Novo Testamento

Marcos 4

18

1E outra vez começou a ensinar junto do mar, e juntou-se a elle uma grande multidão, de sorte que elle, entrando em um barco, se assentou dentro, no mar; e toda a multidão estava em terra junto do mar.

2E ensinava-lhes muitas coisas, e lhes dizia na sua doutrina:

3Ouvi: Eis que saiu o semeador a semear;

4E aconteceu que, semeando elle, uma parte da semente caiu junto do caminho, e vieram as aves do céu, e a comeram;

5E outra caiu sobre pedregaes, onde não havia muita terra, e nasceu logo, porque não tinha terra profunda;

6Mas, saindo o sol, queimou-se; e, porque não tinha raiz, seccou-se.

7E outra caiu entre espinhos, e, crescendo os espinhos, a suffocaram e não deu fructo.

8E outra caiu em boa terra e deu fructo, que vingou e cresceu; e um produziu trinta, outro sessenta, e outro cem.

9E disse-lhes: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

10E, quando se achou só, os que estavam junto d'elle com os doze interrogaram-n'o ácerca da parabola.

11E elle disse-lhes: A vós é dado saber os mysterios do reino de Deus, mas aos que estão de fóra todas estas coisas se dizem por parabolas,

12Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que se não convertam, e lhes sejam perdoados os seus peccados.

13E disse-lhes: Não sabeis esta parabola? como pois entendereis todas as parabolas?

14O que semeia, semeia a palavra;

15E os que estão junto do caminho são aquelles em quem a palavra é semeada; mas, tendo-a ouvido, vem logo Satanaz e tira a palavra que foi semeada nos seus corações.

16E da mesma sorte os que recebem a semente sobre pedregaes; os quaes, ouvindo a palavra, logo com prazer a recebem,

17Mas não teem raiz em si mesmos, antes são temporãos; depois, sobrevindo tribulação ou perseguição por causa da palavra, logo se escandalizam.

18E outros são os que recebem a semente entre espinhos, os quaes ouvem a palavra,

19Mas os cuidados d'este mundo, e os enganos das riquezas e as ambições d'outras coisas, entrando, soffocam a palavra, e fica infructifera.

20E os que recebem a semente em boa terra, são os que ouvem a palavra e a recebem, e dão fructo, um trinta, outro sessenta, outro cem.

21E disse-lhes: Vem porventura a candeia para se metter debaixo do alqueire, ou debaixo da cama? não vem antes para se collocar no velador?

22Porque nada ha encoberto que não haja de ser manifesto; e nada se faz para ficar occulto, mas para ser descoberto.

23Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça.

24E disse-lhes: Attendei ao que ides ouvir. Com a medida com que medirdes ser-vos-ha medido, e ser-vos-ha accrescentado.

25Porque ao que tem, ser-lhe-ha dado; e, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.

26E dizia: O reino de Deus é assim como se um homem lançasse semente á terra,

27E dormisse, e se levantasse de noite e de dia, e a semente brotasse e crescesse, não sabendo elle como.

28Porque a terra por si mesma fructifica, primeiro a herva, depois a espiga, e por ultimo o grão cheio na espiga.

29E, quando já o fructo se mostra, mette-lhe logo a foice, porque está chegada a ceifa.

30E dizia: A que assimilharemos o reino de Deus? ou com que parabola o compararemos?

31É como um grão de mostarda, que, quando se semeia na terra, é a mais pequena de todas as sementes que ha na terra;

32Mas, tendo sido semeado, cresce; e faz-se a maior de todas as hortaliças, e cria grandes ramos, de tal maneira que as aves do céu podem aninhar-se debaixo da sua sombra.

33E com muitas parabolas taes lhes fallava a palavra, segundo o que podiam ouvir.

34E sem parabolas nunca lhes fallava; porém tudo declarava em particular aos seus discipulos.

35E, n'aquelle dia, sendo já tarde, disse-lhes: Passemos para a outra banda.

36E elles, deixando a multidão, o levaram comsigo, assim como estava no barco; e havia tambem com elle outros barquinhos.

37E levantou-se uma grande tempestade de vento, e subiam as ondas por cima do barco, de maneira que já se enchia.

38E elle estava na pôpa dormindo sobre uma almofada, e despertaram-n'o, e disseram-lhe: Mestre, não se te dá que pereçamos?

39E elle, despertando, reprehendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e houve grande bonança.

40E disse-lhes: Porque sois tão timidos? Porque não tendes fé?

41E sentiram um grande temor, e diziam uns aos outros: Mas quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?