para vos seguir, como vós vos recusais a nos seguir, contrário ao que ele aconselha em Gl (4:18): "Zelo em coisa boa sempre é bom." Devê notar-se que o Apóstolo aqui toca em quatro tipos de orgulho. O primeiro é quando uma pessoa considera que o que tem não foi recebido de Deus. Ele toca nesta forma quando diz: Se pois recebestes, por que vos gloriaisquanto como se não houvésseis recebido? O que também pode pertencer à segunda forma na qual uma pessoa pensa que recebeu pelos seus próprios méritos. A terceira forma é quando uma pessoa se gloria de ter algo que realmente não tem. Quanto a isto, ele diz: Já vós estais fartos! Já vós vos enriquecestes! A quarta é quando uma pessoa, desprezando os outros, deseja parecer única. Quanto a isto, ele diz: Sem nós vos tornastes reis. — Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:9

Então, quando ele diz: Pois eu penso que é Deus, ele zomba deles por desprezarem os apóstolos de Cristo. Primeiro, ele descreve o desprezo ironicamente; em segundo lugar, a causa do desprezo (v. 9b). Ele diz, portanto: acabei de dizer que vocês se tornaram reis sem nós, pois penso, isto é, você parece pensar, que Deus nos exibiu como últimos apóstolos, enquanto diz abaixo (12:28): "Deus constituiu na igreja os primeiros apóstolos. Desta forma se cumpre o que é afirmado em Mateus (20:26): "Os primeiros serão os últimos, e os últimos, os primeiros". considerados por último pelos homens, como se não fossem dignos de viver. Isto é o que os apóstolos eram considerados pelos homens do mundo: “Somos considerados como ovelhas para o matadouro” (Sl 44:22). Então, quando ele diz que nos tornamos um espetáculo, ele indica a causa do desprezo. A respeito disso, deve-se notar que quando as pessoas eram condenadas à morte, os homens eram convocados para a execução como se fossem um espetáculo, especialmente quando eram condenados a serem lançados aos animais selvagens. Agora, porque os apóstolos foram, por assim dizer, designados para a morte, ele acrescenta: nós nos tornamos um espetáculo para o mundo, como se o mundo inteiro tivesse se reunido para testemunhar sua matança: “Tu nos provocaste o escárnio dos nossos vizinhos” (Sl 44:13). Depois explica o que queria dizer com a palavra mundo, quando continua: aos anjos e aos homens, a saber, o bem e o mal. Pois os homens bons compareceram ao espetáculo para simpatizar e testemunhar um exemplo de paciência, mas os homens maus para perseguir e ridicularizar. - Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:10

Então, quando ele diz: Somos tolos, ele zomba deles em particular por desprezarem os apóstolos. Primeiro, ele menciona o desprezo; em segundo lugar, a causa (v. 11). Em relação ao primeiro, ele os insulta por atribuirem grandeza a si mesmos e deficiências aos apóstolos. Primeiro, no que diz respeito ao entendimento perfeito; por isso ele diz: Somos tolos por causa de Cristo, isto é, somos considerados tolos, porque pregamos a cruz de Cristo: “A palavra da cruz é loucura para aqueles que estão perecendo (1 Coríntios 1:18), e também porque sofremos reprovação e oposição por causa de Cristo, de acordo com Sab (5:4): “Nós, tolos! Pensávamos que sua vida era uma loucura e que seu fim era sem honra”, e como exemplificado em At (26:24): “Festo disse em alta voz: ‘Paulo, você está louco; seu grande aprendizado está deixando você louco.'" Mas você, em sua opinião, é sábio em Cristo, ou seja, porque você não ousa confessar Sua cruz publicamente nem sofrer perseguição por ele: "O preguiçoso é mais sábio aos seus próprios olhos do que sete homens que podem responder com discrição." (Pv 26:16). Em segundo lugar, no que diz respeito ao poder de agir quando ele diz: Somos fracos, nomeadamente, nas coisas externas por causa das aflições que suportamos: “Eu me gloriarei ainda mais nas minhas fraquezas” (2 Coríntios 12:9); mas tu, na tua opinião, és forte, nomeadamente nas coisas materiais, porque vives em segurança e sem assédio: “Ai de vós que sois heróis no beber vinho e homens valentes na mistura de bebidas fortes” (Is 5,22). Você é tido em honra, ou seja, aos seus próprios olhos você é digno de honra, porque não sofre vergonha pública: “Sou filho de sábios, filho de reis antigos” (Is 19,11), mas nós em descrédito, segundo a sua opinião e a dos outros, porque somos considerados desprezíveis: “Deus escolheu o que é baixo e desprezado” (1 Cor 1,28). E, no entanto, a verdade é exatamente o oposto, pois só aqueles que desprezam a Deus são dignos de desprezo: “Aqueles que me desprezam serão pouco estimados” (1Sm 2:30). - Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:11

Então quando ele diz, Até o presente, ele divulga a causa deste escárnio: primeiro, ele atribui a falta de bens temporais como a causa; segundo, os males que sofreram (v. 12); terceiro, ele chega à sua conclusão (v. 15). Quanto ao primeiro ele menciona as privações que sofreram nas coisas necessárias; daí no tocante à comida e bebida ele diz: Até o presente temos fome e sede, a saber, sem interrupção desde o tempo de nossa conversão até o momento presente: "Em fome e sede" (2 Cor 11:17). Quanto à roupa ele diz: andamos nus, isto é, por causa de nossa necessidade de roupa, pois somos às vezes despojados: "Eles jazem despidos a noite toda, sem roupa, e não têm cobertura no frio" (Jó 24:7). Mas isto parece conflitar com Sl 37 (v. 25): "Não vi o justo desamparado ou seus filhos pedindo pão." A resposta é que embora os apóstolos sofreram, não foram abandonados, porque a providência divina estabeleceu limites em sua abundância e suas necessidades de acordo com o que era apropriado para exercitar a virtude. Daí o Apóstolo diz em Fl (4:12): "Aprendi o segredo de enfrentar plenitude e fome, abundância e falta. Posso fazer todas as coisas naquele que me fortalece." Segundo, ele menciona sua falta de coisas pertencentes aos melhores aspectos da vida humana, o primeiro dos quais é o respeito dos outros. Mas receberam o oposto: Somos golpeados, o que visa mais à vergonha que ao castigo; daí lemos de Cristo que escupiram em sua face e o esbofetearam. O segundo é paz e sossego. Aqui novamente eles suportaram o oposto: e sem moradia, tanto porque foram expulsos de lugar em lugar por seus perseguidores: "Se vos perseguirem em uma cidade, fugi para outra" (Mt 10:23), quanto porque iam por toda parte para realizar seu ofício: "Vos designei para que vades" (Jo. 15:16). — Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:12

A terceira é a ajuda dos servos. Mas eles experimentaram o contrário: e nós trabalhamos, trabalhando com as próprias mãos, tanto porque muitas vezes não recebiam nada de ninguém para sustentá-los, como porque ganhavam a vida com o trabalho das próprias mãos, seja para não serem um fardo para os fiéis ou para rejeitar os falsos apóstolos que pregavam por dinheiro, e também porque queriam dar aos ociosos um exemplo de trabalho, como diz em 2 Tessalonicenses (3:9); por isso Paulo diz: “Estas mãos atenderam às minhas necessidades e aos que estavam comigo” (At 20:34). Depois, quando diz: somos injuriados, abençoamos, ele menciona os males que os apóstolos suportaram: primeiro, em palavras quando diz: somos injuriados, isto é, os homens falam mal de nós, seja para nos depreciar, seja para nos insultar, até mesmo para nos amaldiçoar: "Todos me amaldiçoam" (Jr 15,10), e nós abençoamos, ou seja, retribuímos o bem com o mal: "Não retribuais o mal com o mal, mas pelo contrário, abençoai" (1 Pd 3,9). Em segundo lugar, nas ações; por isso diz: quando somos perseguidos, não só porque somos perseguidos de um lugar para outro, o que é uma perseguição em sentido estrito, mas também porque somos perseguidos de muitas maneiras: “Muitos são os meus perseguidores e os meus adversários” (Sl 119, 157), e nós suportamo-lo, nomeadamente, em Cristo: “O homem paciente perseverará até ao momento certo” (Eclo 1, 23). - Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:13

Em terceiro lugar, ele toca na causa de cada um quando diz: somos caluniados, isto é, chamados de feiticeiros, malfeitores e inimigos de Deus: "Vem a hora em que todo aquele que vos matar pensará fazer um serviço a Deus" (Jo. 16:2); Por que não fazer o mal para que venha o bem?—como alguns nos caluniam afirmando que nós dizemos." (Rom 3:8); porém rogamos a Deus por aqueles que nos perseguem e caluniam: "Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem" (Mt 5:44). Em seguida, quando ele diz, tornamo-nos, ele resume seu desprezo, dizendo: Por causa do acima exposto, tornamo-nos, e agora somos, como a escória do mundo, isto é, tanto judeus como gentios pensam que o mundo é manchado por nós e que seria purificado por nosso assassinato, a escória de todos. Escória é a sujeira raspada de frutas ou ferro ou outras coisas. Ele diz, e agora somos, porque sofrem estas coisas sem interrupção. Mas isso cessará algum dia segundo a Sabedoria (5:4): "Este é o homem de quem outrora fizemos troça e fizemos alvo de zombaria," e depois continua em (5:5): "Por que foi contado entre os filhos de Deus?" — Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:14

Depois de censurar os Coríntios por julgarem precipitadamente os apóstolos e desrespeitosamente desprezá-los, o Apóstolo agora se aplica a corrigi-los. Primeiro, por conselho oral; em segundo lugar, por exemplos (v. 16); em terceiro lugar, com a vara da correção (v. 18). A respeito do primeiro, ele faz três coisas: primeiro, diz como ele pretende admoestá-los, dizendo: Escrevo estas coisas, que até agora disse na epístola, não para vos envergonhar de uma forma má, que conduz ao desespero, embora gostaria que fôsseis perturbados com o tipo de confusão que evita o pecado: "Há confusão que traz pecado, e há confusão que traz glória e graça" (Eclo 4:25). Mas para vos admoestá-los com os conselhos acima como meus filhos amados: "Tendes filhos? Disciplinai-os e tornai-os obedientes desde a juventude" (Eclo 7:25). — Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:15

Em segundo lugar, ele mostra a maneira correta de admoestrar, dizendo: Pois embora tenhais inumeráveis mestres em Cristo, não tendes muitos pais. Aqui deve-se notar que um pai é aquele que gera, mas um mestre alimenta e treina a criança: "A lei foi nosso tutor até Cristo vir" (Gl 3:24). Portanto, o Apóstolo se chama pai deles em Cristo, porque foi o primeiro a lhes pregar o Evangelho. Daí ele atribui a razão para isso quando continua: Pois eu vos gerei em Cristo Jesus pelo evangelho. Mas gerar é um processo que leva à vida; e o homem vive em Cristo pela fé: "Aquilo que agora vivo na carne, vivo-o na fé do Filho de Deus" (Gl 2:20). A fé porém vem do ouvir; e o ouvir pela palavra, como se diz em Rm (10:17). Daí a palavra de Deus é a semente pela qual o Apóstolo os gerou em Cristo: "Por sua própria vontade ele nos gerou pela palavra da verdade" (Tg 1:18). Mas ele chama outros de mestres, porque os ajudaram depois de receberem a fé. Dessa forma nos é dado a entender que quanto à pregação do Evangelho, há a mesma relação entre mestre e pai como a entre aquele que rega e aquele que planta e aquela entre construtor e superestrutura para aquele que coloca o fundamento. — Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:16

Então, quando ele diz, eu peço a você, ele começa a corrigi-los com seu próprio exemplo. Primeiro, ele os exorta a seguirem seu exemplo, dizendo: Então, como vocês são meus filhos e os bons filhos devem imitar seus pais, exorto-os a serem meus imitadores, para não julgarem precipitadamente (assim como eu não faço, porque nunca pretendo me julgar), mas para pensarem humildemente de si mesmos e dos outros. Portanto, não foi por acaso que ele disse anteriormente: Nós somos fracos, mas vocês são fortes, “mas para que possamos nos dar um modelo para nos imitar” (2 Tessalonicenses 3:4). Observe que aqui ele está chamando de irmãos as mesmas pessoas, a quem acabara de chamar de filhos. Contudo, ele os chamou de filhos em Cristo, porque os gerou não para si mesmo, mas para Cristo; e porque ele próprio foi gerado em Cristo, ele poderia considerá-los como seus irmãos e filhos. Conseqüentemente, eles deveriam tê-lo imitado como pai na mesma medida em que ele imitou a Cristo, que é o pai principal de todos. Isto, portanto, remove dos súditos uma desculpa para seguirem os maus exemplos de seus prelados; eles deveriam antes imitar seus prelados apenas na medida em que imitam a Cristo, que é o padrão infalível da verdade. Por isso, Ele se deu como exemplo aos apóstolos quando disse: “Eu vos dei o exemplo, para que assim como eu fiz, vocês também o façam” (Jo 13:15). Paulo, naturalmente, seguiu este exemplo: “O meu pé seguiu os seus passos, guardei o seu caminho e não me desviei dele” (Jb 23,11). - Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:17

Em segundo lugar, ele remove a desculpa da ignorância, dizendo: Portanto, enviei-te Timóteo, meu filho amado e fiel no Senhor, o que concorda com o que ele disse de Timóteo em Filipenses (2:20): “Não tenho ninguém como ele, que esteja genuinamente ansioso pelo seu bem-estar”. Ele te lembrará dos meus caminhos em Cristo, ou seja, te ensinará os meus procedimentos, ou seja, tudo o que deve ser feito e te aconselhará a segui-los: “Pede os caminhos antigos, que é o bom caminho, e anda por ele” (Jr 6:16), cujos caminhos estão em Cristo Jesus. Por isso não deves desdenhar de segui-los: «Mostra-me, Senhor, os teus caminhos» (Sl 25,4); ou considerá-los um fardo, porque é isso que geralmente coloco sobre todos; por isso ele diz: Como eu os ensino em todos os lugares, em todas as igrejas: Vocês ouviram a palavra da verdade do Evangelho, que chegou a vocês, como também está no mundo inteiro (Colossenses 1:5). Ou meus caminhos podem referir-se a boas obras e, como eu as ensino em todos os lugares, a doutrinas. Pois Timóteo foi enviado para induzi-los a imitar as obras e a seguir os ensinamentos do Apóstolo. - Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:18

Depois, quando ele diz: Como se eu não fosse chegar a vós, ameaça-os com a vara da correção. Primeiro, mostra que merecem a vara da correção, dizendo: Como se eu não fosse chegar a vós, alguns se tornam arrogantes, como se não temessem ser convencidos do orgulho por mim; e contudo mereciam a vara, porque os humildes são corrigidos apenas por palavras, mas os soberbos necessitam de açoites: "Olhai para todos os que são soberbos, e confundi-os e esmagai os ímpios em seu lugar" (Jó 40:7). — Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:19

Em segundo lugar, ele lhes conta sobre sua visita, quando virá julgá-los. Primeiro, ele prediz sua vinda quando diz: Mas irei até você em breve. Mas porque em Provérbios (16,9) diz: “O coração do homem dispõe o seu caminho, mas é necessário que o Senhor lhe dirija os passos”, acrescenta: Se o Senhor quiser: “Se o Senhor quiser e se vivermos, faremos isto ou aquilo” (Tg 4,5). Em segundo lugar, diz-lhes que fará um juízo minucioso quando diz: Descobrirei, nomeadamente, através de um processo judicial: «A causa que não conhecia, procurei diligentemente» (Jb 29,16); não a conversa dessas pessoas arrogantes, mas o seu poder, ou seja, as pessoas não pertencem ao reino de Deus, porque são ricas em palavras: “A mera conversa tende apenas ao querer (Pv 14:23). - Comentário sobre 1 Coríntios

1 Coríntios 4:20

Terceiro, ele atribui a razão, dizendo: O Reino de Deus não consiste em palavras mas em virtude; "Nem todo aquele que me diz, Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai (Mt 7:21). — Comentário a 1 Coríntios

1 Coríntios 4:21

Por fim, ele ameaça castigá-los, mas deixa a escolha para eles, dizendo: O que vocês desejam? Irei ter convosco para vos castigar com vara, isto é, com disciplina ou com amor, isto é, com demonstração de amor, num espírito de mansidão? Como se dissesse: depende de você se tratarei ou não com mais severidade com você. Pois se você persistir no caminho tolo, devo ir até você com a vara, como diz Pr (22:15): “A loucura está ligada ao coração da criança, e a vara da correção o afugentará”. Mas se vocês corrigirem suas vidas, agirei com caridade e mansidão: “Vocês que são espirituais, instruam esse tal com espírito de mansidão” (Gálatas 6:1). Porém, isso não significa que se ele viesse com a vara, não viria em caridade, pois diz em Pr (13:24): “Quem poupa a vara odeia seu filho; - Comentário sobre 1 Coríntios