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Hebreus 11

Thomas Aquinas

Hebreus 11:1

551. – Acima, o Apóstolo mostrou a superioridade de Cristo de muitas formas ao preferi-lo aos anjos, a Moisés e a Arão, e aconselhou os fiéis a se unirem a Cristo. Já que esta união consiste principalmente na fé e começa com fé: 'Para que Cristo habite nos vossos corações pela fé' (Ef. 3:17), o Apóstolo procede a recomendar esta fé e faz três coisas: primeiro ele descreve a fé; segundo, ele dá vários exemplos dela (v. 2); terceiro, ele os exorta às coisas que pertencem à fé (cap. 12). 552. – Ele dá uma definição de fé que é completa mas obscura. Daí, deve-se notar que em tentando definir perfeitamente qualquer virtude, deve-se mencionar sua matéria própria com a qual ela lida, e seu fim; porque hábitos são reconhecidos por seus atos, e atos por seus objetos. Portanto, é necessário mencionar o ato e sua ordem para seu objeto e fim. Assim, a definição de coragem deve mencionar sua matéria própria com a qual ela lida, a saber, medos e agressões, e seu fim, que é o bem da república. Agora, já que a fé é uma virtude teológica, seu objeto e fim são os mesmos, a saber, Deus. Primeiro, ele menciona sua ordem ao fim; segundo, sua matéria própria (v. 1b). 553. – Mas deve-se notar que o ato da fé é crer, porque é um ato do intelecto estreitado a uma coisa pelo mandamento da vontade. Daí, crer é cogitar com assentimento, como Agostinho diz em A Predestinação dos Santos. Portanto, o objeto da fé e da vontade devem coincidir. Mas o objeto da fé é a primeira verdade, na qual consiste o fim da vontade, a saber, felicidade. Mas está presente de uma forma na terra, e de outra no céu, porque na terra a primeira verdade não é possuída e, consequentemente, não é vista: pois no que diz respeito às coisas que estão acima da alma, possuir e ver são a mesma coisa, como Agostinho diz no Livro de 83 Questões. Daí, são apenas esperadas: 'Mas a esperança que se vê não é esperança. Pois o que um homem vê, por que ainda espera?' (Rm. 8:24). Portanto, a primeira verdade, não vista mas esperada, é o fim da vontade na terra e, consequentemente, é o objeto da fé, porque seu fim e objeto são os mesmos. Mas o fim último da fé no céu, que tendemos por fé, é felicidade, que consiste na visão clara de Deus: 'Esta é a vida eterna: conhecer-te, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem enviaste' (Jo. 17:3). Mas tal é a esperança dos crentes: 'Ele nos regenerou para uma esperança viva' (1 Pt. 1:3). O fim, portanto, da fé na terra é a obtenção da coisa esperada, a saber, da felicidade eterna; daí, ele diz, das coisas esperadas. 554. – Mas surge uma questão: já que a fé é anterior à esperança, por que é definida em termos de esperança? Pois é costume definir a posterior pela anterior, e não vice-versa. Respondo que a resposta deveria ser óbvia do que foi dito, a saber, que o objeto e fim da fé são os mesmos. Portanto, já que a obtenção das coisas esperadas é seu fim, deve também ser seu objeto. Pois foi declarado acima que um hábito deve ser definido pela ordem de seu ato para seu objeto. Mas o verdadeiro e o bom, ainda que quando considerados em si mesmos sejam conversíveis no que diz respeito a seus supostos, diferem em conceção. Daí, eles se relacionam um com o outro de forma diversa, porque o verdadeiro é um bem e um bem é verdadeiro. De maneira semelhante, o intelecto e a vontade, que se distinguem sobre a base da distinção entre o verdadeiro e o bom, têm uma relação diversa um com o outro. Pois enquanto o intelecto apreende a verdade e qualquer coisa nela contida, o verdadeiro é um bem; daí, o bem está sob o verdadeiro: mas enquanto a vontade move, o verdadeiro está sob o bem. Portanto, na ordem de conhecer, o intelecto é anterior; mas na ordem de mover, a vontade é anterior. Portanto, porque o intelecto é movido ao ato de fé pelo mandamento da vontade, na ordem de mover, a vontade é anterior. Portanto, o anterior não está sendo definido em termos do posterior, porque, como foi dito, na definição da fé, a ordem do ato para seu objeto, que é o mesmo que o fim, deve ser mencionada. Mas o fim e o bem são os mesmos, como diz em Fís. II. Mas na ordem para o bem, a vontade, que é o sujeito de esperança, é anterior. 555. – Mas por que não dizer, 'das coisas a serem amadas,' em vez de das coisas a serem esperadas? A razão é porque a caridade diz respeito às coisas que estão presentes ou ausentes. Portanto, porque o fim não possuído é o objeto da fé, ele diz, das coisas a serem esperadas. Nem faz qualquer diferença que a coisa a ser esperada seja também o objeto da esperança, porque é necessário que a fé seja ordenada a um fim, que coincide com o objeto daquelas virtudes pelas quais a vontade é feita perfeita; já que a fé pertence à vontade conforme movida pelo intelecto. 556. – Mas já que a fé é uma virtude, porque é chamada um hábito (pois seu objeto é um), por que não dizer 'da coisa a ser esperada,' em vez de coisas a serem esperadas? Respondo que a felicidade, que é essencialmente uma coisa em si mesma, porque consiste na visão de Deus, é o princípio e raiz da qual muitas coisas boas nela contidas são derivadas: por exemplo, as características do corpo, companhia dos santos, e muitas outras coisas boas. Portanto, a fim de mostrar que tudo isto pertence à fé, ele fala no plural. 557. – A palavra, substância, que aparece na definição, pode ser explicada de várias formas: de uma forma, causalmente, e então tem dois sentidos: um qual é substância, isto é, fazendo as coisas esperadas estarem presentes em nós. Isto faz de duas formas: de uma forma, por merecimento, como que; pois do fato de que uma pessoa torna seu intelecto cativo e submisso às coisas da fé, ela merece algum dia ver as coisas que espera: pois a visão é a recompensa da fé. De outra forma, como que por sua propriedade, trazendo isto a passar que o que é acreditado realmente estar no futuro, seja de alguma forma já possuído, desde que alguém acredite em Deus. De outra forma, podemos explicar a palavra, substância, essencialmente, como se a fé fosse a substância, isto é, a essência das coisas a serem esperadas. Daí, em grego é definida como 'a hypostasis das coisas a serem esperadas.' Pois a essência da felicidade não é nada menos que a visão de Deus: 'Esta é a vida eterna: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem enviaste' (Jo. 17:3). Daí, no livro, Sobre a Trindade. Agostinho diz: 'Esta contemplação é prometida a nós; o fim de todas as ações.' Portanto, a visão plena de Deus é a essência da felicidade. Vemos isto também nas ciências liberais, que, se uma pessoa deseja aprendê-las, ela deve primeiro aceitar seus princípios, que deve acreditar quando lhe são entregues pelo professor. Pois um aprendiz deve acreditar, como é declarado em 1 Analíticos Posteriores. E naqueles princípios toda a ciência está de alguma forma contida, como conclusões estão contidas em seus princípios, e um efeito em sua causa. Portanto, aquele que tem os princípios de uma ciência, digamos geometria, tem sua substância. E se a geometria fosse a substância da felicidade, uma pessoa que possuísse os princípios de geometria teria, de certa forma, a substância da felicidade. Mas nossa fé consiste em acreditar que os bem-aventurados verão e desfrutarão de Deus. Portanto, se desejamos alcançar esse estado, é necessário que acreditemos nos princípios daquele conhecimento. E esses princípios são os artigos da fé, que contêm o sumário daquele conhecimento, porque a visão do Deus triúno nos torna felizes. E isto é um artigo; daí acreditamos nisto. Consequentemente, ele diz, a certeza [substância] das coisas a serem esperadas: 'Agora vemos através de um espelho, de forma obscura; mas então face a face' (1 Co. 13:12). Como se dizer: seremos felizes quando vermos face a face aquilo que agora vemos num espelho e de forma obscura. Nessas palavras é mostrada a relação do ato da fé com seu fim, porque a fé é ordenada às coisas a serem esperadas, sendo, como que, um princípio no qual o todo está, como que, virtualmente contido, como conclusões em princípios. 558. – Então quando ele diz, a convicção [evidência] das coisas que não aparecem, ele toca no ato da fé no que diz respeito a sua matéria própria. Mas o ato próprio da fé, ainda que esteja em relação à vontade, como foi dito, está nevertheless no intelecto, como em um sujeito, porque seu objeto é o verdadeiro, que propriamente pertence ao intelecto. Mas há uma diferença entre os atos do intelecto: pois alguns são hábitos do intelecto que implicam certeza completa e compreensão perfeita daquilo que é compreendido, como é claro no hábito da inteligência, que é o hábito dos primeiros princípios, porque aquele que compreende que todo todo é maior que sua parte vê isto e tem certeza. Mas o hábito da ciência também faz isto: assim os hábitos da inteligência e da ciência produzem certeza e visão. Mas há outros que não geram nenhum, a saber, dúvida e opinião. Mas a fé está no meio entre estes: porque, como foi dito, a fé produz assentimento no intelecto que pode ser causado de duas formas: de uma forma, porque o intelecto é movido a assentir porque da evidência do objeto que é per se conhecível, como no hábito dos princípios, ou conhecido através de outra coisa, que é per se conhecível, como na ciência da astronomia. De outra forma, ele assente a algo não porque da evidência do objeto, pelo qual não é suficientemente movido (daí não é certo), mas ele ou duvida, a saber, quando não há mais evidência para um lado que para o outro; ou opina, se tem razão para um lado, mas sem satisfazer o intelecto, de forma que há medo no que diz respeito ao lado oposto. Mas a fé não sugere absolutamente nenhum destes: porque não há evidência, como há em inteligência e ciência, nem há dúvida, como em dúvida e opinião; mas ela se fixa em um lado com certeza e adesão firme por uma escolha voluntária. Mas esta escolha repousa na autoridade de Deus, e por ela o intelecto é fixado, de forma que ele adere firmemente às coisas da fé e assente a elas com a maior certeza. Portanto, acreditar é conhecer com assentimento. Portanto, a matéria própria do hábito da fé são coisas que não aparecem. Pois aparência tem conhecimento, mas não fé, como Gregório diz. Mas o ato da fé é adesão certa, que o Apóstolo chama evidência, tomando a causa para o efeito, porque evidência produz fé sobre uma matéria duvidosa. Pois evidência é a razão de acreditar uma coisa duvidada. Ou se seguirmos a etimologia da palavra, evidência (argumento), que significa arguir a mente, então ele está tomando o efeito para a causa, porque a mente é compelida a assentir por causa da certeza da coisa. Daí, é chamada a evidência de coisas que não aparecem, isto é, uma apreensão segura e certa de coisas que não vê. Agora, se alguém reduzisse aquelas palavras à sua forma correta, ele poderia dizer que fé é um hábito da mente pelo qual a vida eterna é iniciada em nós e faz o intelecto assentir às coisas que não vê. Portanto, é óbvio que o Apóstolo definiu a fé completamente, mas não claramente. 559. – Por aquela definição, a fé é distinguida de todos os outros hábitos do intelecto. Pois pelo fato de que é chamada evidência, a fé é distinguida de opinião, dúvida e suspeita, porque estes três não causam o intelecto aderir a algo firmemente. Pelas palavras, das coisas a serem esperadas, ela é distinguida da fé ordinária que não é ordenada à felicidade. Pois por definição própria uma coisa é tornada conhecida e distinguida de tudo mais, como neste caso; daí, todos os outros são reduzidos a ela. 560. – Mas parece incorreto dizer, das coisas que não aparecem, como diz em Jo (20:26): 'Tomás viu e acreditou.' Além disso, acreditamos que há um Deus, um fato que é demonstrado por filósofos. Respondo que a fé é tomada em dois sentidos: no sentido próprio, ela diz respeito às coisas não vistas e não conhecidas, como está claro do acima. Mas enquanto não pode haver maior certeza de uma conclusão que do princípio do qual é tirada, porque princípios são sempre mais certos que as conclusões, segue que já que os princípios da fé não são evidentes, nem são suas conclusões. Daí, o intelecto não assente às conclusões como a coisas conhecidas ou vistas. Mas tomado em sentido geral, ele exclui todo conhecimento que é certo; aquele é o sentido no qual é tomado por Agostinho nas Questões do Evangelho, quando ele diz que a fé diz respeito a coisas que são vistas. Mas o Apóstolo está falando no primeiro sentido. Além disso, deve-se dizer de Tomás que, como Gregório diz, ele viu uma coisa e acreditou em outra: pois viu a humanidade e acreditou na divindade. À objeção baseada em demonstração, a resposta é que nada proíbe uma coisa ser vista por uma pessoa e acreditada por outra, como é óbvio em diversos estados. Pois o que não é visto na terra é visto pelos anjos. Portanto, o que eu acredito, um anjo vê. Igualmente, o que é visto pelos profetas, por exemplo, que Deus é um e incorpóreo, deve ser acreditado pelos iletrados; assim como uma pessoa iletrada acredita em um eclipse que um astrônomo vê. Contudo, em tais matérias a fé é tomada em sentido diferente. Mas há algumas coisas que absolutamente transcendem o estado da vida presente; e no que diz respeito a estas há fé no sentido estrito. — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:2

561. – Tendo dada uma descrição, o Apóstolo agora a esclarece com um exemplo. Com respeito a isto faz duas coisas: primeiro, manifesta sua tese em geral; em segundo lugar, em detalhe (v. 2). 562. – Com respeito ao primeiro diz: Assim, portanto, descrevo e ordeno a fé, e isto não é coisa nova: pois por isto, isto é, pela fé, os homens antigos, isto é, os santos pais, obtiveram aprovação divina, isto é, creram, e foram preparados pela fé: "Abraão creu em Deus e isso lhe foi atribuído como justiça" (Gn 15:6): "Credi, por isso falei" (Sl 115:10). Mas entre todos os pais do Antigo Testamento dois especialmente, nomeadamente, Davi e Abraão, têm o testemunho da fé. — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:3

563. – Então (v. 3) ele esclarece sua tese em detalhe com exemplos dos antigos: primeiro, quanto ao que acreditavam e ensinavam; segundamente, quanto ao que fizeram (v. 4); terceiramente, quanto ao que sofreram (v. 35b). 564. – Ora, a doutrina do Antigo Testamento era dupla: uma era claramente dada; a outra estava escondida sob o véu de figuras e mistérios. A primeira dizia respeito à unidade de Deus e à criação do mundo; a segunda ao mistério da encarnação e reparação. Daí, assim como observavam o Sábado em memória da criação, assim nós observamos o Domingo em memória da ressurreição. Quanto à doutrina da criação do mundo ele diz: Pela fé compreendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus. Isto pode ser lido de duas maneiras: de uma forma de modo que pela palavra de Deus está no caso ablativo. Então o sentido é nós, como os antigos, pela fé, isto é, pela doutrina da fé, a saber, do Antigo Testamento: 'Deus disse: Faça-se a luz; e a luz se fez' (Gn 1:3); 'Ele falou e tudo se fez' (Sl 32:9), compreendemos que o universo foi criado, isto é, arranjado, pela palavra de Deus, isto é, pelo comando de Deus. Mas pertence à fé que compreendamos isto, porque, visto que a fé diz respeito a coisas não vistas, também o mundo foi feito de coisas invisíveis, a saber, da matéria prima, que, quando nua e desprovida de toda forma, é invisível e carece de toda forma e disposição. Daí, ele diz, de modo que o que se vê foi feito do que não aparece. Na segunda forma, de modo que palavra está no caso dativo. Então o sentido é: Compreendemos pela fé, como antes, que o universo foi formado, isto é, adequado e correspondido à palavra, para que das coisas invisíveis fossem feitas as coisas visíveis. Aqui deve notar-se que a palavra de Deus é o próprio conceito de Deus, pelo qual Ele se compreende a si mesmo e todas as coisas. Mas Deus é comparado à criatura como o artífice ao artefato. Mas notamos que um artífice produz o que produz fora de si em uma semelhança de seu conceito; daí faz uma casa na matéria à semelhança da casa formada em sua mente. Mas se a casa externa está em conformidade com a casa preconcebida, é uma obra apropriadamente arranjada; se não, não. Mas porque todas as criaturas são arranjadas da melhor forma, como produzidas por um Artífice em Quem nenhum erro ou defeito pode ocorrer, todas estão em conformidade, de forma plena, com o conceito divino segundo seu modo. Daí Boécio na Consolação diz: 'O mais belo ao trazer à existência um mundo belo forma-o à semelhança e imagem sua'. Portanto, ele diz, compreendemos pela fé que o universo, isto é, todo o conjunto de criaturas, foi formado, isto é, apropriadamente correspondido, à palavra, isto é, ao conceito de Deus como os artefatos correspondem a sua arte: 'E derramou-a', isto é, Sua sabedoria, 'sobre todas as suas obras' (Eclo 1:10). 565. – Ele continua: para que das coisas invisíveis se fizessem as coisas visíveis. Mas porque a noção comum entre os antigos era que a alma era produzida do nada (2 Física), quando viram uma obra nova, disseram que era feita de coisas invisíveis. Daí, ou supunham que tudo estava em tudo o mais, como Empédocles e Anaxágoras, dos quais nada diremos no presente; ou pensavam que as formas estavam ocultas, como Anaxágoras. Ainda outros supunham que eram formadas de ideias, como Platão; e outros de uma mente, como Avicena. Daí, segundo todos esses filósofos, as coisas visíveis foram feitas das razões ideais invisíveis. Mas nós dizemos, segundo a maneira acima dita, que as coisas visíveis foram produzidas de razões ideais invisíveis na Palavra de Deus, pela Qual todas as coisas foram feitas. Essas razões, ainda que sejam a mesma realidade, diferem em aspecto por diversas relações conotadas com respeito à criatura. Daí, o homem foi criado por uma razão, e um cavalo por outra razão, como Santo Agostinho diz no Livro de 83 Questões. Assim, pois, o universo foi formado pela palavra de Deus, para que das razões ideais invisíveis na Palavra de Deus, as coisas visíveis, isto é, toda criatura, fosse feita. 566. – Mas todas essas palavras são expressamente contra os Maniqueístas, que dizem que não é importante o que um homem acredita, mas o que ele faz. Mas o Apóstolo estabelece a fé como o princípio de toda obra; daí ele diz que ela é a substância, isto é, o fundamento. Portanto, sem fé, as obras são realizadas em vão. Além disso, dizem que se deve acreditar apenas nas coisas pelas quais se tem uma razão. Contra isto ele diz: de coisas que não aparecem. Novamente, condenam o Antigo Testamento, dizendo que foi formado por um princípio maligno, a saber, o diabo. Contra isto ele diz que nesta fé os antigos obtiveram um testemunho. — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:4

567. – Então (v. 4) ele mostra o que os antigos pais fizeram: primeiro, ele mostra isto dos pais que viveram antes do dilúvio; segundo, dos que viveram antes da Lei (v. 8); terceiro, dos que viveram sob a Lei (v. 24). Antes do dilúvio havia três especialmente agradáveis a Deus, a saber, Abel (Gn 4:4), Enoque (Gn 5:22) e Noé (Gn 6:9). Primeiro, ele menciona a fé de Abel; segundo, a de Enoque (v. 5); terceiro, a de Noé (v. 7). 568. – No que diz respeito a Abel ele mostra o que fez pela fé e o que obteve. Pela fé Abel ofereceu a Deus um sacrifício; portanto, assim como a confissão testemunha a fé dentro, assim de seu sacrifício externo, sua fé é louvada por causa de sua adoração externa em sacrifício. Sua fé escolhida é mostrada por sua oferta de um sacrifício escolhido, pois era dos primogênitos de seu rebanho, e de sua gordura. Pois o melhor sacrifício era um sinal de sua fé escolhida e aprovada: 'Maldito o homem enganador que tem em seu rebanho um macho, e fazendo voto, oferece em sacrifício o que é fraco ao Senhor' (Ml 1:14). Nenhuma menção é feita da excelência do sacrifício de Caim, mas apenas que o ofereceu do fruto da terra. Ele diz que Abel ofereceu a Deus um sacrifício mais aceitável do que o de Caim, isto é, ofereceu um sacrifício melhor que o de Caim a Deus, porque era oferecido para a honra de Deus. De outra maneira não teria sido agradável a Deus. Uma Glosa diz: Por uma fé excelente, mas isto não se encontra no grego. A menos que se diga, por uma fé excelente, isto é, uma melhor e mais excelente do que a de Caim, porque, como foi dito, o sacrifício externo era um sinal da fé dentro. 569. – Mas duas coisas se seguem à fé: uma nesta terra, a saber, uma testemunha de justiça; daí ele diz, por isto recebeu aprovação como justo, a saber, pela fé: 'Do sangue de Abel, o justo' (Mt 23:35). Mas não é por causa do testemunho de Cristo que ele diz, Abel obteve aprovação como justo, porque pretende introduzir apenas a autoridade do Antigo Testamento, mas por causa do que é dito em Gênesis (4:4): 'O Senhor teve respeito por Abel, e por sua oferta,' porque Deus tem respeito especialmente aos justos: 'Os olhos do Senhor estão sobre os justos' (Sl 33:16). E isto pelo Senhor dando testemunho aceitando seus dons, o que talvez tenha acontecido porque seus dons foram inflamados por um fogo celeste. E este foi o respeito do Senhor. No entanto, Ele tinha respeito primeiro àquele oferecendo do que à sua oferta, porque uma oferta que não é sacramental é aceita por causa da bondade de quem a oferece; pois a malvadez do ministro não altera a bondade sacramental. Mas quanto àquele oferecendo, a bondade é necessária, se o sacrifício lhe há de aproveitar. O outro ele obteve após a morte; portanto, ele diz, morreu, mas pela sua fé ainda está falando, pois como uma Glosa diz: Sua fé ainda é louvada após a morte, porque nos dá material para falar dele. Assim damos exemplos de fé e paciência, quando exortamos outros à penitência. Mas este não é o propósito do Apóstolo, porque todas as coisas que ele usa aqui ele tira das Escrituras. Daí, o que é dito em Gênesis (4:10) é entendido dele: 'A voz do sangue de teu irmão clama a mim da terra;' 'Que fala melhor que a de Abel' (Hb 12:24). Pois ele obtém por ela, isto é, pelo mérito da fé, que sendo morto, isto é, o sangue do morto Abel, clama a Deus e fala a Deus. — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:5

570. – Então quando ele diz, pela fé Enoque foi levado, ele elogia Enoque: primeiro, ele declara sua intenção; em segundo lugar, ele prova isso (v. 5b). 571. – O Apóstolo não faz menção às suas obras, porque a Escritura pouco diz dele, mas apenas mostra o que Deus lhe fez, porque pela fé, isto é, pelo mérito da fé, ele foi elevado da vida presente, e guardado da morte em outra; portanto, ele diz que não deveria ver a morte: 'Ele não foi mais visto, porque Deus o levou' (Gn 5:24). E é verdade que ele ainda não estava morto, mas morrerá algum dia, porque a sentença que o Senhor impôs aos nossos primeiros pais por seus pecados: 'No dia em que dele comerdes, morrereis' (Gn 2:17), continuará a todos os que nasceram de Adão de qualquer forma, como até no caso de Cristo: 'Quem é o homem que viverá e não verá a morte?' (Sl. 88:49). Mas a morte de duas pessoas, a saber, Enoque e Elias, foi adiada, a razão é que a doutrina do Antigo Testamento está ordenada às promessas do Novo Testamento, nas quais a esperança da vida eterna nos é prometida: 'Fazei penitência, porque o reino de Deus está próximo (Mt. 4:17). Portanto, depois de pronunciada a sentença de morte, o Senhor quis conduzir os homens à esperança de vida. Ele fez isso no caso dos pais de todos os estados, a saber, da natureza, da Lei e da graça. Conseqüentemente, no primeiro estado, Ele ofereceu a esperança de escapar da morte no caso de Enoque; na Lei em Elias; no tempo da graça em Cristo, por quem o efeito desta promessa nos é dado. Portanto, os outros morrerão. Mas Cristo, ressuscitando dos mortos, não morre mais. Mas os dois primeiros serão mortos pelo Anticristo. Assim, portanto, ele foi levado a não ver a morte, e não apenas a não sentir a morte; e isso naquela geração. 572. – Depois (v. 5b) prova que o obteve pelo mérito da fé: primeiro, prova que foi elevado; segundo, que ele obteve isso pelo mérito da fé (v. 5c). 573. – Ele prova o primeiro com base na autoridade de Gênesis (5:24), que é apresentado em outras palavras, porque ali diz que ele não foi mais visto, porque Deus o levou, mas aqui não foi encontrado, porque Deus o havia levado. Mas o sentido é o mesmo: 'Ele agradou a Deus e foi amado, e vivendo entre os pecadores foi elevado' (Sb 4:10). Pois assim como convinha que o homem fosse expulso do paraíso por causa do pecado, assim também convinha que o justo fosse introduzido nele. Pois por Sete ele foi o sétimo e melhor descendente de Adão, assim como Lameque por Caim foi o sétimo e pior descendente de Adão, sendo o primeiro que, contrariamente à natureza, introduziu a bigamia. 574. – Depois (v. 5b) ele prova que foi elevado pelo mérito da fé, porque a Escritura diz dele antes de ser elevado que ‘ele andou com Deus’ (Gn 5,24), o que é consentir em Deus e agradá-Lo. Mas Deus o levou por esse motivo; pois sem fé é impossível andar com Deus e agradá-Lo, portanto, etc. Ele dá toda a razão quanto às premissas: e primeiro a maior, porque antes de ser levado foi atestado como tendo agradado a Deus. Portanto, Deus o traduziu. 'Enoque agradou a Deus e foi trasladado ao paraíso, para que pudesse dar arrependimento às nações' (Sir. 44:16). Mas o fato de ele ter agradado a Deus é demonstrado pelas Escrituras, que dizem que ele andou com Deus: 'Ele andou comigo em paz e em equidade' (Mal. 2:6); 'O homem que andou no caminho perfeito, ele me serviu' (Sl. 100:6). - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:6

575. – Expõe a premissa menor, dizendo: E sem fé é impossível agradar a Deus: "A fé é agradável a ele" (Eclo 1:34); "Porque temos por justificado o homem pela fé" (Rm 3:28). Prova a premissa menor quando diz: Quem quiser aproximar-se de Deus é necessário que creia que ele existe. Mas ninguém pode agradar a Deus sem vir para ele: "Aproximai-vos de Deus, e ele se aproximará de vós" (Tg 4:8); "Chegai-vos para ele e sereis iluminados" (Sl 33:5). Mas ninguém se aproxima de Deus senão pela fé, porque a fé é uma luz do intelecto. Portanto, ninguém pode agradar a Deus senão pela fé. Mas qualquer um que se aproxime pela fé deve crer no Senhor. Pois assim como vemos que em todo movimento natural o objeto móvel deve tender para duas coisas em seu movimento para que o movimento não seja vão, a saber, para um termo definido e para uma certa causa pela qual é movido (mas o termo é alcançado antes de o efeito do movimento ser alcançado), assim também no movimento pelo qual alguém se aproxima de Deus, o termo do movimento é o próprio Deus. Daí ele diz: Quem quiser aproximar-se de Deus é necessário que creia que ele existe. Ele diz isto por causa de Sua eternidade: "Aquele que é me enviou" (Ex 3:14). Segundo, que saiba que Deus exerce providência sobre as coisas. Pois de outro modo ninguém iria para Ele, se não tivesse esperança de recompensa dele; daí ele diz: e aos que o procuram concede recompensa: "Eis que vem o Senhor Deus com poder... E seu galardão é com ele" (Is 40:10). Mas uma recompensa é aquilo que o homem busca por seu trabalho: "Chamai os operários e dai-lhes seu salário" (Mt 20:8). Esta recompensa não é menor que o próprio Deus, porque o homem não deve buscar nada fora dele: "Eu sou teu protetor e teu galardão extraordinário" (Gn 15:1). Pois Deus nada dá senão a si mesmo: "O Senhor é minha porção, disse minha alma" (Lm 3:24). Ele diz, portanto: e aos que o procuram concede recompensa, o que não é diferente de Sl 104 (v. 4): "Procurai o Senhor e ser-vos-á dado força: procurai incessantemente seu rosto.' 576. – Mas são estes dois suficientes para a salvação? Respondo que depois do pecado de nossos primeiros pais, ninguém pode ser salvo da dívida do pecado original senão pela fé no Mediador: mas essa fé varia quanto ao modo de crer conforme as épocas e estados diferentes. Mas nós a quem tal benefício foi mostrado devemos crer mais explicitamente que aqueles que existiam antes do tempo de Cristo. Naquele tempo alguns criam mais explicitamente, como os maiores padres e alguns para os quais foi feita uma revelação especial. Além disso, os que estavam sob a Lei criam mais explicitamente que aqueles antes da Lei, porque lhes foram dados certos sacramentos pelos quais Cristo era representado como por uma figura. Mas para os Gentios que foram salvos era suficiente se criam que Deus é remunerador; e essa recompensa é recebida somente através de Cristo. Daí criam implicitamente num mediador. 577. – Mas uma objeção é levantada contra a afirmação de que é necessário crer que Deus existe, porque foi afirmado acima que algo que se crê não é visto ou conhecido. Mas a existência de Deus é demonstrada. Respondo que o conhecimento de Deus pode ser tido de várias maneiras: de uma maneira através de Cristo, enquanto Deus é o Pai de um Filho unigênito e consubstancial, e outras coisas que Cristo especificamente ensinou sobre Deus Pai e o Filho e o Espírito Santo quanto à unidade de essência e trindade de pessoas. Tudo isto foi crido, mas no Antigo Testamento foi crido apenas pelos maiores padres. De outra forma, que somente Deus deve ser adorado; assim criam os judeus. De uma terceira forma, que existe um Deus: e isto era conhecido até pelos filósofos e não cai sob a fé. — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:7

578. – Depois (v. 7) ele mostra o que Noé fez pela fé e o que obteve como resultado: e foi instituído herdeiro da justiça que é pela fé. Ele menciona cinco coisas que ele fez: primeiro, que ele creu nas palavras de Deus sobre o juízo vindouro, mas que ainda não era visto. Daí, ele diz, Pela fé, Noé, sendo advertido por Deus sobre acontecimentos ainda não vistos, creu. Segundamente, ele foi movido a temer pela fé, porque a fé é o princípio do temor: 'O temor de Deus é o princípio de seu amor; e o princípio da fé é estar firmemente ligado a ele' (Sir. 25:16). Daí, ele diz, movido por temor, a saber, do dilúvio prometido, que, entretanto, não era visto. Portanto, a fé diz respeito a coisas invisíveis. Terceiramente, ele cumpriu o mandamento de Deus construindo a arca; daí, ele diz, construiu uma arca, isto é, fez o que era apropriado conforme o arranjo de Deus. Quartamente, ele esperava salvação de Deus, daí ele diz, para a salvação de sua casa, isto é, sua família, porque somente eles foram salvos: 'em que um pequeno número, isto é, oito almas, foram salvas pela água' (1 Pt 3:20). Quintamente, visto que ele fez tudo o que precede por causa da fé, ele condenou o mundo, isto é, mostrou que as pessoas do mundo merecem condenação. Mas a revelação que recebeu sobre a construção da arca foi uma resposta ao seu desejo e da justiça que é pela fé. 579. – Depois quando ele diz, e foi instituído herdeiro da justiça que é pela fé, ele mostra o que obteve pela fé. Pois assim como após a morte de alguém outra pessoa herda sua herança, assim também, porque a justiça não havia inteiramente morrido no mundo, porque o mundo ainda continuava, mas no dilúvio quase o mundo inteiro pereceu, portanto, Noé foi feito herdeiro, por assim dizer, por causa de sua fé. Ou da justiça que é obtida pela fé. Ou, assim como seus pais foram justificados pela fé, assim ele foi feito herdeiro da justiça pela fé, a saber, um imitador da justiça de seus pais pela fé. — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:8

580. – Tendo dado um exemplo de fé dos pais que existiram antes do dilúvio, isto é, aqueles que foram os pais tanto dos gentios como dos judeus; o Apóstolo agora trata especificamente dos pais que existiram após o dilúvio, a saber, os pais dos judeus. Em primeiro lugar, ele dá o exemplo da fé de Abraão, que foi o pai dos crentes; portanto, foi o primeiro a receber o selo da fé antes da Lei. Primeiro, ele mostra o que Abraão fez; em segundo lugar, o que Isaque fez (v. 20); em terceiro lugar, o que Jacó fez (v. 21); em quarto lugar, o que José fez (v. 22). O primeiro é dividido em duas partes: na primeira ele mostra o que fez com respeito ao conhecimento externo e humano; em segundo lugar, o que fez com respeito a Deus (v. 17). Com respeito ao primeiro ele faz três coisas: primeiro, mostra o que fez com respeito ao seu lugar de moradia; em segundo lugar, o que fez com respeito à geração (v. 11); em terceiro lugar, o que fez com respeito à sua própria conversão (v. 13). Com respeito ao lugar de moradia ele faz duas coisas: primeiro, o que fez com respeito à sua primeira mudança de localização; em segundo lugar, com respeito à sua outra mudança (v. 9). 581. – A fim de mostrar quão grande é a autoridade de seu exemplo de Abraão, ele menciona a fama de seu nome, dizendo, ele que é chamado Abraão, por Deus: 'Serás chamado Abraão' (Gn. 17:5). Ele também é chamado pelos homens: 'Abraão foi o grande pai de uma multidão de nações' (Sir. 44:20). Portanto, tal um chamado por Deus e pregado pelos homens é um exemplo digno. Em segundo lugar, ele dá o exemplo, dizendo, pela fé Abraão obedeceu. Pois pela fé somos habilitados a crer em Deus a respeito de coisas invisíveis: 'Pela obediência da fé' (Rm. 1:5); Quando foi chamado a ir a um lugar que havia de receber por herança: 'Sai da tua terra e da tua parentela, e da casa de teu pai, à terra que te mostrarei' (Gn. 12:1). Mas o Senhor havia de dar-lhe aquela terra por herança: 'Toda a terra que vês, dar-te-ei a ti' (Gn. 13:15). 582. – Mas não saiu ele de sua própria terra juntamente com seu pai, Taré? Portanto, ele não saiu por causa do mandamento de Deus, mas do seu pai. Respondo que ele saiu com seu pai com a intenção de retornar novamente, mas em resposta ao mandamento do Senhor ele foi para a Mesopotâmia na Síria onde pretendia permanecer após a morte de seu pai. Mas em resposta ao mandamento do Senhor ele foi à terra de Canaã. Mas foi isto tão maravilhoso que ele teve de ter fé a respeito e crer em Deus? Sim, porque partiu, não sabendo para onde ia. Mas o que é desconhecido é invisível. Pela obediência de Abraão somos instruídos a sair de toda afeição carnal, se quisermos obter nossa herança: 'Esquece teu povo e a casa de teu pai' (Sl. 44:11); 'O olho não viu, ó Deus, além de ti, as coisas que tens preparado para os que te esperam' (Is. 64:4). Portanto, aquela herança é desconhecida para nós. — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:9

583. – Então (v. 9) ele mostra o que ele fez pela fé com relação ao seu lugar de moradia: primeiramente, o que ele fez; em segundo lugar, a razão (v. 10). 584. – Pois às vezes notamos uma pessoa deixando sua terra natal e indo para outro lugar para fazer uma casa permanente. Mas não assim Abraão, pois ele viveu como estrangeiro na terra de Canaã e habitou ali como forasteiro. Isto é óbvio pelo fato de que ele não construiu uma casa ali, mas viveu em choupanas e tendas, que são habitações transportáveis; portanto, menção é sempre feita de tendas quando se fala de Abraão. Portanto, ele viveu ali como forasteiro por causa do mandamento do Senhor: 'E ele não lhe deu herança nela; nem mesmo o espaço de um pé' (At 7:5); 'Ele foi peregrino na terra dos filisteus muitos dias' (Gn 21:34). Isto é verdadeiro quanto ao que o Senhor lhe estava para dar gratuitamente, mas não quanto ao que ele comprou. Portanto, ele diz: 'pela fé, ele peregrinou na terra prometida, como fica claro de Gênesis (12 a 21), como numa terra estranha; que é óbvio por sua vivência em tendas. Que ele não tinha intenção de retornar a sua terra natal, mesmo se tivesse vivido mais, é mostrado pelo fato de que ele viveu com Isaque e Jacó não ao mesmo tempo, mas sucessivamente. Estes eram filhos da promessa, porque a promessa lhes foi feita (Gn 17 e 28). Ele diz: 'coerdeiros com ele da mesma promessa', em que nos é dado a entender que devemos viver no mundo como forasteiros e peregrinos: 'E aqueles que usam este mundo, como se não o usassem' (1 Co 7:31); 'Pois não temos aqui uma cidade permanente, mas procuramos aquela que está acima' (Hb 13:14). — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:10

585. – Então, quando diz que ansiava pela cidade que tem alicerces, mostra por que ali permaneceu como estrangeiro, ou seja, porque não se considerava ter nada na terra, mas procurava uma cidade celestial como sua herança: 'Nossos pés estavam sobre os teus átrios, ó Jerusalém. Jerusalém, que foi construída como cidade” (Salmo 121:2); 'teus olhos que vêem Jerusalém, uma rica habitação, um tabernáculo que não pode ser removido' (Is. 33:20). É chamada cidade, antes de tudo, pela unidade dos cidadãos, unidade essa que é a verdadeira paz: 'Louvai ao Senhor, ó Jerusalém, louvai o vosso Deus, ó Sião' (Sl 147,12) e no v. O teu povo assentar-se-á na beleza da paz, e no tabernáculo da confiança, e no rico descanso” (Is. 23:18); Para que eles sejam um, como nós também somos um” (João 17:22). Em segundo lugar, é ordenado, porque existe para a justiça e não para fazer o mal. Mas a justiça perpétua existe: 'E o nome da cidade desde aquele dia é: O Senhor está aqui' (Ez 48:35). Em terceiro lugar, era suficiente para si mesmo em todas as coisas que são necessárias, pois tudo o que é necessário estará lá perfeitamente, porque é um estado aperfeiçoado pela reunião de todas as coisas boas: 'Jerusalém, que é construída como uma cidade, que é compacta' (Sl 121:3). 586. – Esta cidade tem fundamentos, nos quais é significada a estabilidade: 'Um tabernáculo que não pode ser removido' (Is. 33,20). Mas as fundações são a primeira parte de um edifício; portanto, os anjos são os alicerces de uma cidade: 'Os alicerces, portanto, estão nos montes santos' (Sl 86:20); pois os homens serão elevados às ordens dos anjos. 587. – O fundador desta cidade é Deus, não a sabedoria da arte humana: 'Sabemos, se a nossa casa terrena desta habitação se desfizer, que temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna nos céus' (2 Cor. 5:1). Ora, duas coisas são necessárias para a construção de uma cidade: a primeira é a autoridade do príncipe, por meio de quem ela é firmada e que é chamada de seu fundador, e de quem leva o nome, como Roma de Rômulo. E assim Deus é chamado de fundador daquela cidade: 'Na cidade do nosso Deus: Deus a fundou para sempre' (Sl 47:9). A segunda é a forma como é montado, o que enaltece a sabedoria do artesão. E assim Deus é chamado de seu artesão, porque foi montado de acordo com a disposição e sabedoria de Deus: 'Grande é o Senhor e mui louvável na cidade de Deus, no seu santo monte' (Sl 47:2). Pelo bom arranjo de uma obra elogia o trabalhador. Mas a sabedoria divina nunca será tão resplandecente como ali; e, portanto, é extremamente louvável. - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:11

588. – Depois, quando diz que pela fé a própria Sara recebeu poder para conceber, mostra o que sua esposa obteve pela fé. A respeito disso ele faz duas coisas: primeiro, mostra o que ela obteve; em segundo lugar, o que ela obteve dos filhos (v. 12). 589. – Mas havia dois defeitos em sua esposa que faziam parecer quase impossível que ela pudesse conceber: um era que ela era estéril: 'E Sara era estéril' (Gn 11,30). A outra era que, devido à sua idade, ela não era naturalmente adequada para ter filhos: 'Havia deixado de ser com Sara segundo o costume das mulheres' (Gn 18:11). Mas o Apóstolo toca nestes dois defeitos: primeiro, quando diz, ser estéril; em segundo lugar, quando ele diz, mesmo quando ela já tinha passado da idade. No entanto, apesar de tudo isso, ela recebeu o poder de conceber pela fé, nomeadamente, a sua própria ou a de Abraão, porque embora fosse impossível, segundo a natureza, que uma mulher de noventa anos concebesse um homem de noventa, no entanto, ambos acreditaram em Deus, para Quem nada é difícil. Por isso, diz ele, já que ela considerou fiel aquele que havia prometido. 590. – Mas, pelo contrário, parece que Abraão não acreditou, porque em Gênesis (17,17) ele perguntou: 'Acaso, pensas, nascerá um filho ao que tem cem anos? E Sara, que tem noventa anos, dará à luz?' Novamente, em relação a Sara, é afirmado em Gênesis (18:12): 'Ela riu secretamente, dizendo: 'Depois que eu for velho, e meu senhor for velho, devo me entregar ao prazer?' Respondo que, em relação a Abraão, seu riso não foi devido à dúvida, mas à admiração: 'Ele não cambaleou pela desconfiança; mas foi fortalecido na fé, dando glória a Deus. Sabendo perfeitamente que tudo o que prometeu, ele também é capaz de cumprir” (Romanos 4:20). Conseqüentemente, seu riso não é reprovado por Deus, que conhece o coração de todos. Mas Sara a princípio duvidou na primeira promessa, mas quando o anjo se referiu ao poder de Deus, quando disse: 'Há algo difícil para Deus?' (Gênesis 18:14), ela então acreditou; e esta foi, por assim dizer, uma segunda promessa. Portanto, ele diz que voltou a prometer, porque quando Ele prometeu pela primeira vez, ela não acreditou, mas apenas quando Ele voltou a prometer. 591. – Mas deve-se notar que todas as concepções milagrosas que ocorreram no Antigo Testamento foram uma figura daquele maior dos milagres que ocorreu na encarnação. Pois era necessário que o Seu nascimento da Virgem fosse prefigurado por certas coisas, para preparar as almas para acreditar. Mas não poderia ser prefigurado por algo igual, porque uma figura necessariamente fica aquém do que é prefigurado. Portanto, a Escritura mostra o nascimento virginal pelo nascimento de mulheres estéreis, a saber, Sara, Ana e Isabel. Mas há uma diferença: porque Sara recebeu de Deus o poder de conceber milagrosamente, mas de semente humana; mas na Santíssima Virgem Ele até preparou aquela matéria puríssima do seu sangue, e junto com isso, o poder do Espírito Santo estava ali no lugar da semente. Pois o Verbo se fez carne não de semente humana, mas por uma espiração mística. - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:12

592. – Então, quando ele diz, por qual causa surgiu até mesmo de um homem, ele mostra o que ela obteve em seus filhos pelo poder de Deus, a saber, uma multiplicação de semente no mérito da fé, de um, a saber, Abraão, eles nasceram: 'Só o chamei, e o abençoei, e o multipliquei' (Is. 51:2). Em segundo lugar, a sua condição deveria ser considerada, porque ele estava praticamente morto; pois ele já era velho, como foi dito acima. Mas, por outro lado, porque Sara estava morta, ele gerou filhos com outra esposa, como é afirmado em Gênesis (25:2). Portanto, é incorreto descrevê-lo como morto. Respondo que um velho pode muito bem produzir de uma jovem, mas não de uma velha. Conseqüentemente, seu poder de produzir estava morto em relação a Sara, mas não em relação aos outros. Ou, pode-se dizer que de um se refere ao ventre de Sara já praticamente morto: 'Nem ao ventre morto de Sara' (Romanos 4:19); 'Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, que vos deu à luz' (Is. 51:2). Terceiro, a diferença entre aqueles que procedem de Abraão deve ser considerada. Pois, como é afirmado em Romanos (9:6): 'Assim como alguns que são da semente de Abraão não são israelitas, assim também nem todos os que são da semente de Abraão são filhos; mas aqueles que são filhos da promessa são contabilizados como descendência.' Portanto, sua descendência é dividida em dois ramos, os bons e os maus. Os bons são representados pelas estrelas, das quais ele diz que surgiram em número como as estrelas do céu: 'As estrelas iluminaram seus relógios e se alegraram' (Bar. 3:34). Mas os ímpios são representados pelas areias da praia, porque os ímpios judeus da semente de Abraão são conformados aos gentios. Mas a areia é em toda parte fustigada pelas ondas do mar, e os ímpios pelos ventos do mundo: “Os ímpios são como o mar revolto” (Is. 57:20). Mas os judeus não eram totalmente areia, mas como a areia, porque partilhavam a sua maldade com os gentios: “Estabeleci à areia um limite para o mar” (Jr 5:22). Novamente, a areia é estéril e infrutífera; assim também os ímpios são estéreis de todo trabalho de bons frutos. Conseqüentemente, diz ele, eles surgiram como inúmeros grãos de areia à beira-mar. A figura é uma hipérbole. Ou é descrito como inumerável, não porque não possa ser contado, mas porque não pode ser contado facilmente: “Multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia que está à beira do mar” (Gn 22:17). - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:13

593. – Depois de elogiar a fé de Abraão na sua morada e na sua descendência, o Apóstolo agora o elogia no seu caminho de vida até à morte. A respeito disso ele faz três coisas: primeiro, mostra o que fez pela fé; em segundo lugar, ele menciona uma coisa que diz respeito à fé (v. 14); em terceiro lugar, ele mostra o que recebeu pela fé (v. 16). 594. – Ele recomenda a fé de Abraão e de seus filhos pela sua perseverança, porque preservaram a fé até a morte: 'Aquele que perseverar até o fim, será salvo' (Mt. 24,13). Portanto, ele diz: Todos estes morreram na fé, exceto Enoque. Ou, todos estes, a saber, Abraão, Isaque e Jacó. E isto é melhor, porque a promessa foi feita apenas a eles. Além disso, ele os elogia pela longa demora da promessa; portanto, diz ele, não tendo recebido o que foi prometido. 595. – Mas por outro lado, parece que receberam a promessa: 'Abraão era um e mereceu a terra' (Ez 33,24). Respondo que ele possuía, isto é, foi o primeiro a receber a promessa de possuir; no entanto, ele realmente não possuía, como é evidente em Atos (7:5). Ele continua, tendo-o visto e saudado de longe pela fé. Como se dissesse: Olhando com a visão da fé. Talvez a resposta no primeiro domingo do Advento seja tirada desta passagem: 'Eis que de longe, eis que vejo o poder de Deus chegando, e uma nuvem cobrindo toda a terra;' 'Eis que o nome do Senhor vem de longe' (Is. 30:27). E saudando-o, isto é, venerando. Ele fala, segundo Crisóstomo, como os marinheiros, que ao avistarem o porto pela primeira vez, elogiam e saudam a cidade que alcançaram. Assim, os santos padres, vendo pela fé o Cristo que viria e a glória que deveriam obter através dele, saudaram-no, isto é, veneraram-no: 'Bem-aventurado aquele que vem em nome do Senhor. Ele é Deus e brilhou sobre nós” (Sl 117:26); 'Abraão, teu pai, alegrou-se por ver o meu dia: ele viu e alegrou-se' (João 8:56). 596. – Elogia também a sua fé pela sua confissão sincera, porque, como diz em Romanos (10,10): 'Com o coração cremos até à justiça; mas com a boca se faz confissão para a salvação.' Por isso, diz ele, tendo reconhecido que eram estrangeiros e exilados na terra: pois aqueles três se autodenominavam estrangeiros e peregrinos, pois em Gênesis (23:4) Abraão diz: 'Sou estrangeiro e peregrino entre vós.' Além disso, o Senhor diz a Isaque: “Fica na terra que eu te indicar e peregrina nela” (Gn 26:2), e o próprio Jacó diz: “Os dias da minha peregrinação” (Gn 47:9). Ora, peregrino é aquele que está a caminho de algum lugar. Mas um peregrino é aquele que vive numa terra estrangeira sem intenção de ir para outro lugar. Mas eles não se confessaram apenas como peregrinos, mas também como peregrinos. Assim, também, uma pessoa santa não faz morada no mundo, mas está sempre ocupada e tendendo para o céu: “Sou um estranho convosco e um peregrino como foram todos os meus pais” (Salmo 38:13). - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:14

597. – Depois (v. 14) ele mostra que esta confissão pertence à esperança. Pois alguém é um hóspede e um estrangeiro, a menos que esteja fora de sua pátria e a caminho dela. Portanto, uma vez que se confessam hóspedes e estrangeiros, significam que estão indo para sua terra natal, isto é, a Jerusalém celestial: 'Mas aquela Jerusalém que está acima é livre' (Gl. 4:26). E isto é o que ele diz, pois as pessoas que falam assim deixam claro que estão buscando uma pátria. — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:15

598. – Mas porque alguém poderia dizer que é verdade que eram peregrinos na terra dos filisteus e dos cananeus, entre os quais habitavam, mas pretendiam regressar à terra que haviam deixado; ele rejeitou isso quando disse: Se estivessem pensando naquela terra de onde saíram, teriam tido tempo de voltar, porque era próxima. Mas do jeito que está, eles desejam um país melhor, isto é, celestial; portanto, em Gênesis (24:6) 'Abraão disse ao seu servo: Cuidado, nunca mais traga meus filhos de volta para lá;' 'Escolhi ser um abjeto na casa do meu Deus, em vez de habitar nos tabernáculos dos pecadores' (Salmo 83:11); 'Uma coisa pedi ao Senhor, esta buscarei: que eu possa habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida' (Salmo 26:4). Portanto, buscavam um país, mas não a casa do pai, que haviam deixado. Nisto é significado que quem sai da vaidade do mundo não deve retornar a ele mentalmente: 'Esquece o teu povo e a casa de teu pai' (Sl 44,11); 'Nenhum homem que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o reino de Deus' (Lucas 9:62); 'esquecendo-me das coisas que atrás ficam e estendendo-me para as que estão diante de mim' (Fp 3,13). É também claro que estas confissões deles por palavras e ações pertencem à fé, porque eles acreditaram firmemente até a morte no que foi prometido, mas nunca lhes foi mostrado. Portanto, na fé, ou seja, tendo a sua fé ao lado como companheira inseparável, eles morreram: 'Sede fiéis até a morte' (Ap 2:10). - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:16

599. – Depois (v. 16b) mostra o que eles merecem receber pela fé. Mas esta era a maior honra, quando alguém recebe um nome derivado de um ofício solene ou do serviço de um grande e excelente senhor ou príncipe, como o notário do Papa, ou o chanceler do rei. Mas é uma honra maior quando esse grande senhor deseja receber o nome daqueles que o servem. O mesmo acontece com estes três, a saber, Abraão, Isaque e Jacó, cujo Senhor, o grande Rei sobre todos os outros deuses, chama-se especificamente seu Deus; portanto, (Êxodo 3:6): 'Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó;' portanto, ele diz: 'Deus não se envergonha de ser chamado de seu Deus'. 600. – Para isso podem ser apresentadas três razões: primeiro, porque Deus é conhecido pela fé. Mas está registrado que eles primeiro se separaram para os incrédulos por meio de um culto especial; portanto, também, Abraão foi o primeiro a receber o selo da fé para se tornar o pai de muitas nações (Romanos 4:17). Portanto, eles nos são propostos como exemplo, como aqueles por quem Deus foi primeiro conhecido, e por eles Deus foi nomeado como objeto de fé. Portanto, Ele quis ser nomeado por eles. 601. – Em segundo lugar, segundo Agostinho numa Glosa, porque neles se esconde um mistério. Pois neles encontramos uma semelhança com a geração pela qual Deus regenerou os filhos espirituais. Mas observamos neles uma forma quádrupla de gerar. A primeira maneira é de filhos livres por mulheres livres, como Abraão por Sara gerou Isaque, que gerou Jacó por Rebeca, e Jacó os oito patriarcas por Lia e Raquel. A segunda forma foi de filhos livres através de escravas, pois Jacó gerou Dã e Naftali de Bilhah e Zilpa. A terceira via era a dos servos de mulheres livres, como Isaque gerou Esaú de Rebeca; dele foi dito: 'O maior servirá ao menor' (Gn 25:23). A quarta era de servas por escravas, pois Abraão gerou Ismael de Hagar. Nisto são designadas as diversas maneiras pelas quais o Senhor gera filhos espirituais, porque às vezes o bom pelo bom, como Timóteo por Paulo; às vezes os bons pelos maus, e esta é a geração de homens livres por escravas; às vezes os maus pelos bons, como Simão Mago por Filipe, e esta é a geração de servos por mulheres livres. Mas a geração dos ímpios pelos ímpios é contabilizada na semente; daí 'Expulsa a escrava e seu filho' (Gálatas 4:30). 602. – A terceira razão, que parece estar mais de acordo com a intenção do Apóstolo, é que é costume que um rei seja chamado pela cidade principal, ou por todo o país, como Rei de Jerusalém, Rei dos Romanos, Rei de França. Portanto, o Senhor é propriamente chamado de Rei e Deus daqueles que olham especificamente para aquela cidade, a Jerusalém celestial, cujo arquiteto e fundador é Deus. E porque eles mostraram por palavras e ações que pertencem àquela cidade, Ele é chamado seu Deus; por isso ele diz, pois ele, o fundador daquela cidade, preparou para eles uma cidade. - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:17

603. — Então (v. 17) é dado outro famoso exemplo da fé de Abraão, na medida em que se refere a Deus, ou seja, aquele supremo sacrifício seu quando por ordem do Senhor ele quis imolar seu unigênito filho (Gen 22:1). No que diz respeito a isto, ele faz três coisas: primeiro, o que ele fez; em segundo lugar, isto pertence à fé (v. 17b); em terceiro lugar, o que ele recebeu por isto (v. 19b). 604. — Ele diz, portanto: Abraão, quando foi provado, estava pronto para oferecer Isaque pela fé, como está claro em Gênesis (22). Mas há duas questões aqui: primeiro, matar o inocente é contra a lei da natureza e é, consequentemente, um pecado. Portanto, ao querer oferecê-lo, pecou. Respondo que uma pessoa que mata por ordem de um superior que ordena legitimamente, obedece legitimamente e pode legitimamente cumprir seu dever. Mas Deus tem poder sobre a vida e a morte: 'O Senhor mata e faz viver' (1 Sam 2:6). Mas Deus não faz injúria quando tira a vida até de inocentes. Daí, por decreto de Deus muitas pessoas ímpias e muitas inocentes morrem diariamente. Portanto, é lícito cumprir os mandamentos de Deus. Há também questão sobre a afirmação, quando foi provado. Pois Deus a ninguém prova, já que provar implica ignorância. Respondo que o diabo prova para enganar: 'Para que acaso aquele que vos tenta não vos tenha tentado' (1 Ts 3:5). Isto é claro na tentação de Cristo (Mt 4). Mas um homem prova para aprender. Assim, em 1 Reis (10:1) está registrado que a rainha de Sabá foi a Salomão para prová-lo com perguntas. Mas Deus não prova desse modo, pois conhece todas as coisas; mas prova a fim de que o próprio homem aprenda como é forte ou fraco: 'Para te afligir e provar-te, e para que soubesses o que estava em teu coração' (Dt 8:2); e 2 Cr (32:31) fala de Ezequias sendo provado para que fossem conhecidas todas as coisas que estavam em seu coração. Além disso, para que outros conheçam aquele que é provado e o tomem como exemplo, como Abraão e Jó (Sir 44:21). — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:18

605. – Depois, quando ele diz, estava pronto para oferecer seu único filho, ele mostra bem sutilmente que aquela obediência pertence à fé. Pois, como foi dito acima, Abraão em sua velhice creu em Deus prometendo que em Isaque seria abençoado em sua descendência. Ele também creu que Deus poderia ressuscitar os mortos. Portanto, quando foi ordenado matar Isaac, não havia mais esperança para Sara, que agora era muito idosa, de ter um filho, já que Isaac era já um jovem. Portanto, visto que creu que os comandos de Deus devem ser obedecidos, nada mais restava senão crer que Ele ressuscitaria Isaac, por quem sua descendência seria chamada. Daí ele diz, seu único filho, a saber, de Sara, em quem, isto é, no único filho, Deus deveria cumprir Sua promessa, como o Gênesis (18:19) indica. Ou, o único filho, a saber, entre os filhos livres: "Toma teu único filho, Isaque" (Gn 22:2). Aquele que havia recebido as promessas, do qual foi dito, isto é, por causa de quem; Por Isaque será chamada tua descendência, considerava que Deus era capaz de ressuscitar os homens até dos mortos. Este, portanto, foi a maior prova de sua fé, porque o artigo da ressurreição é um dos mais importantes. — Comentário aos Hebreus

Hebreus 11:19

606. – Depois (v. 19b) mostra o que mereceu pela fé; porque, como nada restava senão imolá-lo, um anjo o chamou e, no lugar de seu filho, ele imolou um carneiro preso pelos chifres. Mas esta foi uma parábola, ou seja, uma figura de Cristo que viria. Pois o carneiro preso pelos chifres entre as sarças é a humanidade que sofreu, fixada na cruz. E assim fica claro que o número não era de forma alguma igual ao prefigurado. Portanto, recebeu-o de volta, ou seja, Isaque, para uma parábola, ou seja, para uma figura de Cristo ser crucificado e imolado. - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:20

607. – Acima, o Apóstolo deu um exemplo da fé de Abraão; aqui ele dá o exemplo da fé de Isaque, Jacó e José: e primeiro da fé de Isaque. Ele diz, portanto, que pela fé nas coisas que viriam, isto é, nas coisas que se estendiam ao futuro, Isaque abençoou Jacó e Esaú. Ou ele os abençoou pelas coisas que viriam; ou com uma bênção que se estendeu ao futuro. Pois suas palavras tiveram eficácia somente pelo poder de Deus. Através desta bênção o mais jovem governava o mais velho. Mas isto não se referia às suas pessoas, mas aos dois povos que deles surgiram: 'sobre Edom estenderei o meu sapato' (Sl 107:10). Pois os edomitas que nasceram de Esaú estavam sujeitos ao povo de Israel. Isto significava que os mais jovens, isto é, os gentios, pela fé deveriam suplantar os mais velhos, ou seja, os judeus: 'Muitos virão do oriente e do ocidente e sentar-se-ão com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus' (Mt. 8:11). Mas aquela bênção que dizia respeito à fé vindoura dos gentios foi feita pela fé, porque olhava para algo no futuro. - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:21

608. – Depois quando diz, pela fé Jacó ao morrer abençoou cada um dos filhos, continua com a fé de Jacó e menciona o que fez ao abençoar os dois filhos de José, conforme está registrado em Gênesis (48), onde se afirma que quando José foi informado da doença de seu pai, chamou seus dois filhos a quem Jacó abençoou, cruzando as mãos. Com este gesto escolheu Efraim em vez de Manassés quanto à dignidade, porque a dignidade real vinha de Efraim, a saber, Jeroboão. Mas esta bênção foi pela fé, porque lhe foi revelado que assim seria no futuro. Esta bênção referia-se às pessoas que saíram deles e não às suas pessoas. Da mesma forma, pela fé ele adorou a ponta da sua vara. Isto está registrado em Gênesis (49), onde se afirma que ele fez José jurar que o enterraria no túmulo de seus pais; e depois do juramento, ele adorou o topo do caixão, como faz a nossa versão, ou no topo de sua vara, como diz a Septuaginta, ou no topo, como é dito no grego. E tudo isso pode subsistir, porque ele era velho e carregava uma vara; ou ele tomou o cetro de José até fazer o voto, e depois de devolvê-lo, ele não adorou a vara nem José, como alguns maldosamente pensavam, mas o próprio Deus. Ele fez isso, apoiando-se no topo de sua vara. Ele fez isso, movido pela consideração do poder de Cristo, que o poder de José prefigurava. Por ser prefeito no Egito, ele carregava um cetro como sinal de seu poder: 'Tu que os governas com vara de ferro' (Sl 2:9). Ou se adorou o topo, o sentido é o mesmo, porque adorou Cristo representado por aquela vara, assim como adoramos o Crucificado e a Cruz por causa de Cristo, que nela sofreu. Portanto, propriamente falando, não adoramos a Cruz, mas Cristo crucificado nela. - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:22

609. – Então (v. 22) ele continua com o exemplo da fé de José e menciona duas coisas que são ditas no último capítulo de Gênesis, onde ele disse a seus irmãos (v. 24): "Deus vos visitará", e os mandou levar seus ossos para fora daquele lugar. Daí, sua fé recaía sobre duas coisas: primeiro, porque acreditava que a promessa que Ele fez seria cumprida pelo retorno dos filhos de Israel à terra prometida; segundo, porque acreditava que Cristo nasceria e ressuscitaria nela, e muitos com ele. Daí, desejava ter uma parte naquela ressurreição. Ele diz, portanto, Pela fé José, ao final de sua vida, fez menção do êxodo dos israelitas; e isto quanto ao primeiro: e deu mandamento a respeito de seus ossos, quanto ao segundo. 610. – Mas por que não fez com que a si mesmo fosse carregado imediatamente como seu pai. Respondo que não pôde, porque não tinha então o poder que tinha na morte de seu pai. Segundo, porque sabia que os filhos de Israel deviam sofrer muitas aflições depois de sua morte. Portanto, para assegurá-los de sua libertação e retorno à terra prometida, quis que seu corpo permanecesse com eles como uma consolação. Daí, Moisés o levou consigo, assim como cada tribo levou o corpo de seu pai, como Jerônimo diz. — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:23

611. – Então quando ele diz, Pela fé Moisés, quando nasceu, foi escondido três meses por seus pais, ele continua com os pais que estavam sob a Lei. Pois este período começa com Moisés: 'Moisés mandou uma lei nos preceitos da justiça' (Eclesiástico 24:33); 'A lei foi dada por Moisés' (Jo. 1:33). Mas aquele período é dividido em três partes, a saber, antes da saída do Egito, durante a saída, e depois da saída. Portanto, ele faz três coisas: primeiro, mostra o que aconteceu antes da saída; em segundo lugar, durante a saída (v. 27); em terceiro lugar, o que aconteceu na terra prometida (v. 32). Quanto ao primeiro, ele faz duas coisas: primeiro, mostra o que ocorreu no nascimento de Moisés; em segundo lugar, o que ele fez (v. 24). 612. – Aqui ele toca na história dada em Êxodo (cap. 1), a saber, que o Faraó ordenou que os filhos varões fossem mortos, para que não se multiplicassem. Em segundo lugar, está registrado que os pais de Moisés, vendo que era uma criança bela, o esconderam durante três meses: o que o Apóstolo atribui à sua fé. Pois eles acreditavam que alguém nasceria para libertá-los de sua escravidão. Portanto, da beleza da criança eles acreditaram que havia algum poder de Deus nele. Pois eles eram um povo rude, que suava, trabalhando com barro e tijolos: 'Uma pessoa é conhecida por sua aparência' (Eclesiástico 19:26). A partir disto vemos que, embora a fé seja sobre coisas invisíveis, todavia através de certos sinais visíveis podemos descansar nela. 'Confirmando a palavra com sinais que se seguiram' (Mc 16:20). Mas o fato de que fizeram isto pela fé e não por afeto carnal é evidente, porque não tiveram medo do édito do rei. Portanto, expuseram-se ao perigo, o que não teriam feito, a menos que acreditassem que algo grande estava guardado para a criança: 'Não temais aqueles que matam o corpo' (Mt. 10:28). 613. – Mas por outro lado, eles depois o expuseram; portanto, não foi pela fé que o preservaram. Respondo que o expuseram, não para destruí-lo mas para evitar que fosse roubado; portanto, o colocaram em um cesto pequeno, confiando-o à providência divina. Pois eles acreditavam que ele provavelmente seria morto, se fosse encontrado entre eles.

Hebreus 11:24-25

614. – Depois (v. 24) mostra o que Moisés fez pela fé; primeiro o que ele fez; segundo, que o que ele fez pertencia à fé (v. 26b). 615. – Aqui ele aborda a história registrada no Êxodo (2), onde se afirma que a filha do Faraó o cuidou de sua mãe e o adotou como filho. Mas ele negou ser filho dela, não em palavras, mas em ações; porque contra a vontade do Faraó ele matou um egípcio que havia feito mal a um hebreu. Portanto, diz ele, pela fé, quando cresceu, negou ser filho da filha do Faraó. Com que sentimentos ele fez isso, ele mostra quando diz, preferindo ser afligido pelo povo de Deus, do que ter o prazer do pecado por um tempo. Isso indica sua maravilhosa virtude. Pois há duas coisas que os homens mais desejam, a saber, prazer e deleite nas coisas externas; e fogem principalmente dos seus opostos, nomeadamente a dor e a aflição, que se opõem à primeira, e a pobreza e a abjeção, que se opõem à segunda. Mas Moisés escolheu esses dois porque preferiu a dor e a aflição ao prazer do pecado temporal, que está sempre associado ao pecado. Ele também escolheu a pobreza por causa de Cristo: “É melhor humilhar-se com os mansos do que repartir os despojos com os soberbos” (Pv 16:19); 'Escolhi ser um abjeto na casa do meu Deus, em vez de habitar nos tabernáculos dos pecadores' (Salmo 83:11). Quanto ao primeiro, ele diz, antes escolhendo ser afligido pelo povo de Deus, a quem Faraó afligiu, do que ter o prazer do pecado por um tempo; o que ele teria tido se tivesse afligido os filhos de Israel com os egípcios. Quanto à segunda, a saber, que escolheu a pobreza, ele diz: tendo por maior riqueza o vitupério de Cristo, isto é, pela fé de Cristo, pela qual suportou o vitupério de seus irmãos, como afirma o Êxodo (2:14): 'Você me matará, como ontem matou o egípcio?' Essa reprovação era uma figura que Cristo teria para suportar as reprovações dos judeus: 'Meu coração esperava reprovação e miséria' (Sl. 68:21). Mas ele considerava essas duas coisas como riquezas maiores do que os tesouros dos egípcios: 'As riquezas da salvação, da sabedoria e do conhecimento' (Is. 33:6). - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:26

616. – Quando ele diz, pois ele olhou para a recompensa, ele mostra que aquelas ações de Moisés pertenciam à fé em Cristo. Mas deve-se notar que algumas coisas são boas e deleitosas em si mesmas, e outras tristes e más. Mas ninguém pode preferir coisas más por si mesmas, mas por um fim, como um doente escolhe uma poção amarga, e coisas tristes a coisas deleitosas pela razão de algum bem maior que pode obter por elas. E assim os santos, pela esperança do fim último de felicidade eterna, escolheram aflição e pobreza sobre riquezas e prazeres, porque por elas teriam sido impedidos de atingir o fim que esperavam: "Bem-aventurados sois quando vos revilarem, e vos perseguirem, e disserem todo o mal contra vós," e continua: "Alegrai-vos e exultai, pois vossa recompensa é muito grande no céu" (Mt. 5:11); "Eu sou vosso protetor e vossa recompensa muito grande" (Gn. 15:1). Portanto, ele diz que fez isto porque olhou com os olhos da fé para a recompensa, que dele esperava. Portanto, "fé é a substância das coisas que se espera; a prova das coisas que não se veem", como foi dito acima. — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:27

617. – Depois de descrever a fé de Moisés no que se refere ao que ele fez no Egito, o Apóstolo agora mostra o que ele fez no que se refere ao que fez durante a saída do Egito. Quanto a isto ele faz três coisas: primeiro, ele mostra o que ele fez durante a saída do Egito; em segundo lugar, a maneira de sua saída (v. 28); em terceiro lugar, o que foi feito pela fé com o povo descrente (v. 31). 618. – Ele diz, portanto, que pela fé Moisés deixou o Egito. Mas, como é registrado no Êxodo (cap. 2), ele primeiro deixou o Egito depois de matar um egípcio; mas o deixou uma segunda vez, quando liderou todos os filhos de Israel para fora do Egito. Mas um Glossário explica sobre a segunda saída, porque ele continua, não temendo a ira, isto é, a indignação, do rei. Pois em sua primeira saída é registrado no Êxodo (cap. 2) que ele temeu: 'Quem for inútil sentirá a ira do rei' (Pr. 14:35). Mas na segunda não temeu: 'O justo é ousado como um leão, sem temor' (Pr. 28:1). Mas pode referir-se à primeira. 619. – Mas ele não temeu então? Eu respondo que há duas coisas a serem consideradas no temor: uma é que pode ser censurável, a saber, quando através do temor uma pessoa faz o que não deve fazer, ou negligencia fazer o que deve fazer. Isto não é o modo como Moisés temeu, porque o temor não o fez negligenciar a ajuda de seus irmãos. A outra pode ser louvável, a saber, quando mantendo a fé uma pessoa foge do perigo por causa de um temor presente: 'Quando vos perseguirem em uma cidade, fugi para outra' (Mt. 10:23). Pois se uma pessoa, enquanto preservava sua honra, pudesse evitar perigo e não o faz, seria tolo e tentaria a Deus, o que é diabólico. Isto é o modo como Jesus se escondeu daqueles que o apedrejariam, e recusou a sugestão do diabo de se lançar para baixo. Do mesmo modo, Moisés, confiando na ajuda de Deus, fugiu por um tempo, porque temeu o rei. Ele prova que fez isto pela fé, porque a fé é sobre coisas invisíveis. E ele suportou, isto é, aguardou, o Deus invisível e sua ajuda como o vendo: 'Deixa teu coração ter coragem e espera no Senhor' (Sl. 26:14). Pois Moisés aguardou a ajuda de Deus em ambas as partidas; portanto, na primeira ele disse: 'O Deus de meu pai é meu ajudador' (Ex. 2:22); e na segunda: 'O Senhor combaterá por vós, e vós ficareis em silêncio' (Ex. 14:14). — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:28

620. – Depois (v. 28) mostra o que fez quanto ao modo como partiu: primeiro, relata o que foi feito na preparação para a partida; em segundo lugar, quanto à partida em si (v. 29); em terceiro lugar, quanto ao que foi feito pela fé ao entrar na terra prometida (v. 30). 621. – Quanto ao primeiro, alude à história registada no Êxodo (12), onde o Senhor lhes ordenou antes da partida dos filhos de Israel, a saber, naquela mesma noite, que imolassem um cordeiro e colocassem o seu sangue nas ombreiras laterais e nas ombreiras superiores das casas: depois comeriam a carne assada no fogo, e pão ázimo com alface brava, e muitas outras coisas que deviam ser observadas. E isso é chamado de Páscoa, isto é, comer o cordeiro e derramar sangue, essas duas coisas ocorrendo naquela passagem que eles deveriam realizar no dia seguinte. É chamada de Páscoa de 'paschin' em grego e 'passic' em latim, ou da palavra 'frase', que em hebraico é o mesmo que 'passagem'. Mas isto prefigurava que Cristo passaria deste mundo pela Sua paixão: “Que ele passaria deste mundo” (Jo 13:1). Também nos instrui que pelo mérito de Sua morte passamos das coisas terrenas para as celestiais, e do inferno para o céu: 'Vinde a mim, todos os que me desejam' (Sir. 24:26). Isto, é claro, é realizado em virtude do sangue de Cristo: “Tendo, portanto, confiança na entrada no santuário pelo sangue de Cristo” (Hb 10:19). Mas duas passagens ocorreram durante aquela Páscoa: uma, na qual o Senhor passou, ferindo os egípcios; o outro em que as pessoas passavam. Assim também, com o sangue de Cristo, que é o cordeiro sem mancha, os postos dos fiéis devem ser manchados, nomeadamente o seu intelecto e os seus afetos. Ele diz que pela fé celebrou a Páscoa, isto é, comer o cordeiro e derramar o sangue para ser espalhado nas colunas de sua casa. Por que eles fizeram isso? Para que aquele que destruiu os primogênitos dos egípcios não pudesse tocá-los: 'Ele matou todos os primogênitos na terra do Egito' (Sl 77:51). 622. – Mas pelo ministério de quem isso foi feito? Foi feito por anjos bons ou pelos maus? Pois parece que foram os anjos maus: 'Os quais ele enviou por meio de anjos maus' (Sl 77:49). Eu respondo que poderia ter sido as duas coisas. Portanto, deve-se notar que a imposição de punições às vezes é realizada por anjos bons. Pois, como diz Dionísio em Os Nomes Divinos (cap. 4), punir o mal não é mal, mas fazer o mal é mal. Pois o castigo é uma obra de justiça, como mostra o anjo que feriu o acampamento dos assírios, porque se acredita que ele tenha sido um anjo bom (Is. 57). Conseqüentemente, tal punição é visitada indiferentemente pelos bons e pelos maus; mas pelos bons de maneira diferente dos maus, porque os bons não punem a não ser exercendo a justiça divina sobre os maus (e nas Escrituras tal obra do diabo ou de um anjo bom é atribuída a Deus). Mas o anjo mau, embora obedeça à justiça divina, não o faz por amor à justiça; antes, pela perversidade de sua vontade, ele aflige os bons e os maus, e de preferência os bons, se lhe for permitido, como no caso de Jó. Portanto, o anjo que disse a Moisés (Êxodo 12:23): 'O Senhor passará, ferindo os egípcios' era um anjo bom, pois às vezes fala em sua própria pessoa. Mas às vezes os espíritos malignos servem um anjo bom; portanto, ele usou os serviços de suas vontades más e perversas na matança. Portanto, ele diz: 'Indignação, ira e angústia, que ele enviou pelos anjos maus' (Sl 77:49). Portanto, o anjo mau não tocou naqueles que foram selados com sangue, sendo contido pelo terror e temor a Deus; mas os bons foram dissuadidos, maravilhados com o poder de Deus. - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:29

623. – Então (v. 29) ele mostra o que ele fez no próprio passar: primeiro, ele mostra isto; em segundo lugar, ele mostra que isto pertencia à fé (v. 30b). Ele diz, portanto, pela fé eles passaram pelo Mar Vermelho, como por terra seca. Duas coisas foram feitas lá pela fé: uma era o que os homens fizeram, a saber, eles se comprometeram a atravessar; e isto foi feito apenas pela fé. A outra estava do lado de Deus, a saber, que as águas atuassem como um muro para eles. Mas isto foi pela fé, pois a ação de milagres é atribuída à fé: "Se tendes fé como um grão de mostarda, direis a este monte, Sai daqui, e ele se moverá" (Mt 17:19). Então ele mostra que isto pertence à fé, porque os egípcios tentando isto, isto é, desejando tentar isto, foram tragados, porque não tinham fé: "Tu estendeste tua mão, e a terra os tragou" (Ex 15:12). — Comentário a Hebreus

Hebreus 11:30

624. – Então quando ele diz, Pela fé os muros de Jericó caíram, pelo fato de os circundarem sete dias, ele descreve o que aconteceu quando entraram na terra prometida. Isto é mencionado em Josué (6), onde é dito que por mandado de Deus os sacerdotes por sete dias deviam circundar a primeira cidade além do Jordão, a saber, Jericó, com a arca da aliança, e no sétimo dia os muros caíram. Aqui houve algo da parte dos homens, a saber, que por mandado do Senhor eles circundavam, crendo que o mandado de Deus seria cumprido, e algo da parte de Deus, a saber, os muros caíram pelo fato de circundarem. 625. – Moralmente, Jericó é interpretada como lua ou defeito, e significa este mundo. Seus muros são os obstáculos pelos quais alguns são mantidos presos no mundo. Pelas trombetas, que os levitas e sacerdotes soavam, significa-se a voz dos pregadores. Pelo fato de circundarem por sete dias é designado o curso do tempo presente, que se completa em sete dias. Por isto nos é dado compreender que todos os obstáculos do mundo caem pela voz contínua da pregação: 'As armas de nossa milícia não são carnais, mas poderosas em Deus para derribação de fortalezas, destruindo conselhos e toda altivez que se exalta contra o conhecimento de Deus' (2 Cor. 10:4). — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:31

626. – Então quando diz, pela fé Raabe a prostituta não pereceu com os desobedientes, mostra o que foi feito pela fé por uma dos desobedientes, a saber, por Raabe, como está registrado em Josué (caps. 2 & 6). Pois quando Josué havia enviado espiões para explorar Jericó, eles escaparam com a ajuda daquela mulher que é chamada prostituta, isto é, idólatra. Ou ela era literalmente prostituta, com quem ficaram, não para pecar mas para se esconder. Pois as casas de tais pessoas são visíveis especialmente à noite. Mas eles tinham chegado à noite. Além disso, sua casa era adjacente à muralha. Mas prostitutas recebem a todos sem exceção; portanto era mais fácil para eles se esconderem com ela. Portanto foi libertada pela fé, por isso diz, pela fé Raabe a prostituta não pereceu com aqueles que foram desobedientes [incrédulos], porque havia dado hospitalidade aos espiões. Não pereceu com os incrédulos, que pereceram corporalmente, porque os espiões tinham jurado libertá-la e a toda família de seu pai; o que fizeram. Mas por que se voltaram para ela? Possivelmente porque seria menos culpada, recebendo a todos indiscriminadamente. Além disso, não era apropriado que sua segurança fosse ocasião de morte para quem os abrigasse. Mas pelo fato de ter sido libertada ao recebê-los se designa que aqueles que recebem os pregadores do evangelho são libertados da morte eterna: 'Quem recebe um profeta, em nome de profeta, receberá galardão de profeta' (Mt 10:11). — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:32

627. – Depois de descrever as coisas feitas pelos pais pela fé antes e durante a própria entrada na terra prometida, o Apóstolo começa agora a dar exemplos daqueles que estiveram na terra prometida. Mas porque eram tantos, ele recita os seus feitos de uma forma geral e, depois de dar os nomes dos pais, explica por que deve ser breve. A respeito disso ele faz três coisas: primeiro, ele dá os nomes dos pais e a razão pela qual ele ignora rapidamente seus atos; segundo, ele mostra o que eles fizeram pela fé (v. 34); em terceiro lugar, o que receberam pela fé (v. 33b). 628. – Diz, portanto: E que mais direi? Como se dissesse: cheguei ao momento em que entraram na terra prometida, sobre o qual ainda restam algumas coisas a dizer. Pois ainda restam tantas coisas a serem ditas que não podem ser explicadas: pois não teria tempo para contá-las, ou seja, se eu quisesse contá-las, não haveria tempo suficiente para fazê-lo por meio de uma carta, que deveria ser breve. Por isso, Jerônimo escreve a Paulino: 'O espaço de uma epístola não me permite dizer mais nada.' Ou pode significar o tempo da vida. É assim que João fala (19:25): “Mas há também muitos outros sinais que Jesus fez; que se fossem escritos todos, o próprio mundo, penso eu, não seria capaz de conter os livros que deveriam ser escritos.' Onde um Gloss diz que está usando uma hipérbole. Isso não é falso, mas uma figura de linguagem. No Sal. 39 (v. 6) onde temos: 'Eu declarei e falei; eles são multiplicados acima do número”, diz a carta de Jerônimo: “Se eu quisesse descrevê-los, há mais do que pode ser descrito”. 629. – Contudo, deve-se notar que alguns deles fizeram algumas coisas boas e algumas coisas más. Portanto, eles são listados aqui apenas pelas coisas boas que fizeram ou receberam. No entanto, é provável que todos eles finalmente fossem santos. Por isso o Apóstolo os lista no catálogo dos santos. Primeiro, portanto, ele menciona Gideão, cuja história aparece em Juízes (caps. 6-8). Ele é mencionado primeiro, tanto porque não fez nada de mal como porque fez algo muito importante; e provavelmente porque recebeu o maior sinal da encarnação no velo e no orvalho, a respeito do qual diz o Salmo. 71 (v. 6): 'Ele descerá como chuva sobre o velo.' Em segundo lugar, ele menciona Baraque em Juízes (caps. 4-5), que não era tão famoso quanto Gideão, a quem essa vitória não foi creditada, mas sim à mulher. Talvez seja por isso que ele passa por ele. Em terceiro lugar, ele menciona Sansão (Jz. caps. 13-16), que particularmente merece não ser mencionado aqui, porque pecou ao se matar. Mas Agostinho, em A Cidade de Deus, desculpa isso, porque se acredita que ele fez isso por ordem de Deus. O sinal disso é que ele não poderia ter destruído tal casa pelo seu próprio poder, mas pelo poder de Deus, que não coopera com o mal. Em quarto lugar, ele menciona Jefté em Juízes (caps. 11-12), a quem ele lista depois de Sansão, porque ele não fez as grandes coisas que este último fez. 630. – Mas há uma dúvida sobre Jefté, se ele pecou ao imolar sua filha conforme jurou. Pois parece que não, porque Juízes (11:29) diz: 'O espírito do Senhor veio sobre Jefté' e depois menciona o voto e a vitória. Mas Jerônimo diz o contrário, ou seja, que foi indiscreto ao jurar e culpado ao pagar. Eu respondo que algo do Espírito Santo estava lá, a saber, um impulso para jurar em geral que ele iria imolar tudo o que encontrasse que pudesse ser imolado; mas havia também algo do seu próprio espírito, a saber, que ele imolou o que não deveria. Nisso ele pecou, ​​mas depois se arrependeu. Da mesma forma, Gideão pecou ao fazer um éfode e tentar a Deus, quando pediu um sinal no velo. Mas ele também se arrependeu mais tarde, assim como David, a quem ele menciona a seguir, dizendo: David e Samuel, que são discutidos nos livros de Samuel, e os profetas, a respeito dos quais o tempo me faltaria, se eu quisesse discuti-los. 631. – Mas a próxima questão é se todos os listados eram profetas. Respondo que o Espírito Santo pode mover-se para três coisas: a saber, conhecer, falar e fazer; e para cada um deles de duas maneiras. Às vezes Ele se move para conhecer, fazendo-o compreender o que se vê, como no caso de Isaías e dos outros profetas; portanto, eles são chamados de videntes: 'Aquele que agora é chamado profeta, outrora foi chamado vidente' (1Sm 9:9); mas às vezes sem compreensão do que se vê, como no sonho do Faraó e na visão de Belsazar. Ele também leva a falar de duas maneiras: às vezes para saber o que diz, como Davi, às vezes sem saber, como Caifás e talvez Balaão. Da mesma forma, Ele às vezes leva alguém a fazer algo e a saber o que está fazendo, como Jeremias, que escondeu seu cinto perto do Eufrates (Jeremias 13:5); e às vezes sem saber, como diz Agostinho sobre João sobre os soldados que repartiram entre si as vestes de Cristo sem conhecer o mistério ao qual essa divisão foi ordenada. Portanto, pertence à noção de um profeta que ele saiba o que vê, diz ou faz. É assim que João diz que Caifás profetizou, porque ele tinha algo característico de profecia. Mas o movimento do Espírito Santo é chamado de instinto por Agostinho. - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:33

632. – Depois (v. 33) mostra o que fizeram os santos mencionados: primeiro, mostra isso em geral; em segundo lugar, indo aos detalhes (v. 33c). Em relação ao primeiro ele faz duas coisas: primeiro, menciona os méritos de suas ações; em segundo lugar, a recompensa (v. 33b). 633. – Quanto ao primeiro, deve-se notar que de todos os atos exteriores das virtudes morais, os atos de coragem e de justiça parecem os mais importantes, porque são os que mais dizem respeito ao bem comum. Pois a república é defendida contra os seus inimigos pela coragem e é preservada pela justiça. Por isso, o Apóstolo elogia os santos padres por ambos: pela coragem, quando diz, pela fé eles conquistaram reinos, ou seja, reis, ou mesmo seus reinos, como Davi e Josué. No entanto, os santos venceram espiritualmente reinos, nomeadamente o reino do diabo, de quem Jó (41:25) diz: 'Ele é rei sobre todos os filhos da soberba', e o reino da carne: 'Não deixe o pecado reinar em seu corpo mortal' (Rom. 6:12); também o reino do mundo: 'Meu reino não é deste mundo' (Jo 18:36). Mas eles venceram pela fé: 'Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé' (1Jo 5:4). Pois ninguém pode desprezar as coisas presentes senão por causa dos bens futuros, porque é principalmente pelo desprezo que o mundo é vencido, portanto, porque a fé nos mostra as coisas invisíveis pelas quais o mundo é desprezado, a nossa fé vence o mundo. 634. – Chega então aos atos de justiça quando diz: justiça feita. Pois a justiça é por vezes uma virtude geral, nomeadamente quando obedece à lei divina: “O Senhor é justo e amou a justiça” (Salmo 10:8); 'É justo estar sujeito a Deus' (2 Mac 9:12); 'Aquele que pratica a justiça é justo' (1Jo 3:7). Mas às vezes é uma virtude especial e consiste em ações e trocas humanas, nomeadamente, quando uma pessoa presta a todos o que lhe é devido. Mas os santos tinham ambos: 'Esta é a herança dos servos do Senhor, e a sua justiça comigo, diz o Senhor' (Is. 54:17); 'Se queres sabedoria, guarda a justiça' (Sir. 1:33), ou seja, obedecendo aos mandamentos, e também exercendo-a para com o povo: 'Fiz justiça e juízo' (Sl. 118:121). 635. – Depois, quando diz que receberam, mostra o que obtiveram, porque receberam as promessas. Pois a promessa de Deus é eficaz, porque Deus nunca falha em cumprir Sua promessa: 'Tudo o que ele prometeu, ele é capaz de cumprir' (Romanos 4:21); 'O Senhor é fiel em todas as suas palavras' (Sl. 144:13). Mas, pelo contrário, ele diz acima (11:13): 'Estes morreram segundo a fé, não tendo recebido as promessas.' Respondo que o que é dito aqui pode ser entendido de três maneiras: por um lado, que a promessa de Deus é aquela especial pela qual Ele promete aos santos a vida eterna, que ninguém recebeu antes da vinda de Cristo: 'Para confirmar as promessas feitas aos pais' (Romanos 15:8); segundo, pela promessa de herdar a terra prometida. Isto os pais anteriores, a saber, Abraão, Isaque e Jacó, não receberam, mas os posteriores, como Josué e os outros santos. Terceiro, por uma promessa específica feita a indivíduos, como um reino a Davi e saúde a Ezequias; e estas são as promessas que obtiveram. 636. – Depois (v. 33b) menciona benefícios particulares que lhes são conferidos: primeiro, aqueles que dizem respeito à remoção do mal; em segundo lugar, à realização do bem (v. 34b). Mas os males prejudiciais ao homem são de dois tipos: um é externo e outro interno. Ele menciona o segundo quando diz que eles ganharam força a partir da fraqueza. Mas os males externos são de dois tipos, porque são causados ​​ou por uma criatura irracional ou por uma criatura racional. O segundo deles é mencionado quando ele diz que eles escaparam do fio da espada. De fontes irracionais de duas maneiras: vivas ou não vivas. Ele aborda os danos infligidos por coisas inanimadas quando diz, fogo violento apagado; por animar quando ele diz, eles taparam a boca dos leões. 637. – Ele fala no plural, embora houvesse apenas um, a saber, Daniel, como também é dito em Mateus (2,20): 'Estão mortos os que procuravam a vida do Menino', pois Herodes foi o único que procurou matar o Menino. A razão pela qual ele faz isso é que ele está falando de todos os santos em geral, como de um colégio de santos; portanto, o que alguém faz ele imputa aos outros e até a todos, porque foi feito pelo poder do Espírito Santo, que é comum a todos. Portanto, mesmo nesse texto ele fala como se fosse de todos. Mas também se pode dizer que isso se completou em Davi que, como diz em 1 Sam (17:34). Por leão entende-se espiritualmente o diabo: “O vosso adversário, o diabo, como leão que ruge, anda em busca de quem possa devorar” (1 Pd 5, 8). Portanto, quem reprime seus ataques cala a boca dos leões: 'Quebrei as mandíbulas do ímpio; e da sua boca tirei a presa” (Jb 29:17). - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:34

638. – Ele menciona a remoção de danos de coisas inanimadas quando diz que elas extinguiram o fogo violento, como no caso dos três meninos em Daniel (cap. 3). Da mesma forma, pela oração de Moisés e Arão, apagou-se o fogo que havia sido enviado pelo Senhor para devorar os murmuradores, como diz Números (cap. 16). Esse fogo é o impulso interno para a concupiscência e a raiva. Portanto, quem restringe esse impulso extingue a violência do fogo: 'O fogo caiu sobre eles e não verão o sol' (Sl 57:9). 639. – A remoção do mal de uma criatura racional é tocada quando ele diz que ela escapou do fio da espada, ou seja, do ataque do inimigo com espadas afiadas. Mas isto acontecia com eles com muita frequência, como fica claro nos casos de Josué, Gideão e David. Mas pela espada se entende uma persuasão maligna: “Suas línguas são espada afiada” (Sl 56:7). Alguém escapa dessas espadas quando silencia uma língua má: 'Proteja os seus ouvidos com espinhos, não ouça uma língua má' (Sir. 28:28); 'O vento norte afasta a chuva, assim como o semblante triste a língua caluniadora' (Pv 25:23). 640. – O dano interno é a enfermidade, a respeito de cuja remoção ele diz, eles ganharam força a partir da fraqueza, como aparece particularmente em Ezequias (2Rs 20:17). Mas essa enfermidade é pecado: “Tem misericórdia de mim, Senhor, porque sou fraco” (Salmo 6:3). Portanto, aquele que sobe se recuperou. 641. – Depois, quando diz que se tornaram valentes, menciona os benefícios quanto à obtenção do bem; e ele menciona três. A primeira diz respeito ao fato de terem agido com coragem; portanto, diz ele, eles se tornaram valentes na batalha, como Josué: “Valente na guerra foi Jesus, filho de Num, que foi sucessor de Moisés” (Sir. 46:1). O mesmo se aplica a muitos outros. A segunda diz respeito ao efeito dessa coragem; por isso, diz ele, eles puseram em fuga exércitos estrangeiros, como nos casos de Davi e dos Macabeus: “Se os exércitos acampados se unirem contra mim, meu coração não temerá” (Sl 26:3). - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:35

641 (cont.). – Mas o terceiro diz respeito ao efeito da coragem divina; portanto, ele diz: As mulheres receberam seus mortos ressuscitados, isto é, pela ressurreição. Alguns que entenderam mal isso explicaram seus mortos, ou seja, seus maridos, e argumentaram que a morte não dissolve o vínculo do casamento. Isto é falso, mesmo que eles subam novamente. Também é contra o Apóstolo em Romanos (7:3): 'Se o seu marido morrer, ela está livre da lei do marido.' Por isso, deve-se notar que mesmo nos efeitos dos sacramentos há uma diferença. Pois alguns sacramentos imprimem um caráter, como o batismo, a confirmação e as Ordens. E porque um caráter permanece para sempre na alma, uma pessoa batizada, confirmada ou ordenada não deve repetir nenhum desses sacramentos, se ressuscitar. Mas os demais sacramentos não imprimem caráter, como a penitência, a extrema unção e os demais. Portanto, porque curam algo repetível, podem ser repetidos: e entre estes está o matrimônio. Portanto, ele não diz “maridos”, mas seus mortos, porque através da ressurreição as mães receberam seus filhos mortos, cuja ressurreição foi um presságio da ressurreição vindoura iniciada por Cristo. 642. – Um relato da sua ressurreição, ou melhor, do seu reavivamento encontra-se em 1 Reis (cap. 17) e 2 Reis (cap. 4). Contudo, assim revividos, eles morreram novamente: “Mas Cristo, ressuscitado dentre os mortos, não morre mais” (Romanos 6:9); “Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo as primícias dos que dormem” (1 Coríntios 15:20). Mas assim como aqueles benefícios temporais foram dados a eles como a pessoas doentes para sustento pelo mérito de sua fé, assim eles eram as figuras de coisas boas vindouras, que serão dadas a nós pelo mérito da fé: 'E estes sinais seguirão aqueles que crerem. Em meu nome expulsarão demônios; eles falarão em novas línguas. Eles pegarão em serpentes; e se beber alguma coisa mortífera, não lhe fará mal; imporão as mãos sobre os enfermos, e estes sararão” (Mc 16,17). Tudo isso Gregório explica sobre os bens espirituais. 643. – Depois de dar exemplos dos santos padres de outrora que fizeram muitas grandes coisas pela fé, o Apóstolo dá agora exemplos de quem sofreu pela fé. A respeito disso ele faz duas coisas: primeiro, mostra como eles sofreram pela fé; em segundo lugar, ele mostra como as promessas feitas a eles foram adiadas (v. 39). Em relação ao primeiro, ele faz duas coisas: primeiro, menciona os males que lhes foram infligidos por outros; em segundo lugar, os males assumidos voluntariamente (v. 37b). Os males foram infligidos a eles por outros de duas maneiras, a saber, às vezes durante a vida, e às vezes na morte; estes ele menciona quando diz que foram apedrejados. Durante a vida, os males lhes foram infligidos de três maneiras: alguns por aflições corporais; alguns por zombaria; e alguns por prisão. 644. – Quanto ao primeiro diz, outros foram torturados. Como se disséssemos: Assim, dissemos que alguns receberam muitas coisas boas por causa da fé, seja pela remoção dos males, seja pela realização de bens temporais. Nestes foi prefigurado o Antigo Testamento, que conferia bens temporais. Mas outros sofreram muitas coisas pela fé: destes alguns foram torturados por cavalos como em 1 Macabeus (cap. 2); e em 2 Macabeus (cap. 6) o caso das duas crianças suspensas no pescoço das mães, e em 2 Macabeus (cap. 7) o caso dos sete irmãos. Naqueles santos, antes de tudo, o Novo Testamento foi prefigurado; portanto, diz ele, recusando-se a aceitar a libertação. Pois uma pessoa sujeita à punição é de alguma forma escrava da punição; portanto, ser liberto do castigo é chamado de redenção: 'Ele os resgatou da mão daquele que afligia' (Salmo 77:42). 645. – Mas mostra porque recusaram a libertação. Não foi porque Deus não exerceu nenhuma providência sobre eles, mas para que pudessem obter a vida eterna, o que é melhor do que a libertação de qualquer punição presente ou qualquer ressurreição da vida presente; portanto, ele diz, para que eles possam ressuscitar para uma vida melhor: 'Eu ressuscitarei no último dia' (Jb. 19:25); 'Os teus mortos viverão, os meus mortos ressuscitarão' (Is. 26:19). Ou diz, melhor, porque, pelo fato de terem sofrido coisas maiores por Cristo, ganharam uma recompensa maior: 'Estrela difere de estrela em glória; assim também é a ressurreição dos mortos” (1 Coríntios 15:41); pois aqueles com maior mérito receberão uma recompensa maior; mas os méritos dos mártires são muito grandes: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15,15). Contudo, nem todo mártir é maior que todo confessor, mas alguns mártires podem ser maiores que algum confessor; e, inversamente, mais confessor do que mártir, embora não universalmente. Pois um pode ser comparado a outro quanto ao tipo de trabalho ou quanto ao grau de caridade. Mas nenhum ato por si só é tão meritório como morrer por Cristo, porque um homem está dando o que é mais caro, a saber, a sua própria vida: “Bem-aventurados os que sofrem perseguições por causa da justiça” (Mt. 5:10). Mas se considerarmos a raiz de todo mérito, que é a caridade (1 Cor. 13), então uma obra que procede de uma caridade maior é mais meritória. Conseqüentemente, um simples confessor poderia ter maior mérito diante de Deus. Mas o apóstolo está falando do tipo de obra, dizendo que eles poderiam ressuscitar para uma vida melhor, isto é, uma vida maior e mais gloriosa. Portanto, melhor implica uma comparação entre o estado da vida presente e a ressurreição futura, ou uma comparação entre a glória da ressurreição de uma pessoa e a glória de outra. - Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:36

646. – Então (v. 36) ele menciona os males infligidos a eles com respeito à escárnio por palavras, dizendo, outros foram escarnecidos, como Sansão em Juízes (cap. 16), Tobias, Jó e Isaías: 'Desviei meu rosto daqueles que me insultavam e me cuspiam' (Is 50:6); e Jeremias (20:8) diz: 'A palavra do Senhor é para mim uma afronta, e uma zombaria a cada dia.' Com respeito aos atos ele diz, e açoites, como Miqueias, de quem está escrito em 1 Reis (22:24) que Zedequias o feriu na bochecha. Em tudo isto os sofrimentos do Novo Testamento são prefigurados: 'Fomos feitos espetáculo para o mundo, e para anjos e para homens' (1 Co 4:9). 647. – Então quando diz, e até correntes, ele menciona os males infligidos aos santos pelo encarceramento, como Jeremias, de quem está escrito em 20 (v. 2) que foi colocado no cepo. Mas não apenas correntes, mas encarceramento, como Jeremias (caps. 37 & 38) e Miqueias (1 Rs 22:27). — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:37

648. – Então ele mostra o mal que sofreram até a morte quando diz, foram apedrejados. Este era um tipo de morte então comum entre todos os judeus: 'Jerusalém, Jerusalém, tu que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados' (Mt. 23:37). Assim Nabote foi apedrejado (1 Rs. 21:13) e Jeremias, de quem lemos que os judeus o apedrejaram no Egito com pedras que haviam ocultado sob a parede de tijolos da casa de Faraó. E embora Epifânio diga que ele foi arrastado, era geralmente dito que foi apedrejado. Zacarias, filho de Joiada, também foi apedrejado (2 Cr. 24:21). Ele menciona uma morte extraordinariamente cruel quando diz, foram serrados em dois. Isto é por causa de Isaías, a quem Manassés mandou cortar com uma serra. Ele fala no plural conforme o costume das Escrituras, embora houvesse apenas um caso. Ele menciona o terceiro tipo quando diz, foram tentados a consentir. Ele diz isto por causa de Matatias e seus filhos em 1 Macabeus (cap. 2) e Eleazar em 2 Macabeus (cap. 6) e a história dos sete irmãos em 2 Macabeus (cap. 7), e ainda assim foram mortos: 'Era melhor com eles que foram mortos pela espada, do que com aqueles que morreram de fome' (Lm. 4:9). Em particular Urias foi morto por Davi (2 Sm. 11:15) e também Josias (2 Rs. 23:29). 649. – Então (v. 37b) ele menciona os males voluntariamente assumidos. Estes se reduzem a três, a saber, traje externo; o estado da pessoa; e lugar de moradia. 650. – Quanto ao traje externo ele diz, andavam em peles de ovelhas e bodes. A primeira, 'melota' em latim, é uma vestimenta feita de cabelo de camelo, como alguns dizem. Uma pele de bode, além de ser peluda, é vil. Estas são ditas de Elias (2 Rs 1:8), a saber, que era um homem peludo com um cinturão de couro sobre seus lombos. Agostinho, no livro, Palavras do Senhor, diz que tal vestimenta pode ser usada com uma intenção maligna, como quando são usadas por ostentação; mas bem, se são usadas por desprezo pelo mundo e para castigar a carne. Mas especialmente aqueles que professam um estado de arrependimento devem mostrar os sinais de sua profissão; por conseguinte, é lícito a eles usar tal vestimenta, como os profetas fizeram: mas não para exibição. 651. – Quanto ao estado da pessoa ele diz, destituídos, porque lhes faltavam riquezas. Isto prefigurou o estado do Novo Testamento, do qual se diz em Mateus (19:21): 'Se queres ser perfeito, vai vende o que tens.' E isto era especialmente verdadeiro de Elias, porque foi alimentado por um corvo e por uma mulher viúva (1 Rs. 17); 'Sou pobre e em labores desde minha mocidade' (Sl. 87:16); 'Sou necessitado e pobre' (Sl. 69:6). Afligidos, como Elias, que fugiu da face de Jezabel (1 Rs. 19), e Davi, que fugiu de Absalão (2 Sm. 15); e maltratados com trabalho corporal, como Elias que estava cansado e dormiu sob uma árvore de zimbro. — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:38

651 (cont.). – Ele acrescenta, de quem o mundo não era digno. Como Dionísio diz numa epístola ao apóstolo João: homens maus pelo que às vezes fazem, mostram as indicações de sua condenação; daí, ele diz que quando homens maus separaram o bem-aventurado João deles, Deus estava mostrando que eles não eram dignos de estar associados com ele. Portanto, o Apóstolo diz, o mundo não era digno deles. Como se dissesse: Homens mundanos não eram dignos de se associarem com os justos: 'Escolhi-vos do meio do mundo; portanto, o mundo vos odeia' (Jo. 15:19). 652. – Então quando ele diz, vagando por desertos, ele mostra isto no que diz respeito ao seu lugar, porque eles não tinham moradia própria, mas vagavam por desertos, montanhas e em cavernas e grutas da terra, que são lugares apropriados para contemplação e penitência. Chama-se uma caverna, se é feita pela arte; mas uma gruta, se é da natureza ou por algum acidente, como corrosão da água. Estes são claros nos casos de Davi (1 Reis 22:1) e Elias (1 Reis 19:9). — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:39

653. – Então quando ele diz, e todos estes sendo aprovados pelo testemunho da fé, não receberam a promessa. Mas para que ninguém pudesse crer que isto fosse devido à falta de mérito, ele dá a razão daquele atraso: Pois Deus tinha previsto algo melhor para nós. 654. – Ele diz, portanto: que todos estes, embora bem comprovados por sua fé, isto é, pela fé eles têm testemunho de que foram aprovados por Deus: "Pois não é aquele que se recomenda a si mesmo que é aprovado, mas aquele a quem Deus recomenda" (2 Cor. 10:18); "Como ouro na fornace ele os provou" (Sab. 3:6). E contudo eles não receberam o que foi prometido, isto é, da glória, ou a terra prometida, até Cristo: "Você foi irado com teu ungido" (Sl. 88:39). Pois receberam coisas temporais, mas não espirituais: "Morreram, não tendo recebido as promessas" (Hb. 11:13). — Comentário sobre Hebreus

Hebreus 11:40

655. – Então, quando ele diz, Visto que Deus nos providenciou algo melhor, mostra a razão do adiamento. Mas alguns tomaram a causa ou ocasião do seu erro disto e disseram que ninguém entrará no paraíso até a consumação final na ressurreição final. Mas isto é contrário ao Apóstolo: "Sabemos que, se esta tenda em que vivemos se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos humanas, eterna nos céus" (2 Co 5:1). Portanto, a consumação de que o Apóstolo fala pode referir-se à recompensa essencial, a saber, à felicidade, que é obtida por meio de Cristo: "Pois ele é quem abrirá o caminho diante deles" (Mq 2:13), a qual os santos não receberão em geral até após a ressurreição geral, embora talvez alguns já a tenham por um privilégio especial. Portanto, não são consumados sem nós, mas são aperfeiçoados com uma dupla estola, de modo que, como diz a Glosa, a alegria de cada um se tornará maior na alegria comum de todos. Portanto, Deus nos provê nesta matéria. Logo, ele diz, Visto que Deus nos providenciou algo melhor: "Vê como é bom e como é agradável os irmãos habitarem juntos em unidade" (Sl 132:1). Pois o homem se alegra com muitos que se alegram: "Se eles guardaram a fé os que esperaram por tanto tempo, quanto mais devemos nós que recebemos de repente" (Glosa); "Hoje estarás comigo no paraíso" (Lc 23:43). — Comentário aos Hebreus