Jó 13
Thomas Aquinas
Jó 13:1
Depois de Jó ter mostrado que a excelência do poder divino poderia ser conhecida pela experiência, ele conclui: “Eis que os meus olhos viram todas estas coisas e os meus ouvidos as ouviram”, como se dissesse: Conheço os efeitos descritos anteriormente que mostram a força e a sabedoria divinas, em parte pela visão e em parte pela audição. Nem meu conhecimento se baseou nesses efeitos sensíveis; mas deles ascendi ao entendimento da verdade, e assim ele diz: “e entendi cada um”, isto é, o que cada efeito demonstrou sobre Deus, ou sobre sua sabedoria, entendimento, conselho ou força. - Comentário sobre Jó
Jó 13:2
Assim, excluindo a ostentação deles, pela qual eles pareciam estar se colocando diante de Jó ao manifestar as grandes coisas de Deus, ele então diz: "Eu também sei da mesma maneira que você", aquelas coisas que pertencem à magnificência de Deus, "nem sou inferior a você", pois conheço menos ou imperfeitamente essas coisas ou as estava aprendendo apenas com você. - Comentário sobre Jó
Jó 13:3
Mas como Sophar propôs a excelência divina (11:6) como um argumento contra Jó por se comprometer a disputar com Deus, ele continua: “Mesmo assim, deixe-me falar com o Todo-Poderoso”, como se dissesse: Embora eu entenda, a partir de seus diversos efeitos, a excelência da sabedoria e do poder divinos não menos do que você, ainda não estou razoavelmente alterado por isso em minha proposição. Mas antes quero dirigir-me a Deus movido pela abertura do meu coração Àquele que é o buscador e juiz dos corações, e pela busca da verdade naquele que é o médico de toda a verdade. Então ele acrescenta: “e desejo disputar com ele”, não para desaprovar seus julgamentos, mas para destruir seus erros, segundo os quais se seguiria que haveria injustiça em Deus. - Comentário sobre Jó
Jó 13:4
Então ele continua: “Primeiro vou mostrar que vocês são criadores de mentiras”, porque eles inventaram a mentira de que Jó levou uma vida má. Eles chegaram a essa mentira porque se enganaram sobre a fé com que se adora a Deus, acreditando que a recompensa dos méritos e dos castigos só acontece nesta vida, e por isso ele diz: “e vocês são adoradores de dogmas perversos”. Pois quem se desvia do verdadeiro conhecimento de Deus não adora a Deus, mas com seus próprios falsos dogmas. Ao dizer: “primeiro eu lhe mostrarei”, não se deve entender como se primeiro, na ordem do ensino seguinte, ele fosse destruir suas doutrinas perversas e depois disputar com Deus; mas embora ele pretenda disputar com Deus primeiro, sua intenção é destruir suas doutrinas. - Comentário sobre Jó
Jó 13:5
Os homens muitas vezes propõem algumas coisas como passíveis de prova, embora sejam falsas; mas quando não sabem defendê-los ou prová-los de forma convincente, mostram a sua ignorância quando falam. Foi o que aconteceu com os amigos de Jó. Então ele diz: “Gostaria que vocês ficassem calados para que as pessoas pensassem que vocês são homens sábios”, porque o próprio fato de vocês defenderem e provarem falsos dogmas mostra inadequadamente que vocês são tolos. - Comentário sobre Jó
Jó 13:6
Então, já que você propõe dogmas falsos e usa meios inadequados para prová-los, você precisa de correção. Isto é o que ele conclui, dizendo então: “Ouçam, então, a minha correção”, pela qual corrigirei o seu processo de raciocínio, “e ouçam o julgamento dos meus lábios”, com os quais condenarei os seus falsos dogmas. - Comentário sobre Jó
Jó 13:7
Primeiro, ele pretende corrigir seu processo indevido de raciocínio, pois como haviam posto que as recompensas e punições das obras boas e más são retribuídas nesta vida presente, era necessário que usassem mentiras para defender a justiça de Deus. Porque é evidente que alguns homens inocentes e justos são oprimidos pelas adversidades nesta vida, era portanto necessário imputar crimes aos justos para defender a justiça de Deus. Assim, acusaram Jó de impiedade porque o viram aflito. Mas aquele que defende a verdade com mentiras usa meios inadequados, então ele diz: 'Pensam que Deus precisa da sua mentira?' como se dissesse: É necessário usar mentiras para defender a justiça divina? De fato, o que não pode ser defendido senão por mentiras impossível ser verdadeiro. Porém, quando alguém se esforça por mentir contra a verdade clara, ele é compelido a inventar algum meio astucioso e fraudulento para colorir sua mentira com fraude. Assim, quando estes homens também tentaram mentir contra a justiça de Jó que era clara a todos, usaram algumas enganos, a saber, apontaram para a fragilidade humana que cai facilmente em pecado e a compararam à excelência divina, para que se pudesse pensar que era mais provável que Jó fosse malvado do que que Deus fosse injusto. Assim, ele então diz: 'para que possam falar engano a respeito dele?' porque falavam com engano em nome de Deus quando tentavam enganosamente acusar Jó de impiedade para defender a justiça de Deus. — Comentário sobre Jó
Jó 13:8
Poderiam responder, contudo, que não disseram nada enganosamente contra Jó, mas somente o que pensavam. Jó portanto mostra que se isto fosse verdade, eles cairiam em outro vício embora houvessem sido excusados da decepção, a saber, o respeito às pessoas que exclui a justiça de um juiz. Respeito às pessoas consiste em alguém condenar ou negar a justiça de outro que é aparente por causa da grandeza da outra pessoa, embora não conheça sua justiça. Se, portanto, os amigos de Jó o julgavam ser mau, embora vissem claramente a justiça nele e o fizessem apenas pela consideração da grandeza divina, embora não pudessem compreender de acordo com seus próprios dogmas como Jó poderia ser punido por Deus justamente, é como se estivessem respeitando a pessoa de Deus no julgamento pelo qual condenaram Jó. Assim ele então diz: "Vós remontais a Deus e tentais de pedir uma razão a Deus?" Ele claramente diz isto porque alguém se esforça em justificar outro, que não conhece sua justiça, e contudo tenta inventar qualquer meio que possa para mostrar que sua causa é justa. — Comentário sobre Jó
Jó 13:9
Às vezes uma pessoa ao fraudulentamente defender a causa de outro o agrada apesar do fato de que ele é um homem justo. Isto pode acontecer de duas maneiras: de uma maneira porque ele é ignorante de que sua causa é injusta, e assim ele fica agradado que ele seja defendido por alguém, e isto ele exclui de Deus dizendo, "Ou lhe será agradável (a Deus)," que vós busqueis julgar injustamente em seu favor, ele não pode ser ignorante do caso e por isso ele diz, "de quem nada pode ser ocultado?" Isto pode acontecer de outra maneira quando o homem cuja causa é defendida por fraude é enganado pelas fraudes daquele que o defende, de forma que ele pense que sua defesa é justa. Ele exclui isto de Deus dizendo, "Ou é ele enganado como um homem por vossas práticas fraudulentas?" Portanto é claro que Deus não necessita de uma mentira para defender sua bondade e justiça porque a verdade pode ser defendida sem uma mentira. Portanto, é também evidente que se quando seus dogmas são aceitos, a conclusão inadequada se segue que a justiça de Deus necessita de uma mentira para sua defesa, então fica claro que seus ensinamentos propostos são falsos. — Comentário sobre Jó
Jó 13:10
Deve-se também considerar cuidadosamente que aquele que usa uma mentira para mostrar a justiça e a bondade de Deus não apenas faz algo que Deus não precisa, mas também ofende a Deus neste mesmo ato. Pois, visto que Deus é a verdade, e toda mentira é contrária à verdade, quem usa uma mentira para mostrar a magnificência de Deus age contra Deus por esse mesmo ato. O apóstolo Paulo diz isso muito claramente: “Fomos considerados falsas testemunhas de Deus, porque demos testemunho contra Deus de que Ele ressuscitou Cristo, que não ressuscitou, se os mortos não ressuscitaram”. (1 Cor. 15:15) Dizer então que Deus ressuscitou os mortos, se isso não for verdade, é contra Deus, embora possa parecer mostrar poder divino, porque é contra a verdade de Deus. Portanto, aqueles que usam uma mentira para defender Deus não apenas não recebem uma recompensa como se Lhe agradassem, mas também merecem punição como se estivessem agindo contra Deus, e assim ele continua: “Ele mesmo culpa você porque você secretamente tomou a parte Dele”. Ele diz, “secretamente” porque embora eles pareçam exteriormente assumir o papel de Deus, como se conhecessem a justiça de Deus, ainda assim em suas consciências eles não sabiam por que justiça Jó havia sido punido, e assim na parte oculta dos corações eles respeitaram a pessoa de Deus ao tentar defender falsamente sua justiça. - Comentário sobre Jó
Jó 13:11
Ele agora mostra como Deus os repreenderá dizendo, "Ele se levantará imediatamente e vos lançará em confusão," como se dissesse: Meramente porque não estais sofrendo adversidade, disputai sobre a justiça de Deus com uma mente tranquila. Mas se tribulação vos sobrevir (o que ele chama de Deus se levantando porque na Escritura o castigo é chamado a ira de Deus) vossas mentes serão lançadas em confusão, especialmente porque não está solidamente fundamentada na verdade. Como não pensavam que coisa alguma era boa ou má senão os bens temporais, quando evitavam pecados para que nenhum mal lhes sobreviesse, pareciam desejar servir a Deus apenas por causa do medo dos males presentes. Assim ele diz, "e seu terror vos precipitará," pois só temeis a Deus por causa do medo de experimentar o mal agora, e é justamente isto que vos acontecerá de acordo com Provérbios, "O que o homem injusto teme lhe virá." (Pv. 10:24) — Comentário sobre Jó
Jó 13:12
Porque eles haviam prometido em vão a Jó que mesmo após a morte ele viveria na memória dos homens (11:18), por sua vez ele lhes promete o contrário, como se zombasse deles, dizendo: “Sua memória será como cinza”. Pois assim como as cinzas permanecem pouco tempo após o consumo da madeira, a reputação do homem desaparece rapidamente após a morte. Portanto, é vão esperar fama após a morte. Eles também lhe prometeram imutabilidade e reverência por seu túmulo após a morte (11:19), mas isso também ele considera que não leva a nada e promete o contrário, dizendo: “seus pescoços serão lançados na lama”. Por seus pescoços ele se refere ao seu poder e dignidade que, segundo ele, serão jogados "na lama", isto é, em algo fraco e desprezível. - Comentário sobre Jó
Jó 13:13
Depois de Jó ter corrigido o processo de raciocínio dos amigos que procuravam defender a justiça divina com mentiras, ele agora passa a destruir os seus falsos dogmas sob a forma de um debate com Deus. Primeiro ele pede atenção, como se fosse dizer coisas importantes, dizendo: "Fique em silêncio um pouco, para que eu possa dizer tudo o que minha mente me sugere". Ele acrescenta isso porque talvez eles pudessem dizer: “Você diz coisas inúteis e por isso não deveria ser ouvido”. Mas ouvir o que alguém diz por um tempo não é pesado. Ou acrescenta esta frase para mostrar que não vai falar inventando mentiras ou inventando fraudes, mas sim o que tem em mente. - Comentário sobre Jó
Jó 13:14
Seus amigos acusaram Jó de duas coisas: impaciência e ostentação, (4:2 e 7), ambas as quais ele exclui de si mesmo para que, na disputa seguinte, ele não parecesse falar por raiva ou por orgulho. Observe que a impaciência vem de uma superabundância de tristeza não moderada pela razão, pois a tristeza leva ao desespero quando excessiva. Como resultado do desespero, um homem desconsidera a saúde do corpo e da alma. Então, para excluir a impaciência, ele diz: “Por que rasgo a minha carne com os dentes?” como se dissesse: Não há razão para que eu desespere da saúde do meu corpo por causa da impaciência, como aqueles que, desesperados pela vida corporal, devoram a própria carne quando são oprimidos pela fome. E também por que "devo carregar minha alma nas mãos?" pois não há razão para eu desconsiderar a salvação da minha alma. Pois o que um homem carrega nas mãos se perde facilmente e, portanto, parece que não temos muito medo de perdê-lo. Mas um homem esconde o que tem medo de perder. - Comentário sobre Jó
Jó 13:15
Ele então expõe a razão pela qual não deve rasgar sua carne pela impaciência nem levar sua alma nas mãos, dizendo: "Ainda que ele me matasse, eu teria esperança nele", dizendo em efeito: Você não crê por causa dos males temporais que sofro que deixei de esperar em Deus. Pois se minha esperança fosse em Deus somente por causa de bens temporais, eu seria levado ao desespero pois ele já disse: "Perdi a esperança." (7:16) Mas porque minha esperança é em Deus por causa de bens espirituais que permanecem após a morte, ainda que ele me afija até à morte, a esperança que tenho nele não terminará. Contudo, porque a esperança desordenada degenera em presunção, ele acrescenta: "contudo, vou repreender meus próprios caminhos diante dele", como se dissesse: Não tenho esperança nele porque creia que me libertará mesmo que eu persevere no pecado, mas porque creia que me libertará se eu renunciar aos meus pecados. — Comentário a Jó
Jó 13:16
Portanto, "ele será meu salvador", se meus pecados forem desagradáveis a mim. Ele mostra por que Deus salva aqueles que reprovam sua própria conduta em sua presença dizendo, "pois nenhum hipócrita virá a sua presença", pois é hipócrita quem embora seja injusto, contudo professa publicamente ser justo e não acusa sua conduta na presença de Deus. Portanto "ele não virá à presença de Deus", para ver a Deus em quem consiste a salvação última do homem, algo que Jó explicará depois com maior extensão (4:13 e 19:25). Ele ainda virá à sua presença para ser julgado por ele. Assim ele não apenas excluiu a impaciência de si mesmo, mas também a presunção de inocência, quando confessa publicamente que repova sua conduta na presença de Deus de modo que nisto toda calúnia de seus amigos chegue ao fim. — Comentário sobre Jó
Jó 13:17
Então, enquanto está prestes a entrar em um debate, ele primeiro prepara seus ouvintes atentos de duas formas: de uma forma, envolvendo o que dirá com certa mistério, pois se declaramos que o que será dito é difícil, nossos ouvintes estariam mais atentos. Assim ele diz, "Ouça meu discurso e compreenda meu enigma com vossos ouvidos." Um enigma é um discurso obscuro, que apresenta uma coisa na superfície e significa algo diferente internamente. — Comentário sobre Jó
Jó 13:18
De outro modo ele os torna atentos assegurando-lhes a verdade daquilo que está prestes a dizer, e assim diz: "Se sou julgado, sei que serei achado justo," o que certamente não diz sobre sua própria inocência, uma vez que já disse, "Culparei minha própria conduta diante dele." (v.15) Mas diz isto sobre a verdade da doutrina sobre a qual estavam disputando como se em um julgamento. Aquele é achado justo em um julgamento em cujo favor a sentença é proferida. Assim, quando alguém em debate é mostrado estar falando a verdade, é achado justo como se em um julgamento. — Comentário sobre Jó
Jó 13:19
Após tornar seus ouvintes atentos, determina a maneira de sua disputa. Pois ele quer disputar na forma de um debate. Expressa isto dizendo, "Quem litigará comigo?" isto é, com quem posso debater sobre a verdade? "Que venha," isto é, que venha adiante para disputar! Então declara a razão pela qual pretende disputar sobre a verdade, dizendo, "Por que sou gasto em permanecer silencioso?" Pois o homem é gasto pouco a pouco no curso desta vida presente, especialmente quando foi submetido a enfermidade como Jó. Ele é gasto em silêncio quando passa assim esta vida presente de modo que ainda não deixa nenhum traço de sua sabedoria por seu ensino. Para evitar sofrer este destino então, Jó havia decidido não ficar silencioso sobre a verdade para que pudesse viver além da morte em seu ensino, embora consumido em seu corpo. Pode haver também outra explicação. De fato, quando alguém exprime externamente uma dor que sofre em seu coração, sua alma está de certa forma pacificada, enquanto em permanecer silencioso, sua dor torna-se mais aguda interiormente e de certa forma é consumido por seu próprio silêncio. — Comentário sobre Jó
Jó 13:20
Visto que portanto ele procurou alguém para discutir com ele, dizendo, "Quem entrará em juízo comigo?" e como já tinha dito, "Desejo disputar com Deus," (v.3) de agora em diante ele fala como se estivesse na presença de Deus e estivesse disputando com Ele. Mas para um homem disputar com Deus não parece conveniente por causa da excelência pela qual Deus excede o homem. Contudo, deve-se considerar que a verdade não muda por causa da diferença de pessoas e assim quando alguém fala a verdade, ele não pode ser convencido do contrário não importa com quem ele argumente. Agora Jó estava certo de que estava falando a verdade inspirada por Deus por meio do dom da fé e da sabedoria. Assim, embora confiasse na verdade, ele pede que a força divina não o derrubasse, nem através dos males que suportava presentemente, nem através do medo de outros a serem infligidos. Ele diz isto, "Poupa-me apenas em duas coisas, então não me esconderei de tua face," como se dissesse: Não terei medo de disputar contigo. Pois quando alguém tem medo, ele costuma se esconder da vista daqueles a quem teme. — Comentário sobre Jó
Jó 13:21
Ele mostra essas duas coisas quando diz: “Mantenha sua mão longe de mim”, isto é, não me açoite com os flagelos do presente. "E não deixe seu poder me aterrorizar", com punições futuras. Pois um homem pode ser impedido destas duas maneiras de defender até mesmo a verdade que ele conhece com certeza em uma disputa: quando ele é molestado no corpo ou perturbado pelo medo ou por alguma outra paixão na alma. - Comentário sobre Jó
Jó 13:22
Agora uma disputa é entre duas pessoas: a saber, aquela que faz objeções e aquela que as responde. Assim, ao entrar em uma disputa com Deus, ele lhe dá a opção de escolher que papel ele quer assumir: aquele que faz objeções ou aquele que responde. Ele portanto diz, "Chame-me e eu responderei", dizendo em efeito: Você objete e eu responderei. "Ou pelo menos permita-me falar", levantando objeções, "e você responderá a mim". Ele diz isto figurativamente para mostrar que está preparado para ambos, quer para defender a verdade que professa, quer para refutar o que poderia ser dito contra a verdade. — Comentário sobre Jó
Jó 13:23
Primeiro, ele oferece a Deus o papel da parte contrária, dizendo: "Mostre-me quais grandes crimes, pecados, ações perversas e falhas eu cometi." Aqui devemos considerar que os amigos de Jó pareciam argumentar contra Jó, como se estivessem assumindo o papel de Deus, de acordo com o que já foi dito: “Você assume o papel de Deus para tentar julgar por Deus?” (v.8) Agora os amigos de Jó usaram o argumento contra ele de que ele havia sido punido por seus pecados. Ele, portanto, pede que Deus use essa objeção contra ele, dizendo: "Mostre-me quais grandes iniquidades, pecados, ações perversas e falhas eu tenho", dizendo com efeito: Se então você me aflige por meus pecados, como meus amigos acusam falsamente de tentar falar por você, peço-lhe que me mostre por quais pecados você me aflige tão gravemente. Portanto, ele não diz “que males eu tenho”, mas “que grandes”, porque se não há outra razão para as aflições atuais além dos pecados dos homens, como é a opinião dos amigos de Jó, esses pecados devem ser os mais graves que são punidos com as mais graves aflições. Alguns pecados são pecados cometidos contra os preceitos negativos da lei. Existem outros pecados de omissão pelos quais se negligencia os preceitos afirmativos da lei. Alguém faz algo contra um preceito da lei de três maneiras: de uma maneira, quando prejudica seu próximo, como roubo, assassinato e coisas desse tipo que são apropriadamente chamadas de “maldade” porque são contrárias à equidade da justiça que diz respeito ao outro. De outra forma, um homem peca contra si mesmo por uma desordem de seu próprio ato, como aparece especialmente nos pecados da gula e da luxúria, e estes são chamados de “pecados”, como certas desordens do homem. Numa terceira forma, peca-se diretamente contra Deus em atos como blasfêmia e sacrilégio. Estes são chamados de “crimes” devido à sua gravidade. As omissões são propriamente chamadas de “inadimplências”. - Comentário sobre Jó
Jó 13:24
Depois, como se aquele a quem havia dado o papel de opositor guardasse silêncio, o próprio Jó assume o papel de objetor e questiona sobre as causas de seu castigo. Primeiro, visto que alguém poderia objetar que Deus o puniu como seu inimigo, ele rejeita isto dizendo, "Por que escondes tua face e me tens como teu inimigo?" Pois parece mau que alguém considere outro como inimigo sem prova. Mas a única causa adequada para hostilidade é uma ofensa. Assim é evidente que Deus tem um homem como inimigo quando seus pecados são claros. Mas Jó havia pedido a Ele que lhe mostrasse seus pecados, e eles não lhe foram mostrados. Então não havia razão aparente pela qual Deus fosse desfavorável a ele. Ele insinua isto quando diz, "Por que escondes tua face?" como se odiasse Jó secretamente por um motivo oculto. Pois a face de um homem que odeia é descoberta quando não esconde a razão de seu ódio. — Comentário sobre Jó
Jó 13:25
Segundo, porque alguém poderia objetar que Deus o puniu a fim de mostrar seu poder, ele rejeita esta causa dizendo, "Você mostra seu poder contra a folha que é levada pelo vento?" Pois não é conveniente que um homem muito poderoso deseje mostrar seu poder contra algo muito fraco. A condição humana é comparada a uma folha, que é levada pelo vento, porque o próprio homem é frágil e fraco como uma folha que cai facilmente, e apesar da passagem do tempo e da variedade da fortuna, ele é levado como uma folha pelo vento. Assim não parece conveniente dizer que Deus castiga o homem somente para mostrar seu poder no caso do homem. — Comentário sobre Jó
Jó 13:26
Terceiro, já que alguém poderia objetar que Deus o puniu porque dos pecados que cometeu em sua juventude, ele também rejeita isto dizendo: "Rasgas um talo seco? Escreves coisas amargas contra mim, e desejas consumir-me pelos pecados de minha juventude?" Pois um homem em sua juventude é comparado à grama verde, mas em sua velhice é comparado a um talo seco. Parece que punir um homem em sua velhice pelos pecados de sua juventude é como alguém deveria agir violentamente contra um talo por não ser grama verde. Mas devemos notar neste exame que ele não desvia desta opinião de que as adversidades do homem são causadas pelo julgamento divino, e para indicar isto ele diz: "Escreves coisas amargas contra mim", como se coisas amargas, isto é, as adversidades do homem resultassem da escrita da sentença divina. — Comentário sobre Jó
Jó 13:27-28
Quarto, alguém poderia objetar que, embora Jó não tivesse cometido pecados graves, havia ainda cometido alguns pecados que são inevitáveis nesta vida presente, e assim é punido por esses desta maneira. Ele também rejeita isso dizendo, "Vós colocastes meu pé em grilhões; e observastes todos os meus caminhos, e considerastes os rastros de minhas pegadas, eu que sou consumido como algo apodrecido e como uma veste comida pela traça?" Aqui devemos considerar que aqueles que são colocados em grilhões de prisão são tão presos que não podem se soltar. Assim como o pé de um homem é preso em grilhões, assim o proceder do homem é preso pela lei da justiça divina da qual ele não pode se desviar. É por isso que ele diz, "Vós colocastes meu pé em grilhões?" A justiça divina avalia os atos dos homens, não apenas quanto ao que cada um faz, mas também quanto que espírito e com qual fim, e assim ele diz, "e observastes todos os meus caminhos," isto é, meus atos, "e considerastes os rastros de minhas pegadas," quanto à boa vontade do agente e também todas as circunstâncias do ato. Parece irrazoável que Deus tivesse tal grande cuidado pelos atos humanos se eles desaparecem completamente na morte do corpo, uma morte que às vezes é natural e às vezes é violenta. Então para ambos ele acrescenta, "Eu que sou consumido como algo apodrecido," expressando morte natural, "e como uma veste comida pela traça," expressando morte violenta, dizendo em efeito: Se como meus amigos supõem não há outra vida senão a presente que o homem perde seja pela putrefação seja pela derrubada, parece irrazoável que Deus fosse preocupado com tal grande rigor sobre atos humanos que pune o homem até mesmo pelos menores pecados e negligência. — Comentário sobre Jó