João 13
Thomas Aquinas
João 13:1
Acima, o Evangelista apresentou alguns dos eventos que levaram à paixão e morte de Cristo; nesta parte, ele mostra como Cristo preparou seus discípulos antes de sua paixão. Primeiro, vemos como ele os formou pelo seu exemplo; em segundo lugar, como os confortou com suas palavras (c 14); em terceiro lugar, como os fortaleceu pela ajuda de suas orações (c 17). Concernente ao primeiro, ele faz duas coisas: primeiro, apresenta o exemplo que Cristo deu para seus discípulos imitarem; e em segundo lugar vemos a fraqueza dos discípulos, que ainda não estavam prontos para segui-lo (v 21). Concernente ao primeiro, ele faz três coisas: primeiro, ele expõe o exemplo; em segundo lugar, mostra que o exemplo foi útil (v 6); em terceiro lugar, vemos Jesus pedindo que o imitem (v 12). Concernente ao primeiro, ele faz duas coisas: primeiro, descreve o amor de Cristo, que está dando o exemplo; em segundo lugar, a ação na qual ele deu o exemplo (v 2). Concernente ao primeiro, ele menciona três coisas: primeiro, a festa prestes a ser celebrada; em segundo lugar, a morte que se aproximava de Cristo; em terceiro lugar, o amor ardente de Cristo. A festa iminente era a Páscoa; assim ele diz: Ora, antes da festa da Páscoa. Aqui devemos notar que alguns dizem que a palavra páskha vem da palavra grega para "paixão", e que esta festa é chamada Páskha porque é então que celebramos a paixão de nosso Senhor. De fato, a palavra páskha em grego significa "sofrer". Porém, a origem primária desta palavra é da palavra hebraica, pesah, que significa uma "passagem", como em Êxodo (12:11): "É o pesah," passagem, ou uma passar sobre, "do Senhor." Este é o significado que o Evangelista lhe dá aqui por causa de duas passagens. A primeira foi a passagem do anjo golpeando os primogênitos dos egípcios e poupando os primogênitos dos hebreus (Êx 12:12); e a outra foi a passagem dos filhos de Israel pelo Mar Vermelho. Logo, foi razoável chamar esta festa a Páscoa. Podemos dizer que nossa Páscoa tira seu significado de ambas as línguas, grega e hebraica. Pois a passagem de Cristo deste mundo para o Pai se realizou através de sua paixão. "Ele passou fazendo bem e curando a todos" (At 10:38). Novamente, todos nós que seguimos Cristo temos nossa própria passagem: seja pela reforma e martírio, conforme o dito, "Nós passamos através de fogo e água e você nos trouxe a um lugar de refrigério" (Sl 66:12); ou pelo desejo de nossa mente aspirando às coisas celestiais: "Passai para mim todos os que me desejais e sereis preenchidos com meus frutos" (Ecl 24:19). Como lemos em Êxodo (23:14), os judeus tinham três grandes festas, quando se reuniam num lugar escolhido pelo Senhor: O Pesah, quando o cordeiro era sacrificado, Pentecostes, e a Festa dos Tabernáculos, isto é, a Skenopegia. Mas a festa mais grandiosa era a da Páscoa. Surge um problema quanto ao por que ele diz aqui: antes da festa da Páscoa, pois a festa da Páscoa é quando o cordeiro era sacrificado, isto é, no 14º dia do mês. Assim, já que ele diz: antes da festa da Páscoa, parece que isso estava ocorrendo no 13º dia, o dia anterior ao 14º. E de fato, os gregos aceitam isto, e dizem que nosso Senhor sofreu no 14º, quando os judeus deveriam celebrar a Páscoa, e que nosso Senhor, sabendo que sua paixão estava próxima, antecipou a celebração da Páscoa e celebrou sua própria Páscoa no dia anterior à festa da Páscoa dos judeus. E porque está ordenado em Êxodo (12:18) que da noite do 14º dia até o 21º dia os hebreus não deveriam ter nenhum pão fermentado, eles ainda dizem que o Senhor celebrou não com pão ázimo, mas com pão fermentado, porque os hebreus tinham pão fermentado no 13º dia, isto é, antes da Páscoa. Mas os outros três Evangelistas não concordam com isto, pois dizem que o tempo era o primeiro dia dos Pães Ázimos, quando o cordeiro devia ser sacrificado (Mt 26:17; Mc 14:12; Lc 22:7). Segue-se disto que a ceia de nosso Senhor ocorreu no próprio dia em que os judeus sacrificavam o cordeiro. Os gregos respondem a isto que os outros Evangelistas não relataram isto fielmente; e assim João, que escreveu o último dos Evangelhos, os corrigiu. Mas é heresia dizer que há algo falso não apenas nos Evangelhos, mas em qualquer lugar nas escrituras canônicas. Consequentemente, temos de dizer que todos os Evangelistas afirmam a mesma coisa e não discordam. Para esclarecer isto, deve-se notar que, como está dito em Levítico (23:5), as festas dos judeus começavam na noite do dia anterior. A razão disto era que eles contavam seus dias de acordo com a lua, que aparece primeiro à noite; assim, contavam seus dias de um pôr do sol ao próximo. Logo, para eles, a Páscoa começava na noite do dia anterior e terminava na noite do dia da Páscoa. Celebramos festas da mesma maneira; assim algo que ocorre com a gente na véspera do Natal é dito ter acontecido no Natal. E assim os outros Evangelistas, usando este modo de falar, dizem que a ceia ocorreu no primeiro dia dos Pães Ázimos, significando que ocorreu na noite anterior ao primeiro dia pleno da festa dos Pães Ázimos. Mas aqui, o Evangelista João considera a Páscoa como aquele dia inteiro que era celebrado, mas não como a noite anterior, que também era celebrada. Assim ele diz: antes da festa da Páscoa. Consequentemente, é claro que a ceia de nosso Senhor ocorreu no 14º dia à noite. A morte de Cristo, que se aproximava, era sua passagem deste mundo através de sua paixão. E quanto a isto ele diz: Jesus sabia que sua hora tinha chegado: pois esta festa era um símbolo da paixão de Cristo, "Todas estas coisas aconteciam a eles como símbolos" (1 Cor 10:11). Assim ele imediatamente menciona a realidade, isto é, a paixão de Cristo. E como forma de mostrar que a palavra páskha veio de pesah, significando uma passagem, ele menciona sua passagem, partir, passar, deste mundo para o Pai. Aqui o Evangelista menciona três coisas sobre a paixão de Cristo: primeiro, que foi prevista; em segundo lugar, que foi adequada; em terceiro lugar, foi fonte de benefícios e exaltação. Foi prevista e não fortuita; assim ele diz: Jesus sabia. Ele está dizendo efetivamente; Jesus sofreu sabendo e voluntariamente, não inesperadamente e contra sua vontade. "Jesus, sabendo tudo quanto lhe havia de acontecer" (18:4). O oposto é dito de nós: "Há grande aflição para o homem porque ele é ignorante das coisas passadas, e as coisas futuras ele não pode de modo algum conhecer" (Ecl 8:7). A paixão de Cristo foi adequada, primeiro quanto ao seu tempo; e quanto a isto ele diz que sua hora tinha chegado, que era o tempo da Páscoa, quando sua passagem seria pela cruz: "Há um tempo e oportunidade para cada negócio" (Ecl 8:6). Esta é a hora da qual ele disse: "Minha hora ainda não chegou" (2:4). Porém essa hora não era uma questão de fado, como se governada pelo curso e arranjo das estrelas; foi determinada pela disposição e providência de Deus. Digo, portanto, que foi determinada para a Páscoa judaica porque era adequado a esta festa judaica que a realidade seguisse o símbolo, isto é, que quando o cordeiro, que era um símbolo de Cristo, fosse sacrificado, Cristo, que era verdadeiramente o Cordeiro de Deus, fosse imolado. "Vós sabeis que fostes resgatados... não com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, mas com o precioso sangue de Cristo, como o de um cordeiro sem defeito ou mancha" (1 Pe 1:18-19). Também foi adequado à situação, pois Cristo agora era glorificado: "Agora é glorificado o Filho do homem, e em lui é glorificado Deus" (13:31). Ele já tinha revelado o Pai ao mundo: "Manifestei o teu nome aos homens que tu me deste do mundo" (17:6). O que restava, portanto, era realizar sua paixão e a obra da redenção humana, sobre a qual lemos: "Está consumado," seguido de: "e inclinou a cabeça e entregou o espírito" (19:30). A paixão de Cristo foi fonte de benefícios e glória, não de derrota, porque era para que ele pudesse partir deste mundo para o Pai, tornando sua natureza humana partícipe da glória do Pai: "Vou subir a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus" (20:17). Isto não significa que ele passaria de um lugar para outro, visto que Deus o Pai não é contido por lugar algum: "Não encho eu céu e terra? (Jr 23:24). Antes, assim como Cristo é dito ter vindo do Pai, não deixando-o, mas assumindo uma natureza inferior como a nossa, assim é dito ter retornado ao Pai na medida em que, mesmo em sua natureza humana, tornou-se participante da glória do Pai. "A vida que vive, vive para Deus" (Rm 6:10); "Toda a língua confesse que o Senhor Jesus Cristo é a glória de Deus o Pai" (Fp 2:11). Então, quando ele diz: tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim, ele recomenda o amor intenso de Cristo; e isto em quatro pontos. Primeiro, porque seu amor foi primeiro, conforme "Não que nós tenhamos amado a Deus, mas que ele primeiro nos amou" (1 Jo 4:10). E quanto a isto ele diz: tendo amado os seus, tentando sugerir que isto foi em antecedência do nosso amor. Digo que ele nos amou antes de nos criar: "Porque tu amas tudo o que existe, e nada abominas do que criaste" (Sb 11:24). Ele nos amou antes de nos chamar: "Com amor eterno te amei; por isso te atrai com misericórdia" (Jr 31:3). E ele nos amou antes de nos redimir: "Ninguém tem maior amor do que este: dar a vida pelos seus amigos" (15:13). Em segundo lugar, seu amor é recomendado como adequado, porque ele amou os seus. Aqui devemos notar que Deus ama as pessoas de vários modos, dependendo dos vários modos em que são de Cristo. Ora, pode-se ser seu de três modos. Primeiro, pela criação; e Deus ama estes conservando seus bens da natureza: "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam" (1:11). Outros são seus pela doação, isto é, aqueles dados a ele por Deus o Pai através da fé: "Teus eram, e tu mas deste a mim, e guardaram a tua palavra" (17:6); e ele ama estes preservando seus bens da graça. Finalmente, alguns são seus por uma devoção especial: "Eis que nós somos osso de seus ossos e carne de sua carne" (1 Cr 11:1); ele ama estes consolando-os de modo especial. Em terceiro lugar, o amor de Cristo é recomendado porque era necessário, visto que ele amou os seus que estavam no mundo. Aqueles que já estavam na glória do Pai são seus, porque mesmo nossos pais de há muito tempo eram seus na medida em que esperavam ser libertados por ele: "Todos os seus santos estão na tua mão" (Dt 33:3). Mas estes não precisam de tal amor quanto aqueles que estavam no mundo; assim ele diz: que estavam no mundo, isto é, em corpo, mas não em mente. Em quarto lugar, seu amor é recomendado porque foi perfeito, assim ele diz: amou-os até ao fim. Agora há dois tipos de fins: o fim na intenção, e o fim na execução. O fim na intenção é aquilo para o qual nossa intenção é dirigida; e este fim deve ser a vida eterna, conforme: "O retorno que vocês obtêm é santificação e seu fim, vida eterna" (Rm 6:22). Novamente, este fim deve ser Cristo: "Porque Cristo é o fim da lei, para que todo aquele que crê seja justificado" (Rm 10:4). Mas estes dois são realmente um fim, porque vida eterna não é outra coisa senão desfrutar Cristo em sua divindade: "E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (17:3). Deste ponto de vista ele diz: amou-os até ao fim, a fim de conduzi-los a si mesmo, o fim; ou, a fim de conduzi-los à vida eterna, que é a mesma coisa. "Com amor eterno te amei; por isso te atrai com misericórdia" (Jr 31:3). O fim na execução é o término ou resultado de uma coisa; assim neste sentido, a morte pode ser chamada um fim. Portanto, ele poderia dizer: amou-os até ao fim, isto é, até à morte. Usado deste modo, pode ter três significados. O primeiro, mencionado por Agostinho, é um modo muito humano, e significa que Cristo amou os seus até que morreu, mas então não mais. Este significado é falso: pois Cristo, que não foi terminado pela morte, de modo algum termina seu amor na morte. Outro significado consideraria a palavra "até" como indicando uma causa; e então significaria: amou-os até ao fim, isto é, seu amor por eles o levou à morte: "Me amou e se entregou por mim" (Gl 2:20). Um terceiro significado seria este: embora Cristo já tivesse mostrado a eles muitos sinais de seu amor, ainda assim até ao fim, isto é, no tempo de sua morte, mostrou a eles sinais de um amor maior: "Não vos disse estas coisas desde o princípio, porque eu estava convosco" (16:4). Ele estaria dizendo efetivamente: não era necessário então mostrar quanto vos amava, mas agora que me vou, é necessário, para que meu amor e a memória de mim sejam impressos mais profundamente em vossos corações. — Comentário sobre João
João 13:2
Depois, quando diz, durante a ceia, descreve o ato pelo qual Cristo deu o seu exemplo. Primeiro, ele menciona o momento da ação; em segundo lugar, a dignidade de quem age (v 3); em terceiro lugar, a sua humildade (v 4). Ele descreve o tempo de duas maneiras: por um lado, como o tempo do amor de Cristo; de outra forma, enfatizando o pecado de Judas. Em relação ao primeiro, ele diz, literalmente, “quando o jantar acabou”. Aqui devemos notar que tanto as coisas que são permanentes quanto as que são sucessivas são consideradas feitas ou feitas. Diz-se que uma coisa permanente é feita ou feita quando atinge a perfeição de sua espécie e forma próprias; assim, diz-se que uma casa está feita ou feita quando tem a forma adequada. Mas em algo que é sucessivo, diz-se que foi feito ou feito quando acabou ou terminou; assim, diz-se que o mundo foi feito quando foi concluído. Mas mesmo coisas assim podem ser consideradas feitas ou feitas quando recebem a espécie apropriada. Portanto, quando ele diz aqui, literalmente, “quando a ceia acabou”, ele não quer dizer que ela estava terminada e terminada: pois depois que Cristo lavou os pés dos discípulos, ele voltou ao seu lugar e deu o bocado a Judas. “Quando a ceia foi feita” significa antes que ela foi preparada e agora trazida à sua própria espécie: pois o grupo já havia começado a comer, e então Cristo se levantou. Assim Cristo lavou os pés dos discípulos durante a ceia. Lemos sobre tal ceia em Lucas (14:16): “Certa vez, um homem ofereceu uma grande ceia”. O café da manhã e o jantar são diferentes. O que é servido no início do dia é chamado de café da manhã, enquanto o que é servido no final é chamado de ceia. Da mesma forma, aquele alimento espiritual adequado para quem está começando é chamado de café da manhã, enquanto aquele alimento apropriado para os avançados é mais parecido com um jantar. Depois, quando o Evangelista diz que o diabo já tinha colocado no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de o trair, ele retrata o tempo sublinhando o pecado do traidor. Ele menciona seu pecado por duas razões. Primeiro, para melhor revelar o mal de Judas, que apesar de tantas demonstrações de amor e de humilde serviço, considerou cometer um pecado tão grande: o Salmo (41,9) diz: “Até o meu amigo íntimo em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar”. E, em segundo lugar, para melhor demonstrar o maravilhoso amor de Cristo que, mesmo sabendo disso, tratou-o com amor e humildade lavando-lhe os pés: “Eu era pacífico com os que odiavam a paz” (Sl 120, 7). Mas será que o diabo pode colocar alguma coisa em nossos corações? Parece que sim, pois um Salmo fala de coisas “enviadas por anjos maus” (Sl 77:49). Para explicar isso, devemos notar que o que está no pensamento e na vontade de uma pessoa está em seu coração. Portanto, a afirmação, quando o diabo já a havia colocado no coração de Judas, deveria ser entendida como se referindo à sua vontade. Compreendendo da maneira acima, há duas maneiras pelas quais algo pode ser colocado em nosso coração. Primeiro, diretamente; e desta forma apenas quem tem o poder de mover a nossa vontade a partir de dentro pode colocar algo no nosso coração. Somente Deus pode fazer isso; conseqüentemente, só ele pode mover diretamente a nossa vontade: “O coração do rei é uma corrente de água na mão”, no poder, “do Senhor; ele o inclina para onde quer” (Pv 21,10). Mas porque a vontade também é movida por um objeto externo, algo apreendido como um bem, segue-se que qualquer pessoa que traz à mente, ou sugere que algo é bom, coloca algo em nosso coração indiretamente, fazendo-nos apreender algo como bom, o que por sua vez move a nossa vontade. Isso acontece de duas maneiras. Por sugestão externa, e então uma pessoa pode colocar algo no coração de outra; ou por uma sugestão interior, que é a forma como o diabo coloca algo em nosso coração. Pois a nossa imaginação, por ser uma realidade física, está sujeita ao poder do diabo quando Deus o permite. Assim, quer estejamos acordados ou dormindo, ele forma nela certas imagens que, quando apreendidas, movem nossa vontade a desejar algo. E assim o diabo coloca algo em nosso coração, não diretamente, movendo nosso coração, mas indiretamente, por sugestão. - Comentário sobre João
João 13:3
Então (v 3) ele considera a dignidade daquele que age, pois 'Quanto maior você é, mais você deve humilhar-se' (Sir 3:18). Então o Evangelista, prestes a falar da humildade de Cristo, trata primeiro de sua muito grande dignidade por causa de seu conhecimento, dizendo, Jesus, sabendo que o Pai tinha dado todas as coisas em suas mãos. Pois os dons espirituais são tais que não são desconhecidos quando dados: 'Agora recebemos não o espírito do mundo, mas o Espírito que é de Deus, para que compreendêssemos os dons que nos foram dados por Deus' (1 Co 2:12). Assim, Cristo sabia o que lhe tinha sido dado por Deus; e o Evangelista menciona isto para que a humildade de Cristo seja mais admirável. Pois às vezes acontece que uma pessoa é de grande dignidade, mas por causa de sua simplicidade não se dá conta disto. Se tal pessoa fizesse algo humilde, não seria considerado digno de grande louvor: 'Se você não se conhece, ó a mais formosa entre as mulheres...' (Ct 1:8). Mas se alguém conhece sua própria dignidade, e ainda assim suas afeições inclinam-se para o que é humilde, sua humildade deve ser louvada. E isto é por que o Evangelista diz, Jesus, sabendo que o Pai tinha dado todas as coisas em suas mãos; e ele ainda assim não negligenciou fazer o que era humilde. Em segundo lugar, vemos sua dignidade quanto a seu poder, porque o Pai havia dado todas as coisas em suas mãos, isto é, em seu poder. Deus deu, no tempo, a Cristo como homem, o que estava no poder do Filho da eternidade: 'Toda a autoridade no céu e na terra me foi dada' (Mt 28:18). Ele diz, o Pai havia dado todas as coisas em suas mãos, por duas razões. Primeira, para mostrar que Cristo não sofreu contra sua vontade. Pois se todas as coisas estavam em suas mãos, isto é, em seu poder, é claro que seus inimigos nada poderiam fazer contra ele contra sua vontade. Segunda, porque quando uma pessoa de pequena importância é honrada, ela facilmente se torna orgulhosa; e não faz nada humilde, para que não pareça diminuir sua dignidade. Mas quando alguém de grande dignidade é honrado, ele não negligencia as coisas humildes. E assim a dignidade de Cristo é mencionada aqui. Terceiramente, vemos sua dignidade por causa de sua nobreza, quando ele diz, que ele tinha vindo de Deus e ia para Deus: 'vivendo com Deus' como a Sabedoria (8:3) diz. Quarto, sua dignidade por causa de sua santidade, porque ele ia para Deus, pois nossa santidade está em ir para Deus. Ele menciona isto porque, já que Cristo vai para Deus, é especial para ele levar outros a Deus. Isto é feito especialmente pela humildade e amor; e então ele oferece a eles um exemplo de humildade e amor. — Comentário sobre João
João 13:4
Depois de mostrar a dignidade de Cristo, o Evangelista agora recomenda sua humildade, que Cristo demonstrou lavando os pés dos discípulos. Primeiro, o Evangelista menciona a preparação de Cristo para essa tarefa humilde; segundo, o serviço em si (v. 5). Quanto ao primeiro, deve-se notar que ao realizar essa tarefa humilde, Cristo se mostra um servo: "O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e dar sua vida em resgate por muitos" (Mt. 20:28). Ora, três coisas são necessárias para um bom servo. Primeiro, ele deve estar atento a notificar qualquer coisa que possa estar faltando em seu serviço; e isso seria prejudicado se estivesse sentado ou deitado. Assim os servos ficam de pé. Por isso ele diz, Cristo se levantou da ceia: "Pois qual é o maior, quem está à mesa ou quem serve?" (Lc. 22:27). Segundo, um servo não deve estar encumbrado, para que possa fazer tudo o que é necessário ao seu serviço. E como roupas demais são tal obstáculo, nosso Senhor tirou suas vestes. Terceiro, um bom servo está preparado, tendo à mão tudo aquilo que precisa. Em Lucas (10:40) lemos que Marta "estava ansiosa com muito serviço." Por isso nosso Senhor se cingiu com uma toalha, para que estivesse pronto não apenas para lavar seus pés, mas também para secá-los. E uma vez que aquele que veio de Deus e vai para Deus agora lava os pés de outros, ele está pisando sob pés a tendência universal para o orgulho. Quanto ao seu significado místico, essa ação pode ser referida a duas coisas: a encarnação de Cristo e sua paixão. Se for referida à sua encarnação, nos diz três coisas sobre Cristo. Primeiro, estava disposto a ajudar a raça humana, indicado pelo fato de que se levantou da ceia. Pois Deus parece estar sentado enquanto permite que sejamos perturbados; mas quando nos resgata disso, parece se levantar, como o Salmo (43:26) diz: "Levanta-te, vem em nosso auxílio." Segundo, indica que ele se esvaziou: não que tenha abandonado sua grande dignidade, mas a ocultou tomando nossa pequenez: "Verdadeiramente, tu és um Deus que se oculta" (Is. 45:15). Isso é mostrado pelo fato de que tirou suas vestes: "Esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo" (Fil. 2:7). Terceiro, o fato de que se cingiu com uma toalha indica que assumiu nossa mortalidade: "tomando a forma de servo, sendo feito semelhante aos homens" (Fil. 2:7). Se esse evento for referido à paixão de Cristo, então ele literalmente tirou suas vestes quando os soldados o despiram: "e repartiram entre si minhas vestes" (19:23). E estava cingido com uma toalha no túmulo. E também em sua paixão tirou as vestes de nossa mortalidade e revestiu-se de uma toalha, isto é, do esplendor da imortalidade: "Cristo, uma vez ressuscitado dos mortos, não morre mais; a morte já não tem domínio sobre ele" (Rom. 6:9). — Comentário sobre João
João 13:5
Então, quando o Evangelista diz 'Então ele derramou água num recipiente', ele descreve o serviço de Cristo, e mostra sua admirável humildade de três formas. Primeiro, quanto ao tipo de serviço que era, pois era muito abatido, uma vez que o Senhor da majestade se inclinou para lavar os pés de seus servos. Segundo, quanto ao número de coisas que fez, pois colocou água no recipiente, lavou seus pés, e então os enxugou. Terceiro, quanto à forma como foi feito: pois Cristo não o fez através de outros ou com sua ajuda, mas por si mesmo. "Quanto maior és, mais deves humilhar-te" (Eclo 3:18). Quanto ao sentido místico, três coisas podem ser colhidas destes eventos. Primeiro, o derramamento do sangue de Cristo na terra é indicado por ele derramar água no recipiente. Pois o sangue de Jesus pode ser chamado água porque tem poder de purificar: "Ele nos lavou de nossos pecados em seu próprio sangue" (Ap 1:4). E assim sangue e água saíram de seu lado simultaneamente para mostrar-nos que seu sangue lava os pecados. Ou, água pode indicar a paixão de Cristo, pois na Escritura água significa tribulações: "Salva-me, ó Deus! Pois as águas," isto é, as tribulações, "chegaram até minha alma" (Sl 69:1). Portanto, ele derramou água num recipiente, isto é, ele imprimiu a memória de sua paixão nas mentes dos fiéis através de sua fé e devoção: "Lembrai-vos de minha aflição e minha amargura, do absinto e da fel!" (Lm 3:19). Segundo, quando ele diz 'e começou a lavar', isto indica nossa imperfeição humana. Pois depois de Cristo, os apóstolos eram mais perfeitos que outros, e contudo até eles precisavam ser lavados, uma vez que eram impuros em algum grau. Podemos entender por isto que não importa o quão perfeita seja uma pessoa, ela adquire alguma impureza, e ainda precisa tornar-se mais perfeita: "Quem pode dizer 'tornei puro meu coração; estou limpo de meu pecado'?" (Prov 20:9). Contudo, somente os pés de tais pessoas estão impuros. Mas outros não estão impuros apenas em seus pés, estão manchados por completo. Pois aqueles que se deitam na impureza terrena são totalmente defilados; assim, aqueles que se apegam completamente ao amor das coisas terrenas, tanto em seus afetos quanto em seus sentidos, estão completamente impuros. Mas aqueles que se mantêm de pé, isto é, tendem às coisas celestiais em mente e desejo, tornam-se impuros apenas em seus pés. Pois assim como uma pessoa que está de pé deve ao menos tocar a terra com seus pés, assim nós, enquanto vivemos esta vida mortal que precisa de coisas terrenas para sustentar o corpo, adquirimos alguma impureza, pelo menos por causa de nossa sensualidade. Assim nosso Senhor disse aos discípulos para sacudir a poeira de seus pés (Lc 9:5). O Evangelista diz que Cristo começou a lavar, porque a purificação de nossas afeições terrenas começa aqui e é completada no futuro. Então as palavras de Isaías (35:8) serão cumpridas: "Será chamado o Caminho Santo". Note que, de acordo com Orígenes, nosso Senhor começou a lavar os pés de seus discípulos logo antes de sua paixão, pois se os tivesse lavado muito tempo antes, teriam ficado sujos novamente. Portanto, ele começou a lavá-los pouco tempo antes de lavar os apóstolos com a água do Espírito Santo, depois de sua paixão: "Daqui a poucos dias sereis batizados com o Espírito Santo" (At 1:5). Em suma, quando nosso Senhor colocou água no recipiente, isto indicou o derramamento de seu sangue; e quando começou a lavar os pés de seus apóstolos, isto indicou a purificação de nossos pecados. Terceiro, temos indicado o fato de que Cristo tomou sobre si nossos castigos; pois ele não somente nos purificou de nossas manchas, mas tomou sobre si os castigos que mereciam. Pois nossos próprios castigos e penitência não seriam suficientes a menos que fossem fundamentados nos méritos e no poder da paixão de Cristo. Isto é mostrado pelo fato de que ele enxugou os pés de seus discípulos com sua toalha, isto é, seu corpo (1 Pd 2:21). — Comentário sobre João
João 13:6
Então, quando o Evangelista diz, ele veio a Simão Pedro, ele mostra que o exemplo foi benéfico por meio de um encontro entre o Mestre e o discípulo. Neste encontro nosso Senhor mostra que este exemplo é tanto um mistério quanto necessário (v 8); e, em segundo lugar, que é apropriado (v 9). Quanto ao primeiro, o Evangelista faz duas coisas. Primeiro, menciona as circunstâncias para a fala de Cristo; segundo, o que Cristo disse (v 7). A ocasião para as palavras de Cristo foi a recusa de Pedro em permitir este exemplo de humildade; ele diz, ele veio a Simão Pedro, e Pedro lhe disse, Senhor, tu lavas meus pés? Há três explicações para isto. Secundo Orígenes, nosso Senhor começou a lavar seus pés começando pelo último. A razão para isto era que assim como um médico que deve cuidar de um número de doentes começa com aqueles que têm mais necessidade, assim também Cristo, quando lavou os pés sujos de seus discípulos, começou com o mais sujo, e depois veio a Pedro, que tinha menos necessidade do que os outros: "começando pelo último, até o primeiro" (Mt 20:8). O Evangelista parece indicar isto: pois Cristo começou a lavar os pés dos discípulos, e então ele segue isto com, ele veio a Simão Pedro. Parece disto que Jesus lavou os pés dos outros primeiro. Se você perguntar por que Pedro foi o primeiro a se opor, Orígenes responde que isto foi devido ao amor intenso que Pedro tinha por Cristo. Os outros discípulos tinham um certo respeito reverente e temor de Cristo, e assim obedeciam sem questionar tudo o que ele fazia. Mas Pedro, mais inflamado de amor - "Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?...Sim, Senhor; tu sabes que eu te amo" (21:15) - e tomando confiança deste amor, recusa obedecer e pede para saber por quê: "Um verdadeiro amigo agirá como tua igual e assumirá autoridade em tua casa" (Ecl 6:11). É por isto que na Escritura Pedro frequentemente pede explicações e não hesita em dizer o que pensa ser o melhor. A segunda explicação é de Crisóstomo. Ele diz que Cristo estava pronto para começar com o primeiro dos apóstolos, mas Judas, o traidor, em sua tolice e orgulho, se antecipou a Pedro. Nenhum dos outros teria ousado se anteceder a Pedro. Assim o Evangelista está falando de Judas quando diz, ele começou a lavar os pés dos discípulos, isto é, os pés de Judas, que, como soberbo e tolo, não faria objeção alguma ou recusaria permanecer o que nosso Senhor fez. Mas quando veio a Pedro, que reverenciava e amava seu Mestre, Pedro recusou com temor e pediu uma explicação. E qualquer um dos outros teria feito o mesmo. A terceira explicação é de Agostinho. Ele diz que as palavras do Evangelista não mostram que nosso Senhor primeiro lavou os pés dos outros discípulos e depois veio a Pedro. Antes, segundo seu costume, o Evangelista primeiro menciona o incidente e depois dá a ordem dos eventos dentro dele, assim como fez no Capítulo 6. Assim ele primeiro menciona o incidente inteiro, isto é, Cristo lavou os pés de seus discípulos; e então, se devêssemos perguntar como isto foi feito, ele diz que veio primeiro a Simão Pedro. E assim ele foi o primeiro a recusar, dizendo, Senhor, tu lavas meus pés? Estas palavras têm grande profundidade. Ele diz, Senhor, tu, que és o Filho do Deus vivo, lavas meus pés, que sou Simão, o filho de Jonas? Senhor, tu, o Cordeiro sem mancha, o espelho sem defeito, e o resplendor da luz eterna, tu lavas meus pés, que sou um pecador? "Afasta-te de mim, que sou um homem pecador, Senhor" (Lc 5:8). Senhor, tu, que és o Criador, lavas meus pés, eu que sou criatura e de pouca fé? Pedro disse estas coisas tomado de temor pela realização da dignidade de Cristo, como em "Eu contemplei tuas obras, e tive medo" (Hab 1:3). — Comentário sobre João
João 13:7
Então (v 7), vemos as palavras de Cristo, que mostram que esta ação é um mistério. Cristo disse a Pedro: O que faço você não sabe agora, mas mais tarde compreenderá. Esta ação é tanto um exemplo como um mistério. É um exemplo de humildade a ser praticada: "Pois vos dei o exemplo, para que como eu vos fiz, assim vós também façais" (v 15) E é um mistério porque significa uma limpeza interior: "Aquele que se banha não necessita senão lavar os pés" (v 10). Assim o que Cristo disse pode ser entendido de duas maneiras. De uma maneira, O que faço você não sabe agora, isto é, você não compreende agora que o que faço é um exemplo; mas mais tarde compreenderá, quando ele explicou dizendo: "Sabeis vós que vos fiz?" (v 12). De outra maneira, O que faço você não sabe agora; isto é, isto é um mistério e algo oculto, e significa uma limpeza interior que apenas eu posso realizar, e que você não compreende agora, mas mais tarde compreenderá, quando receber o Espírito Santo: "Ainda tenho muitas coisas a vos dizer, mas vós não as podeis suportar agora. Quando vier o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade" (16:12). — Comentário sobre João
João 13:8
Depois, ele mostra que essa ação é necessária. Primeiro, o Evangelista menciona o que Pedro disse, que provocou a resposta de Cristo; segundo, vemos o que Cristo disse. Pedro diz: Tu nunca me lavarás os pés. Ele está dizendo efetivamente: De forma alguma vou submeter-me a isto do meu Mestre, meu Senhor e meu Deus. E embora Pedro tenha dito isso com zelo, foi um zelo imprudente e desordenado: "Têm zelo por Deus, mas não com conhecimento" (Rm 10:2). Seu zelo era desordenado por três razões. Ele recusou algo que era benéfico e necessário; pois como lemos: "Não sabemos como orar como convém" (Rm 8:26). E assim é imprudente recusar o que Deus nos dá, mesmo que pareça desvantajoso. Paulo também pediu para ser liberado de seu espinho (2 Co 12:8), mas foi para seu benefício. Novamente, parecia indicar certo desrespeito por Cristo ao querer ir contra seus planos. Finalmente, parecia disparar seus companheiros, pois os outros, de acordo com Orígenes, se renderam a Cristo sem discutir, enquanto Pedro recusou, dizendo: Tu nunca me lavarás os pés. Nosso Senhor o repreendeu, dizendo: Se eu não vos lavar, não tendes parte comigo. Esta declaração pode referir-se a duas coisas: à ação que Cristo estava realizando, ou ao que a ação significava. Se nós nos referirmos ao que a ação significava, o significado é claro. Pois ninguém pode compartilhar da herança eterna e ser coerdeiro com Cristo a menos que seja espiritualmente limpo, pois lemos: "Mas nenhuma coisa imunda entrará nela" (Ap 21:27). E no Salmo (15:1) diz: "Ó Senhor, quem habitará na tua tenda?" E a resposta é dada: "Aquele que anda em retidão." Portanto, é como se ele estivesse dizendo: Se eu não vos lavar, não estareis limpos; e se não estais limpos, não tendes parte comigo. Mas se nós nos referirmos esta declaração à ação em si, então pode ser perguntado se esta lavagem era necessária para a salvação. Podemos dizer a isto que assim como algumas coisas são proibidas porque são más, e algumas coisas são más porque são proibidas, assim algumas coisas são mandadas porque são necessárias, e algumas coisas são necessárias porque são mandadas. E assim esta lavagem, sobre a qual nosso Senhor disse: Se eu não vos lavar, não tendes parte comigo, se considerada em si mesma, não era necessária para a salvação. Mas, na suposição de que foi mandada por Cristo, então era necessária: "Obedecer é melhor do que sacrificar", e assim "a desobediência é como adivinhação e a soberba como idolatria" (1 Sm 15:22-23). — Comentário sobre João
João 13:9
Então o Evangelista mostra que a ação foi apropriada. Primeiro, as palavras de Pedro são dadas; e então a resposta de Cristo. As palavras de Pedro indicam seu amor intenso por Cristo. Antes, quando nosso Senhor lhe disse, O que estou fazendo você não sabe agora, ele havia insinuado que seria útil; contudo Pedro não deu atenção a isto, e não pôde ser persuadido a ter seus pés lavados. Mas quando nosso Senhor o advertiu de que isto significaria que já não estariam juntos, dizendo, você não tem parte em mim, Pedro ofereceu mais do que apenas seus pés, dizendo, Senhor, não só meus pés, mas também minhas mãos e minha cabeça! Pois Pedro foi assustado por esta resposta, e afetado pelo amor e pelo medo, ele ofereceu todo ele mesmo para ser lavado. Clemente nos diz em sua Itinerária que Pedro foi tão tocado pela presença física de Cristo, a quem havia amado tão intensamente, que depois da ascensão, quando se recordava da doçura da presença de Cristo, e de sua santa maneira, chorava tanto que suas faces pareciam estar sulcadas. Podemos notar que há três coisas em uma pessoa: a cabeça no topo, os pés no fundo, e as mãos no meio. O mesmo é verdadeiro para a pessoa interior, isto é, para a alma. Há a cabeça, que é a razão superior, pela qual a alma se adere a Deus. "A cabeça da mulher é seu marido" (1 Cor 4:4), isto é, a razão superior. As mãos são a razão inferior, que se ocupa com as obras da vida ativa. Finalmente, os pés são a sensualidade. Ora nosso Senhor sabia que seus discípulos estavam limpos quanto à sua cabeça, porque haviam sido unidos a Deus pela fé e caridade; e suas mãos estavam limpas porque suas obras eram santas. Mas quanto aos seus pés, eles ainda retinham alguma afeição pelas coisas terrenas em sua sensualidade. E assim Pedro, ansioso por causa da advertência de nosso Senhor, concorda não apenas em ter seus pés lavados, mas também suas mãos e cabeça, dizendo, Senhor, não só meus pés mas também minhas mãos e minha cabeça. Era como dizer: Não sei se minhas mãos e pés precisam ser lavados - "Não estou consciente de nada contra mim mesmo, mas não sou por isto absolvido" (1 Cor 4:4) - e assim estou pronto para lavar não só meus pés, isto é, meus afetos inferiores - "Já havia banhado meus pés, como poderia sujá-los?" (Ct 5:3) - mas também minhas mãos, isto é, minhas obras - "Lavarei minhas mãos entre os inocentes" (Sl 26:6) - e minha cabeça, isto é, minha razão superior - "Lava teu rosto" (Mt 6:17). — Comentário sobre João
João 13:10
Então (v 10), o Evangelista apresenta a resposta de nosso Senhor. Primeiro, nosso Senhor estabelece um princípio geral; segundo, ele o aplica a esta situação; e terceiro, o Evangelista explica estas palavras de Cristo. Ele diz em primeiro lugar: aquele que se banhou não precisa lavar-se, senão os pés, mas está inteiramente limpo, exceto pelos pés, que tocam a terra. Nós compreendemos disto que os apóstolos já haviam sido batizados. Pois ele diz: aquele que se banhou, e então acrescenta: e vós estais limpos, isto é, porque foram batizados. Alguns dizem que foram batizados somente com o batismo de João. Mas isto não parece ser verdadeiro, porque então não teriam se banhado, porque o batismo de João não limpava interiormente da culpa. E assim deveria ser dito, de acordo com Agostinho, que foram batizados com o batismo de Cristo. Se vós objetardes que Cristo não batizou mas apenas seus discípulos, como foi afirmado acima (4:2), eu digo que ele não batizou as multidões, mas apenas seus discípulos e aqueles que conhecia bem. Mas como o batismo limpa até mesmo as manchas dos pés, parece que aquele que se banhou, isto é, foi batizado, não precisa lavar seus pés. Eu respondo que se eles tivessem deixado este mundo imediatamente após seu batismo, não teriam tido necessidade desta lavagem, pois como seriam inteiramente limpos, iriam a Deus de uma vez. Mas aqueles que vivem neste mundo após seu batismo não podem atingir tal perfeição que o movimento desordenado da sensualidade a respeito das afeições terrenas nunca surja. E assim é necessário que lavem seus pés seja pelo martírio, que é um batismo de sangue, seja pela penitência, que é um batismo de fogo, para que possam voltar a Deus. Então, quando ele diz: vós estais limpos, mas nem todos vós, nosso Senhor aplica este princípio geral à situação. Mas se eles estavam limpos, por que nosso Senhor os lavou novamente? Agostinho diz que suas mãos e cabeças estavam limpas, mas que seus pés precisavam ser lavados. Crisóstomo diz que eles não estavam absolutamente limpos, porque ainda não haviam sido purificados do pecado original: pois como Cristo ainda não havia sofrido, o preço de nossa redenção ainda não havia sido pago - mas estavam limpos de forma limitada, isto é, dos erros dos judeus. Orígenes diz que estavam limpos, mas que uma limpeza maior era necessária, pois a razão deve sempre aspirar a dons melhores, sempre se esforçar pela altura da virtude, e brilhar com o brilho da justiça: "Aquele que é santo, seja santificado ainda mais" (Ap 22:11). Mas nem todos vós, porque um deles estava sujo tanto nas mãos quanto na cabeça. — Comentário sobre João
João 13:11
É por isso que diz o Evangelista, pois ele sabia quem o trairia. Ele está dizendo o que Cristo disse, mas não todos vocês, porque ele conhecia a impureza de Judas, o traidor. Em geral, há duas coisas que limpam uma pessoa: a esmola e a compaixão pelos pobres - "Dai esmola e então todas as coisas vos serão limpas" (Lc 11,41) - e o amor a Deus - "os seus pecados, que são muitos, estão-lhe perdoados, porque ela muito amou" (Lc 7,47); “o amor cobre todas as ofensas” (Pv 10:12). Mas Judas carece dessas duas coisas. Faltou-lhe compaixão porque era ladrão e, segurando o dinheiro, roubava a esmola dos pobres. Também lhe faltou amor a Cristo, porque o diabo já havia colocado neste coração a ideia de entregar Cristo aos principais sacerdotes para ser crucificado. - Comentário sobre João
João 13:12
Depois que nosso Senhor mostrou que seu serviço humilde era necessário, então instou para que fosse imitado. Primeiro, o Evangelista descreve as circunstâncias desta exortação; em segundo lugar, menciona a própria exortação (v 12b). Concernente ao primeiro ele faz duas coisas: primeiro, menciona a sequência nesta exortação; em segundo lugar, descreve aquele que faz a exortação (v 12a). A sequência encontrada nesta exortação é que Cristo depois ensinou com palavras o que havia feito primeiro com suas ações. Quanto a isto ele diz: Quando havia lavado seus pés: "Jesus começou a fazer e ensinar" (At 1:1): "Aquele que as fizer e as ensinar será chamado grande no reino dos céus" (Mt 5:19). Ele descreve aquele que faz a exortação por seu vestiário e postura. Quanto ao vestiário, diferentes roupas são apropriadas para diferentes pessoas dependendo das diferentes atividades apropriadas a cada uma: "A roupa de um homem... mostra quem ele é" (Eclo 19:30). Um tipo de roupa é apropriado para um servo, e outro para um mestre. Agora, porque um servo deve estar pronto para servir, ele não possui nenhuma roupa supérflua; e assim Cristo, quando desejou servir, "levantou-se da ceia, tirou suas roupas." E um mestre, que deve ser sério e de grande autoridade, também deve ser apropriadamente vestido. Assim nosso Senhor, quando começou a ensinar, havia tomado suas roupas. Quanto à sua postura: quando Cristo começou a servir ele se levantou; ele diz que Cristo "levantou-se da ceia." Mas agora, prestes a ensinar, ele se reclina; ele diz, retomou seu lugar de novo, disse-lhes. A razão para isto é que o ensino deve ser feito em uma atmosfera de serenidade, e é pelo assentamento e pela quietude que a alma se torna sábia e discernidora. Três eventos aqui são capazes de indicar mistérios. Quando Cristo envia o Espírito Santo a seus discípulos ele estará lhes dando ensino completo: "Mas o Conselheiro, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos recordará de tudo quanto vos tenho dito" (14:26). Mas três coisas devem ocorrer antes que o Espírito seja enviado. Primeiro, seus pecados devem ser lavados pela sua paixão: "Ele nos lavou de nossos pecados em seu próprio sangue" (Ap 1:5). Em referência a isto ele diz, quando havia lavado seus pés, isto é, completamente purificou-os por seu sangue. Em segundo lugar, há a ressurreição de Cristo. Cristo tinha um corpo mortal antes de sua paixão, mas não era mortal porque era, como pessoa, o Filho de Deus; sua mortalidade era devida à natureza humana que assumiu. Mas depois que ressurgiu dos mortos pelo poder de sua divindade, tomou a imortalidade corporal. E em referência a isto ele diz, ele havia tomado suas roupas, isto é, ressurgiu imortal. Ele diz suas roupas porque fez isto por seu próprio poder: "A vida que vive, vive para Deus," isto é, pelo poder de Deus (Rm 6:10). Lemos de tais roupas: "Aquele que vencer será assim vestido de brancas vestes, e não apagarei seu nome do livro da vida" (Ap 3:5). Além disto, antes que o Espírito seja enviado, Cristo deve estar sentado ao lado do Pai após sua ascensão: "Se eu não for embora, o Conselheiro não virá a vós" (16:7). E referindo-se a isto ele diz, e retomou seu lugar de novo, isto é, permanecendo e sentado à direita do Pai: "O Senhor Jesus, depois de haver falado a eles, foi tomado ao céu, e se sentou à direita de Deus" (Mc 16:19). Ele diz, de novo, não porque como Filho de Deus ele tivesse jamais cessado de estar sentado com o Pai, pois está no seio do Pai desde toda a eternidade, mas porque como homem foi elevado aos bens maiores do Pai: "Portanto, Deus o exaltou altamente e lhe deu o nome que é acima de todo nome" (Fl 2:9). E assim, antes de enviar-lhes o Espírito Santo, que os ensinaria perfeitamente, Cristo os lavaria com o sangue que derramou; tomaria suas roupas ao ressurgir; e retomaria seu lugar pela ascensão em glória. Em seguida (v 12b), ele faz sua exortação. Primeiro, ele faz uma pergunta; em segundo lugar, aceita seu reconhecimento; em terceiro lugar, tira uma conclusão disto; em quarto lugar, confirma esta conclusão. Cristo os questiona quando diz: Vós sabeis o que vos fiz? Isto significa: Vós vistes o que fiz, mas não sabeis por que o fiz. E ele os questiona desta forma para mostrar a grandeza de sua ação e para impeli-los a refletir sobre ela. Pois devemos meditar sobre as obras de Deus porque são profundas: "Quão grandes são tuas obras, Ó Senhor! Teus pensamentos são muito profundos" (Sl 92:5). Podemos mal conhecer as obras de Deus: "Então vi todas as obras de Deus, que o homem não pode descobrir a obra que é feita sob o sol" (Ecl 8:17). Ainda assim é um deleite pensar nelas: "Pois tu, Ó Senhor, me alegrou por tua obra; nas obras de tuas mãos eu canto de alegria" (Sl 92:4). Além disto, essas obras são úteis, porque nos levam ao conhecimento de seu autor: "Pois da grandeza e beleza das criaturas, vem-se, por analogia, a contemplação de seu Criador" (Sab 13:5); "Estas mesmas obras que estou fazendo, testificam de mim" (5:36). Segundo Orígenes, esta declaração pode ser apresentada como, Sabei o que vos fiz. Desta forma, tem um sentido imperativo, como se Cristo estivesse dizendo: Vós deveis entender o que vos fiz. Nesta interpretação nosso Senhor disse isto para despertar sua compreensão. — Comentário sobre João
João 13:13
Nosso Senhor aceita seu reconhecimento, Você me chama de Mestre e Senhor. Ele menciona o que eles reconhecem; e então ele aprova isso. Quanto ao primeiro, devemos notar que em 1 Coríntios (1:24), o Apóstolo diz duas coisas sobre Cristo: ele é o poder de Deus e a sabedoria de Deus. Como poder de Deus, ele governa todas as coisas, pois, como diz Ambrósio, a palavra “Senhor” é um nome de poder. Como a sabedoria de Deus ele ensina a todos. Assim, os discípulos o chamaram de Senhor – “Senhor, para quem iremos?” (6:68) - e Professor - “Rabino, coma” (4:31). E com razão. Pois ele é o Senhor, o único que cria e restaura: “Saiba que o Senhor é Deus!” (Sl 100:3). E ele é o único Mestre que ensina desde dentro: “Vós tendes um só Mestre, o Cristo” (Mt 23,10). Quando ele diz, e você está certo, ele aprova o reconhecimento deles. Aqui devemos notar que algo que é falado pode ser louvável por duas razões. Primeiro, porque o que é dito está em harmonia com aquilo de que se diz; e isso acontece se o que é dito for verdadeiro, pois se for falso, não se harmoniza com a coisa. Por isso está bem dito: “Portanto, deixando a falsidade, fale cada um a verdade” (Ef 4:25). Pois as mentiras devem ser evitadas a tal ponto que, mesmo que pareça que conduzem à glória de Deus, não devem ser ditas. Em referência a este ponto ele diz, e você está certo; porque o que você diz é verdade, pois se aplica a mim, pois assim sou, Mestre e Senhor. Eu sou o Mestre por causa da sabedoria que ensino com minhas palavras; Eu sou o Senhor por causa do poder que demonstro em meus milagres. Em segundo lugar, o que é falado pode ser louvável porque está em harmonia com a pessoa que fala. Há alguns que chamam Cristo de Mestre e Senhor, mas isso não está em harmonia com eles, pois não se submetem aos ensinamentos e mandamentos de Deus; e essas pessoas não falam corretamente. Portanto, àqueles que dizem: «Senhor, Senhor, abre-nos», a resposta é dada: «Em verdade te digo que não te conheço» (Mt 25,11), porque não falam com o coração, mas apenas com os lábios. Mas os apóstolos falaram corretamente, porque estavam de acordo com eles. E então Cristo respondeu, e você tem razão, ou seja, você está falando a verdade, pois assim sou, ou seja, para você eu sou o Mestre e o Senhor, pois você me escuta como Mestre - "Para quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna" (6:6) - e você me segue como Senhor - "Eis que deixamos tudo e te seguimos" (Mt 19:27). Isto parece entrar em conflito com a afirmação de Provérbios (27:2): “Que outros te louvem, e não a tua própria boca”. Parece, portanto, que não era certo que nosso Senhor louvasse a si mesmo. Agostinho responde a isso de duas maneiras. Primeiro, é errado uma pessoa elogiar a si mesma por causa do perigo de se tornar orgulhosa: porque se alguém está inclinado ao orgulho, é perigoso para ela ficar satisfeita consigo mesma. Quando não há perigo de orgulho, o auto-elogio não é errado. Este perigo não deveria ser temido em Cristo, pois se alguém está acima de tudo, por mais que se elogie, não se elogia demais. Agostinho também diz que às vezes é bom que uma pessoa se recomende, como quando isso é benéfico para os outros. O Apóstolo recomendou-se desta forma aos Coríntios (2 Cor 11). Agora, conhecer a Deus é muito benéfico e necessário em todos os sentidos, pois toda a nossa perfeição reside nisso. Assim, foi um benefício para nós que ele nos revelasse a sua grandeza, pois como poderíamos conhecê-la se não nos fosse mostrada por quem a conhece? Portanto, era necessário que Cristo se recomendasse a nós, porque, como diz Agostinho, se não se elogiasse para não parecer arrogante, estaria nos privando da sabedoria: “A sabedoria se louvará” (Eclo 24,1). - Comentário sobre João
João 13:14
Ele chega à conclusão quando diz: Se eu, pois, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Ele está argumentando aqui do que é menos esperado para o que é mais esperado. Pois parece menos esperado que alguém que é maior se humilhe do que alguém que não é tão grande. E com isso em mente ele conclui: Se eu, então, que sou maior, porque sou seu Senhor e Mestre, lavei seus pés, então vocês que não são tão grandes, porque são discípulos e servos, deveriam, muito mais do que eu, lavar os pés uns dos outros: “Quem quiser ser grande entre vocês deve ser seu servo... assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20,26). Parece que a afirmação, vocês devem lavar os pés uns dos outros, é um preceito. E quem negligencia um preceito peca gravemente. Portanto, é um pecado grave não lavar os pés dos outros. Respondo, segundo Agostinho, que cada um deve lavar os pés dos outros, seja de forma física ou espiritual. E é muito melhor, e mais verdadeiro do que qualquer argumento, que alguém faça isso de maneira física, para que um cristão não considere indigno dele fazer o que Cristo fez. Pois quando uma pessoa se abaixa aos pés do próximo, a humildade desperta em seu coração ou, se já existe, torna-se mais forte. Se não podemos fazer isso fisicamente, pelo menos devemos fazê-lo no coração. Quando os pés são lavados, suas manchas são removidas. Assim, lavamos os pés dos nossos próximos de uma forma espiritual quando, tanto quanto podemos, lavamos as suas manchas morais. Isso é feito de três maneiras. A primeira maneira é perdoando suas ofensas, como em “E se alguém tiver queixa contra outro, perdoando-vos mutuamente; assim como o Senhor vos perdoou, assim também vós deveis perdoar” (Cl 3:13). Outra maneira é orar por causa dos seus pecados, de acordo com “Orai uns pelos outros, para que sejais curados” (Tg 5:16). Estes dois tipos de lavagem podem ser feitos por todos os fiéis. A terceira via pertence aos prelados, que devem lavar-se perdoando os pecados pelo poder das chaves: “Recebei o Espírito Santo. Se perdoardes os pecados de alguém, eles serão perdoados” (20,22). Também podemos dizer que com esta ação nosso Senhor indicou todas as obras de misericórdia. Pois quem dá pão ao faminto lava os pés, assim como quem pratica a hospitalidade, ou dá comida ao necessitado; e assim por diante para os demais trabalhos. “Contribui para as necessidades dos santos” (Rm 12,13). - Comentário sobre João
João 13:15
Ele apoia sua conclusão de quatro formas: primeiro, por sua intenção; segundo, por sua autoridade (v. 16); terceiro, pela recompensa devida a esta ação (v. 17); e quarto, pela dignidade daqueles cujos pés ele lavou (v. 20). Ele disse a razão pela qual fiz isto foi para vos dar um exemplo; assim também vós deveis lavar os pés uns aos outros, porque era isto que eu tencionava com esta ação. Pois quando se trata da conduta das pessoas, o exemplo tem mais influência do que as palavras. Uma pessoa escolhe e faz o que lhe parece bom, e assim o que alguém escolhe é uma indicação melhor do que é bom do que o que alguém ensina que deveria ser escolhido. É por isto que quando alguém diz uma coisa e faz outra, o que ele faz tem mais influência sobre os outros do que o que ele ensinou. Portanto, é especialmente necessário dar exemplo por suas ações. Agora, o exemplo de um simples ser humano não seria adequado para toda a raça humana imitar, tanto porque a razão humana não pode levar tudo em conta, e ela erra no que conta. E assim nos foi dado o exemplo do Filho de Deus, que não pode estar em erro e é adequado para todas as situações. Assim, Agostinho diz: "O orgulho não é curado se não for curado pela humildade divina"; e o mesmo é verdade da ganância e dos outros vícios. Note que o Filho de Deus é um exemplo apropriado e suficiente para nós. Pois ele é a arte do Pai, e assim como foi o modelo ou padrão para tudo que foi criado, também foi o modelo para nossa justificação: "Cristo também sofreu por vós, deixando-vos um exemplo para que sigais em seus passos" (1 Pe 2:21); "Meu pé se firmou em seus caminhos, guardei o seu caminho e não me desviei," como lemos em Jó (23:11). — Comentário sobre João
João 13:16
Então, quando ele diz: Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior que seu senhor, ele fortalece sua conclusão por sua autoridade. Primeiro, menciona o estado de seus discípulos; segundo, a obra que fazem. Então o estado dos discípulos é que são servos: "Do mesmo modo vós também, quando tivestes feito tudo quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis" (Lc 17:10). A obra que têm de fazer é serem apóstolos — e um apóstolo é aquele que é enviado: "Escolheu doze dentre eles, aos quais também deu o nome de apóstolos" (Lc 6:13). Assim ele diz: Eu digo que "vós também deveis lavar os pés uns aos outros", como lavei os vossos, porque o servo não é maior que seu senhor, e isto se refere a seu estado, nem aquele que é enviado é maior que aquele que o envia. Embora o Filho de Deus tenha sido enviado a nós, como vemos em Hebreus (3:1), e seja igual àquele que o enviou, isto é, o Pai, contudo é verdadeiro de todos os outros que aquele que é enviado não é maior que aquele que o enviou. Parece que isto contradiz o que nosso Senhor disse a seus discípulos abaixo (15:15): "Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor." Respondo que há duas formas de ser servo. Uma forma é baseada no respeito e reverência, "medo filial", e isto produz um bom servo: "Bem está, servo bom e fiel" (Mt 25:23). Este é o tipo de servo sobre o qual nosso Senhor fala aqui em João (13:16). A outra forma de ser servo é baseada no medo do castigo, "medo servil". Este tipo de servo é mencionado em "Servo malvado! Perdoei-te aquela dívida toda porque me rogastes" (Mt 18:32). Este é o tipo de servo ao qual nosso Senhor se refere quando diz: "Já não vos chamo servos" (15:15). — Comentário sobre João
João 13:17
Quando ele diz: Se você sabe essas coisas, bem-aventurado será se as praticar, ele fortalece sua conclusão com uma recompensa. Primeiro, ele menciona a recompensa; em segundo lugar, ele exclui alguém dela (v 18). Se você sabe essas coisas, que muitos sabem, bem-aventurado será se as praticar, o que acontece com poucos. Ele diz “conhecer” e “fazer” porque lemos: “Bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a guardam” (Lc 11,28); e “Bom entendimento têm todos aqueles que o praticam” (Sl 111:10). Por outro lado, “Quem sabe o que é certo fazer e não o faz, para ele é pecado” (Tg 4:17). - Comentário sobre João
João 13:18
Ele exclui alguém quando diz: não estou falando de todos vocês. Primeiro, ele diz que há uma exceção; em segundo lugar, ele dá a razão da exceção (v 18). Em terceiro lugar, ele conta por que disse que havia uma exceção (v. 19). Ele faz duas coisas em relação ao primeiro: menciona que há uma exceção; ele responde a uma pergunta não formulada. Ele diz que há uma exceção quando diz: não estou falando de todos vocês. Ele está dizendo com efeito: vocês serão abençoados, mas não todos vocês, porque não estou falando de todos vocês quando digo que vocês serão abençoados: “Todos os corredores competem, mas apenas um recebe o prêmio” (1 Cor 9,24). Pois há um de vocês, isto é, Judas, que não será abençoado e não fará essas coisas. De acordo com Orígenes, nosso Senhor não disse bem-aventurados sois, sem qualificação; mas ele adicionou uma condição, se você as cumprir. E isso é verdade para todos eles, até mesmo para Judas; pois se Judas tivesse feito essas coisas, ele teria sido abençoado. Assim, para Orígenes, Jesus está excluindo Judas de seus servos, “um servo não é maior que seu senhor” (v 16). Era como dizer: digo que sois servos e apóstolos, mas não falo de todos vós: pois Judas, sendo servo do pecado, não foi servo do Verbo divino, nem foi apóstolo depois que o diabo entrou no seu coração. Alguém poderia dizer: Visto que Cristo não diz que todos são bem-aventurados ou seus apóstolos, então algum membro de seu grupo pode perecer inesperadamente. Nosso Senhor responde a isto dizendo: Eu sei quem escolhi. Isto era como dizer: aqueles que foram escolhidos não perecerão; mas nem todos foram escolhidos. Assim, quem perecerá será aquele que não foi escolhido, ou seja, Judas: “Você não me escolheu, mas eu escolhi você” (15:16). Isto parece entrar em conflito com a sua declaração anterior: “Não fui eu que escolhi vocês, os doze?” (6:71). Portanto, como Judas era um dos doze, parece que foi o escolhido. Eu respondo que um pode ser escolhido de duas maneiras. Um é por uma justiça presente; e Judas foi escolhido para isso. A outra é para a glória final; e Judas não foi escolhido para isso. A razão pela qual houve uma exceção foi para que a Escritura pudesse ser cumprida - não que a Escritura forçasse o evento, mas mencionou um evento que aconteceria: “Tudo o que está escrito sobre mim na lei de Moisés, nos profetas e nos salmos deve ser cumprido” (Lc 24:44); “Nem um iota, nem um ponto, passará da lei até que tudo seja cumprido” (Mt 5:18). Esta escritura diz: Aquele que comeu do meu pão levantou contra mim o calcanhar. Esta é outra tradução do que temos no Salmo (41:9) como: “O homem da minha paz, em quem eu confiava, que comia do meu pão, me enganou grandemente”. A intimidade que Judas tinha com Cristo é demonstrada quando lemos, aquele que comeu do meu pão: pois Judas, junto com os outros discípulos, comeu pão com Cristo, até pão consagrado. Além disso, seus esforços maliciosos contra Cristo são mostrados quando diz: levantou o calcanhar contra mim; isto é, ele tentará me esmagar. E nós esmagamos nossos inimigos sob nossos calcanhares: “Ela esmagará sua cabeça, e você armará ciladas para seu calcanhar” (Gn 3:15). E então diz-se que um levanta o calcanhar contra outro quando tenta esmagá-lo. Mas Judas não poderá fazer isso, porque serei exaltado exatamente por aquilo com que ele quer me esmagar: “E eu, quando for elevado da terra, atrairei todas as coisas para mim” (12:32). Nisto temos para nós um exemplo: não recuemos se acontecer de sofrermos o mal dos que nos são próximos ou dos maliciosos, pois podemos recordar a conduta de Judas que, apesar de ter recebido bens ilimitados, devolveu o contrário ao seu benfeitor. Nosso Senhor escolheu Judas, que ele sabia que se tornaria uma pessoa má, para que pudéssemos perceber que não haveria sociedade humana que não tivesse alguns membros maus: “Como o lírio entre os arbustos, assim é o meu amor entre as donzelas” (Cântico 2:2). E numa de suas cartas Agostinho diz: “Não me importa presumir que minha casa seja melhor que o grupo dos apóstolos”. Também podemos compreender daí que se um prelado recebe alguém na Igreja, e essa pessoa se torna má, o prelado não deve ser culpado. Olha Judas! Mesmo tendo sido escolhido por Cristo, ele se revelou um traidor. A mesma coisa aconteceu com Filipe quando recebeu Simão, o mago: "Será que eles retribuirão o bem com o mal, armando uma armadilha para me tirar a vida?" (Jeremias 18:20); “Os inimigos do homem serão os da sua própria casa” (Mt 10,36). - Comentário sobre João
João 13:19
Então quando ele diz: Eu digo isto a você agora, ele dá a razão pela qual mencionou que houve uma exceção. Como se dissesse: Fui silencioso sobre sua malícia por muito tempo, mas porque o tempo está próximo quando aparecerá publicamente, portanto, digo isto a você agora, antes que aconteça, para que quando de fato acontecer você creia que sou eu quem prediz o futuro e revela os segredos do coração: coisas que são características de Deus. "O coração é mais enganoso do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem pode entendê-lo? 'Eu, o Senhor, sondo a mente e provo o coração'" (Jr 17:9); "Digam-nos o que virá depois, para que saibamos que vocês são deuses" (Is 41:23). Ou, "Eu sou quem sou" (Ex 3:14). — Comentário sobre João
João 13:20
Em seguida (v 20), ele confirma sua conclusão a partir da dignidade daqueles cujos pés lavou. Pois sua dignidade era tão grande que os serviços realizados para eles pareciam de certa forma retornar a Deus, embora de acordo com uma certa progressão: porque as coisas feitas pelos fiéis através de Cristo retornam ao Deus Pai. Primeiro, ele mostra como as coisas feitas para os discípulos de Cristo retornam ou se rebatem em Cristo. Quanto a isto ele diz, Em verdade, em verdade vos digo. Ele está dizendo, de fato: Em verdade, devíeis lavar seus pés, porque quem recebe a quem quer que eu vos envie me recebe a mim, isto é, considero feito a mim o serviço dado àqueles que envio: "Quem vos recebe a mim recebe" (Mt 10:41). Em segundo lugar, ele mostra como um serviço dado a Cristo retorna ao Pai, dizendo, quem me recebe recebe aquele que me enviou: "Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai" (5:23). Contudo, de acordo com Orígenes, este versículo pode ser entendido de duas maneiras. De um modo comprimindo as duas partes numa só, e então o sentido é: quem recebe aqueles enviados por mim também recebe o Pai. A segunda maneira mantém as partes distintas, e então o significado é: quem recebe, isto é, de uma maneira física, aqueles enviados por mim, me recebe a mim; e aqueles que me recebem, isto é, vindo às suas almas de uma maneira espiritual - como em "para que Cristo habite em seus corações por meio da fé" (Ef 3:17) - recebe aquele que me enviou, o Pai. Não apenas eu habitarei nele, mas o Pai também: "Viremos a ele e faremos nele nossa morada" (14:23). Ário usou este texto da seguinte forma para ajudar a sustentar seu próprio erro: o Senhor diz que quem o recebe recebe o Pai; e assim a relação entre o Pai que envia e o Filho é a mesma que a do Filho que envia e dos discípulos. Mas Cristo que envia é maior do que os discípulos que são enviados; assim, o Pai é maior do que o Filho. Devemos responder isto, de acordo com Agostinho, dizendo que havia duas naturezas em Cristo, uma humana e uma divina. Na primeira parte ele está falando com referência à sua natureza humana, dizendo, quem recebe a quem quer que eu vos envie me recebe a mim, como humano, pois partilho com eles uma natureza humana. Na segunda parte ele fala em referência à sua divindade: quem me recebe, que sou Deus, recebe aquele que me enviou, pois tenho a mesma natureza divina que ele. Ou, poderíamos entender isto para significar: quem recebe a quem quer que eu vos envie me recebe a mim, pois minha autoridade está nele; e quem me recebe recebe o Pai, cuja autoridade está em mim. Deste modo, estas palavras mostram que Cristo é a ponte entre Deus e a humanidade, como em "Há um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus" (1 Tim 2:5). — Comentário sobre João
João 13:21
Acima, o Evangelista apresentou o exemplo que Cristo deu a seus discípulos para imitar. Aqui ele mostra a falha dos discípulos que ainda não estavam prontos para segui-lo; uma falha que Cristo predisse. Primeiro, vemos a falha do discípulo que o traiu; em segundo lugar, do discípulo que o negou (v 36). Duas coisas são feitas com a primeira: diz-se que um dos discípulos é um traidor; em segundo lugar, vemos-o deixar a ceia. Duas coisas são feitas quanto ao primeiro: a traição é predita; então vemos-a começar a ser executada (v 27a). Duas coisas são feitas quanto ao primeiro: o crime do traidor é previsto; em segundo lugar, o traidor é identificado (v 22). Duas coisas são feitas quanto ao primeiro: as emoções daquele que prediz a traição são mencionadas; em segundo lugar, o evento predito é mencionado. Aquele que prediz a traição é Cristo, e ele estava perturbado. Quanto a isto, o Evangelista diz: Depois de Jesus assim falar, convidando-os novamente a obras de amor, ele visualizou o discípulo que o havia de trair e estava perturbado de espírito. Aqui devemos notar que estar perturbado é ser agitado. Isto é mostrado por um evento mencionado antes: "De tempos em tempos um anjo do Senhor descia no tanque e agitava a água... o doente lhe disse: 'Senhor, não tenho ninguém que me coloque no tanque uma vez agitada a água'" (5:4). Aqui é a mesma coisa para a água estar agitada ou perturbada. Também dizemos que o mar está perturbado quando é agitado. E assim dizer que uma alma está perturbada é dizer que está agitada. Ora, há alguns atos da alma que não envolvem agitação no corpo; estes são os atos de suas potências intelectuais. Mas os atos do apetite sensorial envolvem alguma agitação corporal; e assim as afecções do apetite sensorial são chamadas paixões. Ora, dentre todas as afecções ou paixões do apetite sensorial, a tristeza envolve a maior agitação. Enquanto o prazer, visto que implica repouso num bem que é possuído, tem mais o caráter de repouso do que de agitação. Mesmo o medo, visto que se preocupa com um mal futuro, tem menos agitação do que a tristeza, que envolve um mal presente. Por isto aquele que é afligido pela tristeza é especialmente dito estar perturbado. Assim Cristo estava perturbado, isto é, estava triste. Podemos lembrar aqui que houve filósofos, os Estoicos, que disseram que aqueles que são sábios não estão perturbados desta forma ou por tais paixões. Pois embora admitam que aquele que é sábio pode ter medo, ou alegria ou desejo, nunca tem tristeza. É claro que isto é falso porque Jesus, que é a mais alta sabedoria, estava perturbado. Note que pode-se estar perturbado de dois modos. Às vezes vem da carne, o que significa que está perturbado por causa de alguma apreensão pelos sentidos, mas independentemente do julgamento da razão. Porém às vezes isto pode permanecer dentro dos limites da razão e não obscurecer a razão; neste caso, Jerônimo o chamaria de propaissão. Isto pode acontecer em alguém que é sábio. Outras vezes, isto pode ir além dos limites da razão e perturbar a razão. Isto não se encontra no sábio. O segundo modo de estar perturbado é tê-lo vir da razão, isto é, quando está perturbado no apetite sensorial por causa de um julgamento da razão e da deliberação. Este foi o modo como Cristo estava perturbado. E assim o Evangelista cuida de dizer que estava perturbado de espírito, isto é, o apetite sensorial de Cristo estava perturbado por causa de um julgamento de sua razão. Assim ele disse acima (11:33) que Jesus "a si mesmo se perturbou." Pois em Cristo todas as coisas surgiram da deliberação da razão, mesmo em seu apetite sensorial; e assim não havia nele perturbações súbitas de sua sensualidade. Jesus quis estar perturbado neste tempo por duas razões. Primeiro, a fim de nos instruir na fé. Pois o sofrimento e a morte, que a natureza humana naturalmente evita, aproximavam-se dele; e quando percebeu isto, ficou triste porque eram prejudiciais e maus para ele. E assim quis, por um julgamento da razão, estar perturbado mesmo em sua alma, para nos mostrar que tinha uma natureza humana real. Isto exclui o erro de Apolinário que disse que Cristo não tinha uma alma, mas o Verbo tomou seu lugar. Em segundo lugar, ele fez isto para auxiliar nosso próprio progresso. Conforme Agostinho, ele viu que o traidor estava prestes a partir e retornar com os judeus que queriam capturá-lo. Por esta ação, Judas foi separado da sociedade dos santos e atraiu sobre si uma sentença de morte. E porque Jesus o amava, isto o entristeceu. Isto dá um exemplo aos superiores que se de vez em quando têm de passar um julgamento severo sobre seus subordinados, devem fazê-lo com um coração triste, conforme: "Que um homem bom me fira ou repreenda com bondade" (Sl 141:5). Pois quando Jesus decidiu revelar a traição de Judas aos outros, estava perturbado de espírito e testificou, para mostrar que não estava ignorante de sua traição, e disse: Em verdade, em verdade vos digo: um de vós me há de trair. Ele cuida de dizer: um de vós, isto é, um daqueles escolhidos para esta sociedade sagrada, para que entendamos que nunca haveria uma sociedade tão sagrada que estivesse sem pecadores e aqueles que são maus: "Ora, num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se diante do Senhor, veio também Satanás entre eles" (Jó 1:6). Ele disse um deles, não dois ou vários, para que não parecesse que estava repreendendo o grupo inteiro em vez do traidor no grupo. Pois não devemos pensar mal de um grupo porque um membro é mau; embora se vários forem maus, o grupo pudesse ser considerado mau. Ele disse: um de vós, isto é, um de vosso número, não um de vós em mérito ou um em espírito: "Saíram de nós, mas não eram de nós; pois se tivessem sido de nós, teriam permanecido conosco" (1 Jo 2:19). Um de vós me há de trair. A mim, o Mestre, o Senhor, o Salvador. — Comentário sobre João
João 13:22
A seguir (v 22), o traidor é identificado em particular. Primeiro, são mencionadas as ocasiões para isso; em segundo lugar, o traidor é identificado (v 26); em terceiro lugar, vemos o efeito da sua identificação (v. 27). Houve duas ocasiões para a sua identificação: uma foi a incerteza dos discípulos e a outra foi uma pergunta feita por um dos discípulos. Primeiro, João menciona a incerteza deles; e depois a pergunta do discípulo. No que diz respeito ao primeiro, note que os bons discípulos tinham um amor muito grande por Cristo e a sua fé era muito forte. Por causa do seu amor, cada um presumiu que não seria ele quem negaria a Cristo; contudo, porque sua fé era tão forte, eles estavam absolutamente certos de que o que Cristo disse não poderia ser falso. E assim, embora nenhum deles estivesse consciente de qualquer mal, eles, no entanto, pensaram que a predição de Cristo era mais verdadeira e mais credível do que a sua própria opinião. Assim, considerando que eram humanos e que os seus afetos podiam mudar tanto que podiam querer o oposto do que desejavam antes, estavam mais inseguros de si mesmos do que da verdade dita por Cristo. Assim, os discípulos entreolharam-se, sem saber de quem ele falava: “Portanto, quem pensa estar de pé, tome cuidado para que não caia” (1 Cor 10,12); “Se eu me lavar com neve e limpar as mãos com soda cáustica, ainda assim você me mergulhará numa cova” (Jó 9:30). - Comentário sobre João
João 13:23
Em seguida (v. 23), a pergunta do discípulo é exposta. Primeiro vemos a intimidade que ele tinha com Cristo; em segundo lugar, o que o levou a perguntar (v. 24); em terceiro lugar, sua pergunta (v. 25). A intimidade do discípulo com Cristo é mostrada pelo fato de que ele estava deitado junto a ele. Ele diz: um dos discípulos estava recostado no peito de Jesus. Este era João o Evangelista que escreveu seu Evangelho. Ele escreveu sobre si mesmo na terceira pessoa para evitar jactância. Nisso ele seguiu o costume de outros que escreveram a Sagrada Escritura. Moisés escreveu sobre si mesmo dessa forma, como se fosse alguém mais: "e o Senhor disse a Moisés" (Lv 11:1). E assim fez Mateus: "Viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria" como vemos em Mateus (Mt 9:9). E além disto Paulo fez o mesmo: "Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos, foi arrebatado até ao terceiro céu" (2 Co 12:2). João aqui menciona três coisas sobre si mesmo. Primeiro, o amor que tinha por Cristo ao descansar nele. João disse que estava deitado, isto é, descansando: "Então te deleitarás no Todo-Poderoso, e levantarás teu rosto para Deus" (Jó 22:26); "Deita-me em pastos verdejantes" (Sl 23:2). Em segundo lugar, ele insinua seu conhecimento de mistérios, que lhe foram revelados por Cristo, e especialmente para a escrita deste Evangelho. Ele diz que estava recostado no peito de Jesus, pois o peito significa coisas que são ocultas: "O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o fez conhecer" (1:18). Em terceiro lugar, ele menciona o amor especial que Cristo tinha por ele, dizendo: a quem Jesus amava, não exclusivamente, mas de uma forma acima dos outros. Exatamente como Cristo o amava mais do que aos outros será declarado mais claramente no final deste livro. Por enquanto, é suficiente dizer que João foi mais amado por Cristo por três razões. Primeiro, por causa da limpeza de sua pureza: pois era virgem quando escolhido pelo Senhor, e permaneceu assim sempre: "Quem ama a pureza de coração, cuja palavra é graciosa, terá o rei como amigo" (Prov 22:11). Em segundo lugar, por causa da profundidade de sua sabedoria, pois viu mais longe nos segredos de Deus do que outros; e assim é comparado a uma águia: "O servo sábio do rei terá fama" (Prov 14:35). Em terceiro lugar, por causa da grande intensidade de seu amor por Cristo: "Eu amo os que me amam" (Prov 8:17). — Comentário sobre João
João 13:24
Então, quando ele diz, então Simão Pedro acenou para ele, João menciona o que o levou a questionar Cristo. Mas já que acenar é sugerir algo sem falar nenhuma palavra, por que ele diz que Pedro acenou... e disse? Eu respondo que a palavra acenar também pode significar apenas pensar algo dentro de nós mesmos, como “Diz o insensato em seu coração...” (Sl 53:1). E, mais ainda, podemos dizer que alguém disse algo quando indica por algum sinal ou gesto externo o que concebeu em seu coração. Este é o sentido de dizer que Pedro acenou... e disse, isto é, pensando em algo dentro de si, indicou-o com algum tipo de gesto. Ou pode-se dizer que ele primeiro fez algum gesto e depois disse em palavras: Quem é de quem ele fala? isto é, quem o trairá. Visto que em todos os Evangelhos Pedro é sempre apresentado como ousado e como o primeiro a falar por causa do seu amor fervoroso, por que agora ele se cala? Crisóstomo dá três razões para isso. Uma é que Pedro tinha acabado de ser repreendido por nosso Senhor por não lhe permitir lavar os pés, e ouviu: “Se eu não te lavar, você não terá parte comigo”. Como resultado, ele preferiu não incomodar nosso Senhor agora. Outra razão é que Pedro não queria que nosso Senhor revelasse isso abertamente para que outros pudessem ouvir. E assim, porque Pedro estava a poucos metros de Cristo e não seria o único a ouvir a sua resposta, ele pediu a João, que estava ao lado de Jesus, que lhe perguntasse. A terceira razão é mística. João significa a vida contemplativa e Pedro a vida ativa. Já Pedro é instruído por Cristo por meio de João, porque a vida ativa aprende as coisas divinas por meio da vida contemplativa: “Maria sentou-se aos pés do Senhor e ouviu o seu ensinamento. Mas Marta estava distraída com muito serviço” (Lc 10,39). - Comentário sobre João
João 13:25
Então, quando ele disse: Assim deitado, perto do peito de Jesus, disse-lhe: Senhor, quem é? ele menciona a questão. Observe que quando Pedro estava acenando para João para que ele questionasse nosso Senhor, João estava encostado perto do colo de Jesus. Mas agora, quando João pergunta, ele está perto do peito de Jesus, pois o peito está mais perto da boca do que o colo. E assim João passou do colo de Cristo para o seu peito para que pudesse ouvir sua resposta de forma mais silenciosa e privada. Quanto à interpretação mística, podemos perceber que quanto mais uma pessoa deseja apreender os segredos da sabedoria divina, mais deve tentar aproximar-se de Cristo, segundo: “Venha a ele e seja iluminado” (Sl 34,5). Com efeito, os segredos da sabedoria divina são revelados especialmente àqueles que estão unidos a Deus pelo amor: «Ele mostra ao amigo que ela é sua propriedade» (Jó 36,33); “Seu amigo vem e o investiga” (Pv 18:17). - Comentário sobre João
João 13:26
Então quando ele diz, Jesus respondeu, ele identifica o traidor: primeiro por palavras, depois por uma ação. Ele identifica por palavras quando diz, É aquele a quem darei este pão quando o tiver mergulhado. Isto pode significar duas coisas, dependendo de como o pão é entendido. Se é entendido como indicando algo maligno, significa a hipocrisia de Judas. Pois assim como o pão mergulhado é manchado e mudou de aparência, assim também um fingidor, pois ele pensa uma coisa em seu coração enquanto simula algo diferente com suas palavras. E Judas era assim, pois externamente fingia amar o Mestre, mas em seu coração planejava traí-lo: Os ímpios "falam paz a seus vizinhos, enquanto há malícia em seus corações" (Sl 28:3). Se o pão é tomado para significar algo bom, então esta ação acentua a malícia de Judas. Quando o pão é mergulhado fica com melhor sabor. Assim Cristo deu a Judas pão mergulhado para mostrar que embora Judas tivesse recebido muitos bens de Cristo, apesar disto o traiu: "Mas sois vós, meu igual, meu companheiro, meu amigo íntimo. Juntos tínhamos doce comunhão" (Sl 55:13). Ele identifica o traidor por uma ação quando diz, assim depois que mergulhou o pão, deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Alguns dizem que este pão era o corpo consagrado de Cristo. Mas, segundo Agostinho, não é assim. Pois é claro pelos outros Evangelistas que nosso Senhor deu seu corpo aos discípulos enquanto participava da ceia. Assim é evidente que Judas recebeu o corpo de Cristo ao mesmo tempo que os outros discípulos, isto é, durante a ceia. Durante o curso desta refeição Jesus se levantou e lavou os pés dos discípulos e retornou ao seu lugar. E foi somente depois disto que deu o pão a Judas. Claramente, este não era o corpo de Cristo. — Comentário sobre João
João 13:27
Ele continua com o efeito dessa identificação, dizendo, então após o bocado, Satanás entrou nele. Aqui podemos perguntar como Satanás entra em uma pessoa. Respondo que há duas maneiras de compreender a entrada de Satanás em uma pessoa. Ele poderia entrar no corpo de uma pessoa, como no caso daqueles que são molestados fisicamente por um demônio. Dessa forma o diabo pode essencialmente entrar em uma pessoa. Ou podemos entender isso significando que o diabo entra na mente de uma pessoa, de modo que o diabo essencialmente penetraria a mente. Porém, ninguém a não ser Deus pode entrar em uma pessoa dessa forma. Ora, a alma racional não tem dimensões quantitativas para que algo pudesse estar nela a não ser o que lhe dá existência, que ali está pelo seu próprio poder. Ora, onde está o poder de Deus, ali também está sua essência: pois em Deus essência e poder são o mesmo. Portanto fica claro que Deus está na alma essencialmente. Contudo, o diabo pode entrar na mente humana no sentido de que uma pessoa que foi seduzida por ele o segue ao fazer o mal; esse é um efeito da malícia do diabo, que alguém amou. Foi dito acima: "E durante a ceia, quando o diabo já havia colocado no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, para traí-lo." Mas agora ele diz, Satanás entrou nele. Portanto parece haver uma diferença entre "colocar em" e "entrar em". Digo que isso não foi dito para indicar uma diferença, mas para notar um crescimento do mal. Diz-se que o diabo coloca algo maligno no coração de uma pessoa quando a pessoa cede a ele e consente ao mal, mas com algum temor quanto a se deveria fazer isso ou não. Mas ele entra no coração de uma pessoa quando alguém se entrega totalmente a seguir suas sugestões e não oferece resistência alguma. Assim Satanás primeiro colocou o plano de enganar Cristo em Judas, e então entrou nele para possuí-lo mais completamente e levá-lo a realizar o mal. Alguém poderia perguntar por que Lucas (22:3) diz que Satanás entrou em Judas até antes de ele receber o bocado. Isso parece conflitar com o que João diz aqui, que após o bocado, Satanás entrou nele. Respondo que no primeiro caso Satanás entrou nele para planejar a traição, mas agora entrou nele para realizá-la e completá-la. Foi errado dar a Judas esse bocado, pois após isso Satanás teria entrado nele? Digo que não. O próprio Judas era mau, e usou uma coisa boa de forma má. De maneira semelhante, quando alguém indignamente recebe a Eucaristia, que é boa e até a melhor das coisas, a recebe de forma má e se torna má para ele, porque "come e bebe para sua própria condenação" (1 Co 11:29). Agora vemos a própria traição, após ser predita. Primeiro, vemos que Judas foi permitido fazer o que foi predito; e em segundo lugar, como foi feito (v. 30). João faz três coisas com a primeira: primeiro, ele dá as palavras de nosso Senhor, permitindo que Judas aja; em segundo lugar, menciona que o significado dessas palavras não era claro; e em terceiro lugar, afirma como os Apóstolos as entenderam. Jesus lhe disse: "O que você vai fazer, faça rapidamente." Isso não é um mandamento ou um conselho, pois o pecado não pode ser mandado ou aconselhado, porque "O mandamento do Senhor é puro, iluminando os olhos" (Sl 19:8). É, antes, uma permissão. Como vimos, o diabo havia colocado no coração de Judas o plano de trair Jesus, e ele já havia feito arranjos com os chefes dos sacerdotes. Contudo, ele não poderia realizar isso a menos que o próprio Cristo desse permissão, porque "Ninguém ma tira, mas eu a dou de mim mesmo" (10:18); "Ele foi ofertado porque foi de sua vontade" (Is 53:7). Essas palavras também repreendeem o ato maligno da traição, e implicam que enquanto Cristo conferia benefícios a ele, Judas planejava sua morte: "Mas agora vos repreendo, e deponho perante vós a acusação" (Sl 50:21). Como diz Agostinho, também são as palavras de alguém que deseja ardentemente realizar a obra de nossa redenção. Ainda assim, Cristo não estava mandando o crime, mas predizendo-o. Ele não estava tão procurando a ruína daquele que o traiu quanto apressando-se para se tornar a salvação dos crentes: "Tenho um batismo com o qual devo ser batizado; e como fico angustiado até que se realize!" (Lc 12:50). — Comentário sobre João
João 13:28
O que nosso Senhor disse não era claro para os discípulos. João diz: Agora ninguém à mesa sabia por que lhe havia dito isso. Podemos entender disso que as palavras de Cristo são tão profundas e tão acima da compreensão humana que não podemos compreender delas mais do que o que ele revela: "É glória de Deus encobrir uma palavra" (Pv 25:2). Uma questão surge aqui. Já que nosso Senhor indicara a João quem era o traidor, dizendo: é aquele a quem darei o pão depois de o ter mergulhado, e então o deu a Judas, os discípulos parecem ter sido excessivamente lentos em não terem compreendido o que ele acabara de dizer. Respondo que nosso Senhor disse isto privadamente a João a fim de não revelar o traidor. A razão disto ser que Pedro amava Cristo tão ferozmente que se tivesse tido certeza de que Judas estava prestes a traí-lo, teria rapidamente o matado. Visto que João mesmo era um dos que jantavam, por que ele disse: ninguém à mesa sabia por que lhe havia dito isso? Respondo que é usual para alguém que é bom e sem mal acreditar que outros também estão sem mal. Ora João era extremamente bom e nunca consideraria se tornar um traidor. Assim nunca suspeitou que outro discípulo cometeria tal grande crime. — Comentário sobre João
João 13:29
Agora o Evangelista nos diz o que os discípulos, ignorantes da verdadeira razão pela qual Jesus estava falando, pensaram que ele quis dizer: alguns dos discípulos pensaram que, porque Judas tinha a caixa de dinheiro, Jesus estava lhe dizendo... Aqui devemos notar que o Senhor Deus do Céu, que alimenta todos os seres vivos, tinha uma bolsa, não para possuir as coisas da terra, mas para guardar as ofertas dos crentes e assim prover para suas próprias necessidades e as necessidades de outros. Esta bolsa estava aos cuidados de Judas. Como Agostinho diz, isto nos ensina que a Igreja pode ter e reservar dinheiro para suas necessidades imediatas. Também nos ensina que o dinheiro da Igreja deve ser usado para apenas duas coisas. Primeiro, para o que pertence ao culto divino; pois lemos, Compra o que é necessário para a festa, isto é, o que podemos usar para adorar a Deus no dia festivo: "Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja alimento em minha casa" (Ml 3:10). Segundo, seu dinheiro pode ser usado para ajudar os pobres, assim ele acrescenta, ou para dar alguma coisa aos pobres. Poderia-se argumentar contra isto que Mateus (6:34) diz, "Não vos preocupeis com o dia de amanhã." Agostinho respondeu a isto e disse que nosso Senhor não comandou aos santos não guardar o dinheiro ou outros bens de um dia para o próximo. Ao contrário, ele disse, "Não vos preocupeis com o dia de amanhã." Isto significa que não devemos estar pregando ou fazendo outros serviços religiosos a fim de nos provermos um futuro; nem devemos omitir agir de modo virtuoso por causa do medo do futuro. Portanto, é claro que quando nosso Senhor disse "Não vos preocupeis com o dia de amanhã," ele estava proibindo duas coisas. Primeiro, não devemos fazer o bem para assegurar nosso futuro; segundo, não devemos omitir fazer o bem porque tememos uma pobreza futura. Crisóstomo explica isto claramente quando diz: "Não vos preocupeis com o dia de amanhã, isto é, não antecipem hoje as preocupações do próximo dia; os problemas de hoje são suficientes." Alguém poderia também se perguntar por que nosso Senhor tinha uma bolsa, uma vez que ele disse a seus discípulos, "Não levai bolsa, nem saco, nem sandálias" (Lc 10:4). Segundo Crisóstomo, nosso Senhor possuía uma bolsa para prover os necessitados e nos ensinar que não importa quão pobres e mortificados ao mundo possamos ser, devemos nos preocupar com os pobres, segundo "Ele distribuiu livremente, deu aos pobres" (Sl 112:9). Ou, poderíamos dizer que quando ele lhes disse para não levar nada em seu caminho, ele estava se referindo aos pregadores e Apóstolos individuais, que não deveriam levar nada quando fossem pregar. Mas não se referia ao grupo inteiro que precisaria de algo para si e para os pobres. — Comentário sobre João
João 13:30
Seguinte (v 30), João mostra que o que foi predito se realizou. Primeiro, ele menciona a ação que foi realizada; em segundo lugar, o tempo quando foi realizada. O que foi realizado foi feito rapidamente, porque após receber o bocado, ele imediatamente saiu. Note-se que, como Orígenes diz, o Evangelista não diz que Judas comeu o bocado, mas que o recebeu. Isto pode ser entendido de duas maneiras. Primeiramente, poderia ser que Judas estava tão preocupado em obedecer ao Mestre que quando recebeu o bocado, não o comeu, mas talvez o deixou sobre a mesa e sem demora saiu para completar sua traição. A razão para isto poderia ser que o diabo não permitiu que Judas comesse o pão. Pois o diabo, que já havia entrado no coração de Judas, temia que se Judas comesse o pão, o diabo teria que sair, visto que não podia estar no mesmo lugar que Jesus: "Que acordo há entre Cristo e Belial?" (2 Co 6:15); "Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios" (1 Co 10:21). Tomado de outra forma, poderíamos pensar que Judas comeu o pão que recebeu. Então o significado é, após receber o bocado, não apenas em sua mão, mas até comendo-o, ele imediatamente saiu. Assim ele fez uso de uma coisa boa de uma maneira má. Isto é exatamente o que faz alguém que indignamente come o pão do Senhor, ou bebe de seu cálice: come e bebe para seu próprio dano e acrescenta ao seu pecado. Assim o pão que Jesus deu a Judas tornou-se uma fonte de dano: pois depois que o pão entrou nele, assim também Satanás. O tempo é descrito como um de escuridão: e era noite. Ele menciona isto por duas razões. Primeiramente, para enfatizar a malícia de Judas. Havia crescido em seu coração a tal ponto que até a inconveniência da hora não o fez esperar até a manhã: "O assassino se levanta na escuridão...e à noite ele é como um ladrão" (Jó 24:14). Em segundo lugar, ele quer mostrar seu estado de ânimo. Era noite, porque a mente de Judas o traidor era escura, sem luz divina. "Se alguém caminha no dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. Mas se alguém caminha à noite, tropeça, porque a luz não está nele" (11:9-10). — Comentário sobre João
João 13:31-32
Depois que Judas partiu para provocar a morte de nosso Senhor, Jesus menciona que ele próprio partirá para a glória. Primeiro, para consolá-los, ele menciona a glória para a qual vai; em segundo lugar, ele prediz a sua partida (v 33). A glória para a qual ele vai é a glorificação e exaltação de Cristo na medida em que ele é o Filho do homem. Tendo ele saído, isto é, Judas, disse Jesus aos seus discípulos: Agora é glorificado o Filho do homem, e nele Deus é glorificado. A palavra usada foi na verdade “esclarecido” e não “glorificado”. Mas ambas as palavras significam a mesma coisa. Ser esclarecido (tornar-se brilhante ou esplendoroso, ser exibido e divulgado) é o mesmo que ser glorificado, pois a glória é uma espécie de esplendor. Segundo Ambrósio, alguém tem glória quando é conhecido com clareza e elogiado. E assim os exegetas traduzem a palavra grega “esclarecer” como “glorificar” e vice-versa. Podemos entender esta afirmação de quatro maneiras, referindo-a aos quatro tipos de glória que Cristo teve: a glória da cruz; a glória do seu poder judicial; a glória de sua ressurreição; e a glória de ser conhecido pela fé do povo. As Escrituras atribuem esta glória quádrupla a Cristo. Primeiro, então, Cristo foi glorificado ao ser levantado na cruz. Até mesmo Paulo disse que sua própria glória estava na cruz: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, exceto na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gálatas 6:14). Esta é a glória que Crisóstomo tem em mente ao explicar o texto. Nesta explicação, nosso Senhor menciona quatro coisas sobre a glória da cruz: a própria glória; o fruto desta glória; o autor da glória; e o tempo da glória. Quanto ao primeiro, a própria glória da cruz, ele diz: Agora é glorificado o Filho do homem. Observe que quando algo está começando, parece que já existe. Agora, quando Judas saiu para trazer de volta os soldados, este parece ser o início da paixão de Cristo, a paixão pela qual ele seria glorificado. É por isso que ele diz, agora o Filho do homem é glorificado, ou seja, a paixão pela qual ele será glorificado está começando agora. Com efeito, Cristo foi glorificado pela paixão da cruz porque através dela venceu os inimigos da morte e do diabo: «para que pela morte destruísse aquele que tem o poder da morte» (Hb 2, 14). Mais uma vez, ele adquiriu glória porque pela sua cruz uniu o céu e a terra: “para reconciliar consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão no céu, estabelecendo a paz pelo sangue da sua cruz” (Cl 1,20). Além disso, ele foi glorificado pela sua cruz porque através dela adquiriu toda a realeza. Uma versão do Salmo 95 (v 9) diz: “Diga às nações que o Senhor reinou na sua cruz”. Novamente, Cristo foi glorificado pela cruz porque nela realizou muitos milagres: o véu do templo se rasgou, ocorreu um terremoto, as rochas se partiram e o sol escureceu, e muitos santos surgiram, como afirma Mateus (27:51). Assim, com a sua paixão se aproximando, estas são as razões pelas quais nosso Senhor disse: agora o Filho do homem é glorificado. É como dizer: agora começa a minha paixão, a paixão que é a minha glória. O fruto desta glória é que Deus é glorificado por ela. Assim ele diz, e nele Deus é glorificado, isto é, no glorificado Filho do homem. Pois a glória da paixão leva à glória de Deus. Se Deus foi glorificado pela morte de Pedro – “Ele disse isto para mostrar com que morte iria glorificar a Deus” (21:19) – ele foi muito mais glorificado pela morte de Cristo. O autor desta glória não é um anjo ou um ser humano, mas o próprio Deus. Ele diz, se Deus é glorificado nele, isto é, se a sua glória é tão grande que Deus é glorificado por ela, ele não precisa ser glorificado por outro. Mas Deus também o glorificará em si mesmo, isto é, através de si mesmo: «Pai, glorifica-me» (17,5). O tempo para esta glória está se aproximando rapidamente, porque Deus o glorificará imediatamente, isto é, ele lhe dará a glória da cruz. “Pois a cruz, embora seja loucura para os gentios e para os que estão perdidos, ainda assim para nós que cremos, ela é a grande sabedoria de Deus e o poder de Deus” (1 Cor 1:18). A segunda glória de Cristo é a glória do seu poder judicial: “E então verão o Filho do homem vindo nas nuvens, com grande poder e glória” (Mc 13,26). Esta é a glória de que fala Agostinho. Com referência a isso, ele faz quatro coisas aqui: primeiro, menciona a glória do poder judicial de Cristo; em segundo lugar, mostra o mérito pelo qual o adquiriu; em terceiro lugar, ele expõe isso; em quarto lugar, ele mostra a fonte da glória de Cristo. Quanto ao primeiro, ele diz: Agora é glorificado o Filho do homem. Devemos notar que na Sagrada Escritura não se diz explicitamente que uma coisa significa outra, e a palavra para a coisa significativa também é usada para a coisa significada. Por exemplo, não lemos que “A rocha significava Cristo”; antes, diz: “E a Rocha era Cristo” (1 Coríntios 10:4). Na saída de Judas dos apóstolos temos uma espécie de imagem do julgamento futuro, quando os ímpios serão separados dos bons, e Cristo colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda (Mt 25,33). Visto que esta partida de Judas significou o julgamento futuro, logo depois disso nosso Senhor começou a falar da glória do seu poder judicial, dizendo: Agora é glorificado o Filho do homem; isto é, esta partida ou separação representa a glória que o Filho do homem terá no julgamento, onde nada do bem perecerá e nada do mal estará com eles. Ele não diz: “Agora é significada a glorificação do Filho do homem”, mas antes: Agora é glorificado o Filho do homem, de acordo com o costume das Escrituras acima mencionado. Agora, o mérito desta glorificação é que Deus seria glorificado nele. Pois Deus é glorificado por aqueles que procuram fazer a sua vontade, e não a sua. Cristo era assim: “Porque desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (6:38). E é por isso que nele Deus é glorificado. Ele amplia isso quando diz, se Deus é glorificado nele, isto é, se, fazendo a vontade de Deus, ele glorifica a Deus, então com razão Deus também o glorificará em si mesmo, para que a natureza humana assumida pelo Verbo eterno receba uma glória eterna. Assim, em si mesmo, isto é, na sua própria glória: «Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe concedeu o nome que está acima de todo nome» (Fl 2,9). Portanto, a glorificação pela qual Deus é glorificado em Cristo é o mérito em virtude do qual Cristo como homem é glorificado em si mesmo, isto é, na glória de Deus. Isso ocorrerá quando sua natureza humana, tendo sua fraqueza sido abandonada pela morte na cruz, receber a glória da imortalidade na ressurreição. Portanto, a própria ressurreição foi a fonte da qual esta glória começou. Assim, ele diz, e o glorificará imediatamente, na ressurreição, que virá rapidamente: “Levantar-me-ei cedo pela manhã” (Sl 108:2): e também: “Não permitirás que o teu Santo veja a corrupção” (Sl 16:10). A terceira glória de Cristo é a glória da sua ressurreição, sobre a qual lemos: “Fomos sepultados com ele na morte pelo batismo, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, também nós andemos em novidade de vida” (Rm 6:4). É em termos desta glória que Hilário explica esta passagem, e Agostinho também em parte. Deste aspecto, Cristo primeiro prediz esta sua glória, dizendo: Agora é glorificado o Filho do homem. Aqui ele está falando do futuro como se já tivesse acontecido, porque o que pensamos que acontecerá rapidamente consideramos como feito. Agora a glória da ressurreição estava muito próxima, e então ele diz: Agora o Filho do homem é glorificado, como se seu corpo, por sua união com a natureza divina, tivesse de certa forma adquirido a glória da divindade. Em segundo lugar, ele menciona a causa desta glória de forma bastante sutil. Como ele disse, na ressurreição a humanidade de Cristo foi glorificada pela sua união com a natureza divina; e havia uma pessoa, a da Palavra. Pois lemos: “Não deixarás a minha alma no Sheol; não permitirás que o teu santo”, que é o mais santo de todos, “veja a corrupção” (Sl 16:10). Tal glória é devida também a este ser humano, Cristo, na medida em que é Deus. Também nós teremos a glória da ressurreição na medida em que participarmos da divindade: «Aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também os vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que habita em vós» (Rm 8,11). Então ele diz que o Filho do homem, isto é, Cristo considerado em sua natureza humana, é glorificado pela sua ressurreição. E quem o glorificará? Ele diz: Deus também o glorificará em si mesmo, para que este ser humano, Cristo, que reina na glória que vem da glória de Deus, possa ele mesmo passar para a glória de Deus, isto é, possa permanecer inteiramente em Deus, como se fosse deificado pela forma como sua natureza humana é possuída. É como dizer: Uma lâmpada brilha porque um fogo arde intensamente dentro dela. Aquele que envia raios de brilho à natureza humana de Cristo é Deus; e assim a natureza humana de Cristo é glorificada pela glória de sua divindade, e a natureza humana de Cristo é trazida para a glória de sua divindade, não por ter sua natureza mudada, mas por uma participação na glória na medida em que este ser humano, Cristo, é adorado como Deus: "Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe conferiu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus todo joelho se dobre" (Filipenses 2:9). Assim ele diz, se Deus é glorificado nele, isto é, se é verdade que a glória da sua divindade transborda para a glória da sua humanidade, posteriormente Deus também o glorificará em si mesmo, dando-lhe uma parte da sua própria glória, assumindo-o naquela glória: “Toda língua confesse que o Senhor Jesus está na glória do Pai” (Fl 2,11). Assim, Cristo tem uma dupla glória. Um está em sua natureza humana, mas é derivado de sua divindade. A outra é a glória da sua divindade, na qual a sua natureza humana está de certa forma incorporada. Mas cada glória é diferente. A primeira glória mencionada teve início no tempo. Por esta razão ele fala disso como passado, dizendo, e nele Deus é, ou foi, glorificado, no dia da ressurreição. A outra glória é eterna, porque desde a eternidade a Palavra de Deus é Deus. E a natureza humana de Cristo, assumida nesta glória, será glorificada para sempre. E assim ele fala disso como no futuro: e o glorificará imediatamente, isto é, ele sempre o estabelecerá naquela glória para sempre. A quarta glória de Cristo é a glória de ser conhecido pela fé do povo. Orígenes tem esse tipo de glória em mente em sua exposição. Segundo ele, glória significa uma coisa na linguagem comum e outra coisa nas Escrituras. Na linguagem comum, a glória é o elogio feito por várias pessoas, ou o conhecimento claro de alguém acompanhado de elogios, como diz Ambrósio. Enquanto nas Escrituras, a glória indica que um sinal ou marca divina está sobre alguém. Lemos em Êxodo (40:34) que “A glória do Senhor apareceu sobre o tabernáculo”, isto é, um sinal divino repousou sobre ele. O mesmo aconteceu com o rosto de Moisés, quando foi glorificado. Assim como a glória, no sentido físico, indica que um sinal divino repousa sobre alguém, também, no sentido espiritual, diz-se que esse intelecto é glorificado quando é tão deificado e transcende todas as coisas materiais que é elevado ao conhecimento de Deus. É por isso que nos tornamos participantes da glória: “E todos nós, com o rosto descoberto, contemplando a glória do Senhor, somos transformados à sua semelhança, de um grau de glória para outro” (2 Cor 3:18). Portanto, se alguém que conhece a Deus é glorificado e feito participante da glória, é claro que Cristo, que conhece a Deus mais perfeitamente, visto que ele é o resplendor de toda a glória divina (Hb 1:30), e capaz de receber o esplendor de toda a glória divina, se, eu digo, é assim, então Cristo é perfeitamente glorificado. E todos os que conhecem a Deus devem isso a Cristo. Mas os homens ainda não perceberam que Cristo foi tão glorificado por este conhecimento e participação mais perfeitos na divindade. E assim, embora tenha sido glorificado em si mesmo, ainda não foi glorificado no conhecimento dos homens. Ele começou a ter a sua glória na sua paixão e ressurreição, quando os homens começaram a reconhecer o seu poder e divindade. Nosso Senhor, falando aqui desta glória, diz: Agora o Filho do homem é glorificado, isto é, agora, em sua natureza humana, ele está recebendo glória no conhecimento dos homens por causa de sua paixão que se aproxima. E nele Deus, o Pai, é glorificado. Pois o Filho não só se revela, mas também o Pai: “Eu manifestei o teu nome” (17:6). Conseqüentemente, não só o Filho é glorificado, mas também o Pai: “Ninguém conhece o Pai, exceto o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo” (Mt 11,27). Ele diz, nele, porque quem vê o Filho também vê o Pai (14:9). É característico de quem é maior devolver o que é maior. E assim acrescenta, se Deus é glorificado nele, isto é, se a glória de Deus Pai de alguma forma aumenta por causa da glória do Filho do homem, porque o Pai se torna mais conhecido, Deus também o glorificará em si mesmo, isto é, fará saber que Cristo Jesus está na sua glória. Isso não será adiado, pois ele o glorificará imediatamente. - Comentário sobre João
João 13:33
Acima, nosso Senhor falou da glória que adquiriria ao partir. Aqui, ele está dizendo a eles que os deixará. Primeiro, ele prediz a sua partida; em segundo lugar, ele mostra que os seus discípulos ainda não estavam aptos para segui-lo (v 33b); em terceiro lugar, ele mostra como eles podem se tornar aptos. Um novo mandamento eu lhes dou. Ele prediz brevemente sua próxima partida, dizendo: Filhinhos, ainda por um pouco estou convosco. Ele usa as palavras de um pai para com seus filhos ainda mais para inflamar seu amor; pois é quando os amigos estão prestes a se separar que eles brilham especialmente de amor: "Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim" (13,1). Ele diz, filhinhos, para mostrarem sua imperfeição, pois ainda não eram crianças perfeitas, porque ainda não amavam perfeitamente. Eles ainda não eram perfeitos na caridade: “Meus filhinhos, por quem estou novamente com dores de parto, até que Cristo seja informado em vocês” (Gl 4,19). Ainda assim, eles cresceram um pouco em perfeição, porque de escravos tornaram-se criancinhas, como ele os chama aqui, e irmãos: “Vão a meus irmãos e digam-lhes” (20:17). Devemos notar que a expressão, ainda um pouco, pode ser explicada de três maneiras, de acordo com as três maneiras pelas quais Cristo está presente aos seus discípulos. Cristo estava presente aos seus discípulos em corpo. Mas seu corpo pode ser considerado de duas maneiras. Primeiro, podemos vê-lo como tendo as características que pertencem à natureza humana, pois Cristo tinha um corpo mortal, assim como os outros. Então, um pouco de tempo é entendido como o tempo entre essas palavras e sua morte. Portanto, o sentido é: ainda um pouco de tempo estou convosco, isto é, resta um pouco de tempo até que eu seja levado e morra, e então ressuscitarei e serei imortal, mesmo em corpo: “Cristo, sendo ressuscitado dentre os mortos, nunca mais morrerá; a morte não tem mais domínio sobre ele” (Rm 6:9). Então Lucas (24:44) diz: “Estas são as minhas palavras que vos falei enquanto ainda estava convosco”. Em segundo lugar, ele estava com eles em corpo, mas num corpo que já estava glorificado. Depois, um pouco, indica o tempo que ocorreu até a sua ascensão: “Um pouco, e não me vereis mais; novamente um pouco, e me vereis, porque vou para o Pai” (16:16); “Mais uma vez, dentro de pouco tempo, farei tremer os céus, e a terra, e o mar, e a terra seca” (Ag 2:6). Em terceiro lugar, pode ser explicado como aplicável à presença espiritual de Cristo, à sua presença na sua divindade e nos sacramentos. Então, um pouco de tempo significa o tempo que ocorreria até o fim do mundo. Isto é um pouco em comparação com a eternidade: “Filhos, é a última hora” (1Jo 2,18). Então o significado é: ainda um pouco de tempo estou com vocês, isto é, embora eu vá deixá-los em corpo, ainda estou espiritualmente com vocês por um pouco de tempo que permanece antes do fim do mundo: "Estou sempre com vocês, até o fim dos tempos" (Mt 28,20). No entanto, esta explicação não é apropriada para a presença de Cristo na sua divindade, pois ele estará com eles não apenas até o fim do mundo, mas por toda a eternidade. Por esta razão, Orígenes explica de outra forma. Ele diz que Cristo está sempre com os perfeitos, que não pecam gravemente. Mas ele nem sempre está presente para os imperfeitos, porque quando eles pecam, ele se afasta deles. Agora, dentro de pouco tempo, os discípulos deixariam Cristo, se afastariam e o abandonariam: “Esta noite todos vocês se afastarão por minha causa” (Mt 26,31). E assim Cristo se retirou espiritualmente deles. Em referência a isso ele diz, ainda um pouco estou com você, isto é, daqui a pouco você irá embora e me abandonará, e então eu não estarei com você. Em seguida, ele menciona a incapacidade deles de segui-lo. Primeiro, ele nota o esforço deles, você me procurará, a quem abandonou espiritualmente por sua fuga e negações. Digo-vos que me procurareis com o vosso arrependimento, como fez Pedro, que chorou amargamente: «Buscai o Senhor enquanto se pode achar» (Is 55, 6); “Na sua angústia eles me procuram” (Os 5:15). Ou, você me procurará, isto é, você vai querer que eu esteja presente em corpo: “Vêm dias em que desejareis ver um dos dias do Filho do homem, e não o vereis” (Lc 17,22). Em segundo lugar, ele mostra a fraqueza deles, dizendo, como eu disse aos judeus, agora vos digo: para onde eu vou, vocês não podem ir. No entanto, isso foi dito de forma diferente para os dois. Alguns dos judeus nunca seriam convertidos. Foi a estes que foi dito absolutamente que não poderiam ir para onde Cristo estava indo. Mas agora que Judas se foi, nenhum dos discípulos restantes estaria separado de Cristo. E para eles ele não disse absolutamente, vocês não podem vir, mas acrescentou, agora eu lhes digo. É como dizer: eu disse aos judeus, isto é, aos obstinados entre eles, que eles nunca poderiam vir. Mas eu te digo que por enquanto você não pode me seguir, porque você não é suficientemente perfeito na caridade para querer morrer por mim. Pois vou deixar você morrendo. Mais uma vez vou para a glória de meu Pai, à qual ninguém pode chegar se não for perfeito na caridade. Além disso, serei glorificado agora, pois como lemos: “Agora é glorificado o Filho do homem”. Mas ainda não é o momento de os vossos corpos serem glorificados; então, para onde eu vou você não pode ir. - Comentário sobre João
João 13:34
Então, ele os ensina como podem se tornar aptos para segui-lo: um novo mandamento vos dou. Primeiro, ele menciona o caráter especial deste mandamento; segundo, ele mostra por que devem viver de acordo com ele (v 35). Quanto ao primeiro ele faz três coisas: primeiro, ele menciona um aspecto deste mandamento, segundo, seu significado; e terceiro, seu critério. O aspecto deste mandamento que ele enfatiza é sua novidade. Assim ele diz, um novo mandamento. Mas não tinha o Antigo Testamento ou a Lei um mandamento sobre o amor do próximo? Tinha, porque quando Cristo foi perguntado por um doutor da lei qual era o maior mandamento, ele respondeu: "Amarás o Senhor teu Deus," e continuou, "Amarás teu próximo como a ti mesmo" (Mt 22:37). Isto se encontra em Levítico: "Amarás teu próximo como a ti mesmo" (Lv 19:18). No entanto, há três razões especiais pelas quais este mandamento é dito ser novo. Primeiro, por causa da novidade, da renovação que produz: "Vos despojastes do homem velho com suas práticas e vos revestistes do homem novo, que se renova no conhecimento à imagem de seu criador" (Cl 3:9). Esta novidade é da caridade, da caridade para a qual Cristo nos exorta. Segundo, este mandamento é dito ser novo por causa da causa que produz esta renovação; e isto é um novo espírito. Há dois espíritos: o velho e o novo. O espírito velho é o espírito de escravidão; o novo é o espírito de amor. O primeiro produz escravos; o segundo, filhos por adoção: "Pois não recebestes o espírito de escravidão para voltardes ao medo, mas recebestes o espírito de filiação" (Rm 8:15); "Um coração novo vos darei, e um espírito novo porei no meio de vós" (Ez 36:26). O espírito nos enche de amor porque "o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo" (Rm 5:5). Terceiro, é um novo mandamento por causa do efeito que estabeleceu, isto é, uma Nova Aliança. A diferença entre a Nova e a Antiga Aliança é a entre amor e medo: como lemos em Jeremias (31:31): "Farei uma nova aliança com a casa de Israel." Sob a Antiga Aliança, este mandamento era observado por medo; sob a Nova Aliança é observado por amor. Portanto este mandamento estava na Lei Antiga, não como característica dela, mas como preparação para a Nova Lei. O significado do mandamento é o amor mútuo; assim ele diz: que vos ameis uns aos outros. É da própria natureza da amizade que não seja imperceptível; caso contrário, não seria amizade, mas meramente benevolência. Para uma verdadeira e firme amizade os amigos precisam de um amor mútuo um pelo outro; pois esta duplicação a torna verdadeira e firme. Nosso Senhor, querendo que houvesse perfeita amizade entre seus fiéis e discípulos, lhes deu este mandamento do amor mútuo: "Quem teme o Senhor direciona corretamente sua amizade" (Eclo 6:17). O critério para este amor mútuo é dado quando ele diz, como eu vos amei. Ora Cristo nos amou de três maneiras: gratuitamente, eficazmente e corretamente. Ele nos amou gratuitamente porque começou a nos amar e não esperou que começássemos a amá-lo: "Não que tenhamos amado a Deus, mas que Ele primeiro nos amou" (1 Jo 4:10). Da mesma maneira devemos amar primeiro nossos próximos e não esperar ser amados por eles ou que façam algo por nós. Cristo nos amou eficazmente, o que é óbvio pelo que fez; pois o amor se prova existir pelo que alguém faz. A maior coisa que uma pessoa pode fazer por um amigo é dar-se pelo amigo. Isto é o que Cristo fez: "Cristo nos amou e se entregou por nós" (Ef 5:2). Assim lemos: "Ninguém tem maior amor do que isto: dar a vida pelos seus amigos" (15:13). Devemos também ser levados por este exemplo e amar uns aos outros eficazmente e frutíferamente: "Não nos amemos em palavra ou em linguagem, mas em ato e em verdade" (1 Jo 3:18). Cristo também nos amou corretamente. Como toda amizade se baseia em algum tipo de partilha (pois a semelhança é causa de amor), aquela amizade é reta que se baseia em semelhança ou compartilhamento em algum bem. Ora Cristo nos amou como semelhantes a si mesmo pela graça da adoção, amando-nos à luz desta semelhança a fim de nos atrair para Deus. "Amei-vos com amor eterno; por isso vos continuo atraindo com benignidade" (Jr 31:3). Devemos também, naquele que amamos, amar o que pertence a Deus e não tanto o prazer ou os benefícios que o amado nos dá. Neste tipo de amor pelo próximo, até mesmo o amor de Deus está incluído. — Comentário sobre João
João 13:35
Então quando diz, Por isto todos conhecerão que sois meus discípulos, ele dá a razão para seguir este comando. Aqui devemos notar que quem está no exército de um rei deve trazer este emblema. O emblema de Cristo é o emblema da caridade. Assim qualquer um que queira estar no exército de Cristo deve ser marcado com o emblema da caridade. Isto é o que ele está dizendo aqui: Por isto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros. Quero dizer um amor sagrado: "Eu sou mãe do amor belo e do temor e do conhecimento e da esperança sagrada" (Sir 24:24). Embora os apóstolos tivessem recebido muitos dons de Cristo, tais como vida, inteligência e boa saúde, bem como bens espirituais, tais como a capacidade de fazer milagres - "Vos darei boca e sabedoria" (Lc 21:15) - nenhum destes é o emblema de um discípulo de Cristo, pois podem ser possuídos tanto pelos bons quanto pelos maus. Mas o sinal especial de um discípulo de Cristo é a caridade e o amor mútuo; "Ele marcou-nos com seu selo e nos deu seu Espírito" (2 Cor 1:22).
João 13:36
Acima, João mencionou a deserção de um dos discípulos, Judas, o traidor; aqui ele fala do fracasso de outro, Pedro, que negou a Cristo. Primeiro vemos a ocasião da predição de Cristo; em segundo lugar, a previsão da negação de Pedro. Ele faz duas coisas sobre a primeira: menciona o desejo de Pedro; em segundo lugar, a sua confiança: Por que não posso segui-lo agora? Ele faz duas coisas em relação à primeira: mostra Pedro expressando seu desejo; em segundo lugar, ele mostra que seu cumprimento será adiado, você não pode me seguir agora. O desejo de Pedro é demonstrado pela maneira rápida como questionou Cristo: Simão Pedro disse-lhe: Senhor, para onde vais? Pedro ouviu nosso Senhor dizer que estaria com eles apenas por um tempinho, e ficou ansioso com a possibilidade de Cristo os deixar. Então ele pergunta: Aonde você vai? Crisóstomo diz sobre isso: “O amor de Pedro era realmente grande e mais furioso do que um incêndio que nada poderia deter”. É por isso que, mesmo depois de Cristo ter dito: “Para onde eu vou, você não pode seguir”, Pedro ainda quis segui-lo. Então ele perguntou para onde estava indo, assim como lemos no Cântico dos Cânticos: "Para onde foi o teu amado, ó mais bela entre as mulheres? Para onde se voltou o teu amado, para que possamos procurá-lo contigo?" (6:1). No entanto, ele não pode agora ter o que deseja, pois no momento está impedido de seguir a Cristo. Para onde vou você não pode me seguir agora; mas você seguirá depois. Isto é como dizer: Você ainda é imperfeito e, portanto, não é capaz de me seguir agora; mas mais tarde, quando você for perfeito, você me seguirá. Isto é semelhante ao que leremos mais adiante: “Em verdade, em verdade te digo: quando eras jovem”, isto é, imperfeito, “tu cingiste-te... mas quando fores velho”, e tiveres subido a montanha da perfeição, “estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá” (21:18). - Comentário sobre João
João 13:37
Quando João diz, Pedro lhe disse, indica a confiança de Pedro. Pedro entendeu o que nosso Senhor acabara de dizer como uma expressão de alguma dúvida sobre a perfeição do amor de Pedro. O amor é perfeito quando alguém se expõe à morte por um amigo: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (15:13). E assim, porque Pedro estava pronto para morrer por Cristo, ele declarou que era perfeito em amor quando disse: Darei a minha vida por você, isto é, estou pronto para morrer por você. Ele realmente quis dizer isso e não estava fingindo. Ainda assim, não conhecemos a força do nosso próprio amor até que ele encontre algum obstáculo a ser superado: “Não tenho consciência de nada contra mim mesmo, mas não estou absolvido por isso” (1 Cor 4, 4). - Comentário sobre João
João 13:38
A seguir, João mostra Jesus prevendo a negação de Pedro. Primeiro, Jesus verifica a presunção de Pedro; em segundo lugar, ele prevê sua negação. Quanto ao primeiro, devemos notar que depois de Cristo ter dito que você não pode me seguir agora, Pedro estava confiante em sua própria força e disse que poderia seguir a Cristo e morrer por ele. Nosso Senhor o deteve dizendo: Você daria sua vida por mim? É como dizer: Pense no que você está dizendo. Eu conheço você melhor do que você mesmo; você não sabe quão forte é o seu próprio amor. Portanto, não presuma que você pode fazer tudo. “Portanto, não fique orgulhoso, mas tenha medo” (Romanos 11:20). Um pensamento semelhante é encontrado em Mateus (26:41): “O espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca”. Nosso Senhor permitiu que Pedro fosse tentado e caísse para que, quando se tornasse chefe da Igreja, tivesse uma opinião despretensiosa sobre si mesmo e tivesse compaixão pelos seus súditos quando pecavam: "Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas alguém que em todos os aspectos foi tentado como nós, mas sem pecar" (Hb 4:15). Em Pedro, algumas tentações transformaram-se em pecados. Mas Cristo foi tentado como nós, não porque cometeu pecado, mas porque as tentações eram de caráter penal. Cristo prediz a negação de Pedro quando diz: Em verdade, em verdade vos digo que o galo não cantará, até que me negues três vezes. Isto causa um problema, pois parece ser falso: pois em algumas versões de Marcos (14:68) lemos que o galo cantou imediatamente após a sua primeira negação. Agostinho responde a isso de duas maneiras. Na primeira maneira, ele diz que nosso Senhor estava expressando o estado de espírito de Pedro e não suas ações: pois tal medo havia dominado a alma de Pedro que ele estava pronto, no momento em que o galo cantou, a negar nosso Senhor não apenas uma, mas três vezes. Então o significado é: você estará pronto para me negar três vezes antes que o galo cante. Ele explica de outra forma, dizendo que a predição se refere ao início da negação de Pedro. Diz-se que algo acontece antes de outra coisa, mesmo que apenas comece a acontecer. Agora nosso Senhor previu três negações; eles começaram antes do primeiro canto do galo, embora a série inteira não tenha sido concluída antes dele. Aqui o significado é: sua tripla negação começará antes que o galo cante. Há também uma questão sobre onde essas palavras foram ditas. Mateus e Marcos dizem que nosso Senhor disse isso a Pedro depois que eles saíram do cenáculo; mas Lucas e João dizem que ele disse isso no cenáculo. É depois dos discursos de despedida que João faz Jesus dizer: “Levanta-te, vamos daqui” (abaixo de 14:31). Em resposta a isso, deveríamos dizer que é verdade que nosso Senhor disse isso no cenáculo. Mateus e Marcos não seguiram a ordem da história, mas da memória. Poderíamos também dizer, com Agostinho, que nosso Senhor disse isso três vezes. Uma inspeção minuciosa das palavras de nosso Senhor que o levaram a prever a negação de Pedro mostra que três coisas diferentes foram ditas. Em Mateus lemos que nosso Senhor disse: “Esta noite todos vocês se afastarão de mim” (Mt 26,31); e Marcos diz o mesmo (Mc 14,27). Pedro respondeu: “Ainda que todos se afastem por tua causa, eu nunca me afastarei” (Mt 26,33). Então Jesus disse: “Esta mesma noite, antes que o galo cante, três vezes me negarás” (Mt 26,34). Em Lucas, porém, lemos que Jesus disse: “Satanás exigiu possuir-vos, para vos peneirar como o trigo, mas eu orei por vós, para que a vossa fé não desfaleça” (Lc 22,31). Pedro então disse: “Senhor, estou pronto a ir contigo para a prisão e para a morte” (Lc 22,33). Nosso Senhor respondeu: “Eu te digo, Pedro, o galo não cantará hoje, até que você negue três vezes que me conhece” (Lc 22,34). Mas aqui, em João, quando Pedro perguntou a nosso Senhor para onde ele estava indo, nosso Senhor respondeu: “o galo não cantará, até que você me negue três vezes”. Podemos concluir disto que nosso Senhor previu várias vezes a negação de Pedro. - Comentário sobre João