BibleLAB
← Thomas Aquinas

Efésios 1

Thomas Aquinas

Efésios 1:1

O Apóstolo escreve esta carta aos Efésios que eram asiáticos, vindo da Ásia Menor que faz parte da Grécia. Eles não foram iniciados na fé pelo Apóstolo Paulo, mas ele os fortaleceu nela. Mesmo antes de os ter encontrado, tinham sido convertidos, como se pode depreender de Atos 19 (1): 'Tendo ocorrido que, enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo passou pela região superior e chegou a Éfeso, onde encontrou certos discípulos.' Uma vez convertidos e fortalecidos pelo Apóstolo, permaneceram firmes na fé, não sucumbindo à falsa doutrina. Assim, eram dignos de encorajamento em vez de repreensão; e a carta de Paulo tem um tom de garantia e não de reprovação. Ele a escreveu da cidade de Roma através do diácono Tíquico. A intenção do Apóstolo é fortalecê-los em bons hábitos e impulsioná-los para maior perfeição. O método de apresentação pode ser visto na divisão da carta: Primeiro, a saudação, na qual mostra seu afeto por eles. Em segundo lugar, a narrativa, na qual os fortalece em bons hábitos (1:3-3:21). Em terceiro lugar, a exortação, na qual os impele para maior perfeição (4:1-6:9). Em quarto lugar, a conclusão da carta, na qual os fortalece para o combate espiritual (6:10-24). Na saudação, a pessoa que cumprimenta vem em primeiro lugar, em segundo lugar aqueles que são cumprimentados, e em terceiro lugar a fórmula de cumprimento. Referentemente ao primeiro, ele fornece o nome da pessoa, Paulo; em segundo lugar, a autoridade dessa pessoa como Apóstolo de Cristo; finalmente, o doador desta autoridade, pela vontade de Deus. Ele diz Paulo, que é um nome de humildade, enquanto o título de Apóstolo é de dignidade; a razão é que 'aquele que se humilhar será exaltado' (Lc 14:11; 18:14). Um Apóstolo, quero dizer, de Jesus e não um dos pseudo-apóstolos que são de Satanás: 'Não é de admirar se seus ministros se transformam em ministros de justiça' (2 Cor 11:15). Sou apóstolo, ele diz, não por meus próprios méritos, mas pela vontade de Deus. Em muitos casos ocorre o oposto — 'Reinaram, mas não por mim' (Os 8:4). Ele escreve a todos os santos que estão em Éfeso e aos fiéis. Ou [isto poderia significar], eu, Paulo, escrevo sobre a moral àqueles que são santos pelo exercício das virtudes; e sobre a fé àqueles que creem com verdadeiro conhecimento. Ou, [pode significar], aos santos que são os mais velhos e perfeitos [membros], e aos fiéis que são menos experientes e imperfeitos. Diz-se que creem em Cristo Jesus e não em seus próprios feitos. — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:2

Ele acrescenta aqui a fórmula da saudação que indica três qualidades que tornam agradável qualquer dom: a suficiência do dom, em graça e paz; o poder do doador, de Deus nosso Pai; e a excelência do mediador, e do Senhor Jesus Cristo. Pois um presente é agradável quando o que é dado é suficiente e é oferecido por alguém no poder, como um rei ou príncipe, e é apresentado por um mensageiro solene, por exemplo, por seu filho. Ele menciona graça, que significa justificação do pecado, e paz, que é calma mental, ou reconciliação com Deus, no que diz respeito à libertação da punição devida ao pecado. Que isto seja para você da parte de Deus nosso Pai, de quem todo bem vem: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes” (Tiago 1:17). E o Senhor Jesus Cristo sem o qual nenhuma bênção é dada. É por isso que quase todas as orações [litúrgicas] são concluídas “por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”. O Espírito Santo não é mencionado na fórmula de saudação, pois é o vínculo que une Pai e Filho e é compreendido quando são mencionados; ou ele é compreendido nos dons que lhe são apropriados, graça e paz. - Comentário sobre Efésios

Efésios 1:3

Então quando diz Bendito seja Deus... (v. 3) em ação de graças, fortifica-os no bem, e faz isto de três formas: Primeiro, dando como razão Cristo, de quem receberam tantos dons (Cap. 1). Segundo, pela razão deles mesmos que foram transformados de uma condição anterior má para sua condição presente boa (Cap. 2). Terceiro, por causa do Apóstolo mesmo, cujo ministério e solicitude os confirmou em seu bom estado (Cap. 3). O primeiro é dividido em três seções: Primeiro, em ação de graças toca nas bênçãos de forma geral. Segundo, então as bênçãos dadas aos Apóstolos em particular (1:8). Terceiro, finalmente as bênçãos especialmente concedidas aos Efésios mesmos (1:13). Ele trata de seis bênçãos oferecidas geralmente ao gênero humano: Primeiro, a de louvar [Deus] na certeza de bem-aventurança futura (1:3). Segundo, a de ser escolhido na separação predeterminada daqueles destinados à destruição (1:4). Terceiro, a de predestinação na comunidade predeterminada dos bons, a saber, dos filhos adotivos (1:5). Quarto, a de se tornar agradável [a Deus] através do dom da graça (1:6b). Quinto, a de ser resgatado, libertado da punição da escravidão diabólica (1:7a). Sexto, a de ser perdoado tendo o pecado apagado (1:7b). Com respeito ao benefício do louvor (v. 3) dois aspectos são tocados: Primeiro, o louvor mesmo que deve ser prestado, em Bendito seja Deus. Segundo, a bênção pela qual deve ser prestado, em "quem nos abençoou." Ele diz que Deus deve ser abençoado ou louvado por você, por mim e por outros com nossos corações, línguas e ações. Ele que é Deus pela essência divina e Pai por causa de sua propriedade de gerar [o Filho]. A cópula "e" não é posta entre Deus e Pai para designar duas pessoas separadas, pois há apenas um Pai, mas para denotar o que ele é por sua essência e o que ele é em relação ao Filho. Pai, digo, de nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, do Filho que é nosso Senhor por sua divindade, e Jesus Cristo segundo sua humanidade. Deus que nos abençoou com esperança no presente enquanto no futuro ele nos abençoará com a realidade. Ele coloca [o verbo] no tempo passado, em vez do futuro, por causa de sua certeza. Ainda que por nossos próprios méritos fôssemos amaldiçoados, ele nos abençoou com toda bênção espiritual tanto para a alma quanto para o corpo. Pois então o corpo será espiritual: "Semeia-se corpo animal, ressuscita corpo espiritual" (1 Cor 15:44). [Isto ocorrerá] por uma bênção desfrutada nos lugares celestiais, isto é, no céu, e em Cristo já que será por meio de Cristo ou pela ação de Cristo: "Pois ele mesmo há de transformar o nosso corpo abatido" (Fl 3:21). Esta bênção é muito desejável. E isto por razão de sua causa eficiente já que Deus é o que abençoa; e por razão de sua causa material já que nos abençoou; e por causa da causa formal já que nos abençoou com toda bênção espiritual; e por conta do fim, nos abençoou nos lugares celestiais. "Eis como é abençoado o homem que teme o Senhor" (Sl 127:4). — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:4

Próximo (v. 4), ele trata da bênção da eleição; expõe as vantagens dessa eleição porque: é livre, como nos escolheu nele; é eterna, antes da fundação do mundo; é frutífera, para que fôssemos santos; e é gratuita, em caridade. Portanto ele declara: Ele nos abençoou da mesma forma -- não pelos nossos méritos mas pela graça de Cristo -- como nos escolheu e, separando-nos daqueles destinados à destruição, nos predestinou livremente nele, isto é, através de Cristo. "Vós não me escolhestes; mas eu vos escolhi" (Jo 15:16). Isto ocorreu antes da fundação do mundo, desde a eternidade, antes de virmos à existência. "Pois quando os filhos ainda não nasceram, nem tinham feito bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição, permanecesse" (Rm 9:11). Nos escolheu, digo, não porque éramos santos -- ainda não tínhamos vindo à existência -- mas para que fôssemos santos nas virtudes e sem mancha de vícios. Pois a eleição realiza essa dupla ação de justiça: "Afastai-vos do mal e fazei o bem" (Sl 33:15). Santos, eu afirmo, em sua vista; interiormente no coração onde apenas ele pode ver: "O Senhor vê o coração" (1 Sm 16:7). Ou, em sua vista pode significar que possamos gazear-nos nele uma vez que a [visão beatífica], de acordo com Agostinho, é o todo de nossa recompensa. Ele realizará isto, não pelos nossos méritos, mas em sua caridade; ou, pela nossa [caridade] com a qual ele formalmente nos santifica. No que foi dito até agora seguimos a interpretação de um Glosa que parece ser uma exposição um tanto forçada, pois a mesma ideia expressa em uma frase ocorre em outra. Ele nos escolheu é o mesmo que dizer que nos predestinou. E a mesma ideia é expressa naquele para que fôssemos santos e sem mancha como naquele para a adoção de filhos. Neste aspecto deve ser conhecido que o procedimento costumeiro do Apóstolo, quando fala de um assunto difícil, é explicar o que veio antes pelo que imediatamente segue. Isto não é proliferação verbal mas uma exposição; e este é o método que o Apóstolo usa aqui. Retendo o mesmo significado das palavras, podemos dividi-lo diferentemente do início (v. 3) em três seções: Primeiro, o Apóstolo agradece em Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Em segundo lugar, ele menciona conjuntamente o dom de todas as bênçãos em quem nos abençoou com bênçãos espirituais em lugares celestiais, em Cristo. Em terceiro lugar, ele expressa claramente as bênçãos divinas em particular (v. 4 ss.). Este último é dividido em duas partes: Primeiro, ele formalmente formula as bênçãos. Em segundo lugar, ele as interpreta (v. 5). Ele formula as bênçãos: Primeiro, quanto à eleição, em assim nos escolheu nele antes da fundação do mundo. Em segundo lugar, quanto às suas consequências, que fôssemos santos e sem mancha em sua vista. Primeiro, ele trata da eleição, pois há dois tipos de eleição, um envolvendo uma justificação presente e outro uma predestinação eterna. Concernente ao primeiro João 6 (71) declara: "Não vos escolhi eu aos doze? E um de vós é um diabo?" Mas isto não é o que o Apóstolo se refere uma vez que não ocorreu antes da fundação do mundo. Então ele imediatamente clarifica o que quer dizer, que é o segundo tipo, predestinação eterna. Assim ele diz Quem nos predestinou... (v. 5). Como ele disse em Cristo (v. 3) para significar que somos assimilados e conformados a Cristo na proporção em que somos [filhos adotivos de Deus], assim ele acrescenta para a adoção de filhos através de Jesus Cristo. O que ele quer dizer por em caridade ele explica quando diz Em quem temos redenção através de seu sangue. Como se afirmasse: Temos, etc. Sem mancha é explicado por até o perdão de pecados; enquanto em sua vista é explicado por até o louvor da glória de sua graça. — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:5

Depois (v. 5) ele acrescenta a terceira bênção, a da predestinação na comunidade preordenada dos que são bons. Seis características da predestinação são esboçadas aqui. Primeiro, é um ato eterno, tendo predestinado; segundo, tem um objeto temporal, a nós; terceiro, oferece um privilégio presente, a adoção de filhos por Jesus Cristo; quarto, o resultado é futuro, para si mesmo; quinto, sua maneira [de ser realizada] é gratuita, segundo o propósito de sua vontade; sexto, tem um efeito apropriado, para louvor da glória de sua graça. Portanto ele afirma que Deus, tendo nos predestinado, nos escolheu de antemão pela graça apenas para a adoção de filhos para que pudéssemos compartilhar com os outros filhos adotados os bens ainda por vir—assim ele diz para a adoção de filhos. "Pois não recebestes o espírito de escravidão novamente em temor; mas recebestes o espírito de adoção de filhos", e além disso, "aguardando a adoção, a redenção de nosso corpo" (Rm 8:15 & 23). Deve ser por contato com o fogo que algo comece a queimar já que nada obtém participação em alguma realidade senão através daquilo que é essa realidade por sua própria natureza. Portanto, a adoção de filhos deve ocorrer através do filho natural. Por esta razão o Apóstolo acrescenta por Jesus Cristo, que é a terceira característica tocada nesta bênção, a saber, o mediador que atrai todos a si. "Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a lei, para que resgatasse aqueles que estavam sob a lei, para que recebêssemos a adoção de filhos" (Gl 4:4-5). Isto é realizado para si mesmo, isto é, na medida em que somos conformados a ele e nos tornamos servos no Espírito. "Vede que amor o Pai nos manifestou, para que nos chamássemos filhos de Deus; e assim o somos", após o qual vem: "Sabemos que quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele" (1 Jo 3:1-2). Aqui deve ser observado que a semelhança dos predestinados com o Filho de Deus é dupla. Uma é imperfeita, ela é [a semelhança] pela graça. É chamada imperfeita, primeiro, porque diz respeito apenas à reforma da alma. A respeito disto Efésios 4 (23-24) declara: "Renova-te no espírito de teu sentimento e reveste-te do novo homem, que segundo Deus foi criado em justiça e santidade de verdade." Segundo, até mesmo com a alma ela retém alguma imperfeição, "pois conhecemos em parte" (1 Co 13:9). Contudo, a segunda semelhança, que será em glória, será perfeita; tanto quanto ao corpo—"Transformará o nosso corpo humilde, para ser conforme o seu corpo glorioso" (Fl 3:21)—e quanto à alma—"quando vier o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá" (1 Co 13:10). O que o Apóstolo diz, portanto, a respeito de nos predestinar para a adoção de filhos pode referir-se à assimilação imperfeita ao Filho de Deus possuída nesta vida pela graça. Mas é mais provável que se refira à assimilação perfeita ao Filho de Deus que existirá na pátria. Em referência a isto Romanos 8 (23) afirma: "E não somente ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção, a redenção de nosso corpo." A predestinação divina não é nem necessitada da parte de Deus nem devida àqueles que são predestinados; é antes segundo o propósito de sua vontade. Esta é a quarta característica que recomenda a bênção a nós, pois brota do amor puro. A predestinação, conforme [como o homem] a concebe, pressupõe eleição, e eleição amor. Uma dupla causa desta bênção imensa é designada aqui. Uma é a causa eficiente—que é a simples vontade de Deus—segundo o propósito de sua vontade. "Portanto, tem misericórdia de quem quer, e endurece a quem quer" (Rm 9:18). "Da sua vontade ele nos gerou pela palavra da verdade" (Tg 1:18). Para louvor da glória de sua graça especifica a causa final que é para que possamos louvar e conhecer a bondade de Deus. Novamente esta bênção eminente é recomendada na medida em que a homenagem [que resulta] está de acordo com a si mesma. Pois a [causa] eficiente da predestinação divina é simplesmente a vontade de Deus, enquanto o fim é um conhecimento de sua bondade. Daí deve ser realizado que a vontade de Deus de modo nenhum tem uma causa mas é a primeira causa de tudo mais. Não obstante, um certo motivo pode ser atribuído a ela de duas formas. Da parte daquele que quer, o motivo para a vontade divina é sua própria bondade que é o objeto da vontade divina, movendo-a a agir. Portanto, a razão para tudo que Deus quer é sua própria bondade: "O Senhor fez tudo para seu próprio propósito" (Pv 16:4). Do lado do que é querido, porém, algum existente criado pode ser um motivo para a vontade divina; por exemplo, quando quer coroar Pedro porque lutou bem (cf. 2 Tm 4:7-8). Mas este último não é a causa de [desejar de Deus]; ao invés, é uma causa de acontecer do modo que aconteceu. Não obstante, deve ser reconhecido como, no reino do que é querido, os efeitos são um motivo para a vontade divina de tal forma que um efeito anterior é a razão para um posterior. Mas quando o efeito primário [isto é, a perfeição do Universo] é chegado, nenhuma razão adicional pode ser dada para esse efeito senão a vontade divina. Por exemplo, Deus quer que os homens tenham mãos para que possam ser de serviço a sua mente; e [quer] que o homem possua uma mente já que quer que ele seja um homem; e quer que o homem exista em favor da perfeição do Universo. Agora já que isto é o que é primariamente efetuado na criação, nenhuma razão adicional para o Universo pode ser atribuída dentro do domínio das criaturas elas mesmas; [situa-se] ao invés dentro do domínio do Criador, que é a Vontade Divina. Nesta perspectiva, a predestinação tampouco pode encontrar razão da parte da criatura mas apenas da parte de Deus. Pois há dois efeitos da predestinação, graça e glória. Dentro do reino do que é querido [por Deus], a graça pode ser identificada como uma razão para os efeitos que se orientam para a glória. Por exemplo, Deus coroou Pedro porque lutou bem, e fez isto porque foi fortalecido em graça. Mas nenhuma razão para a graça, como um efeito primário, pode ser encontrada da parte do homem mesmo o qual seria também a razão para a predestinação. Isto seria afirmar que a fonte das boas obras estava no homem por si mesmo e não pela graça. Tal era o ensinamento herético dos Pelagianos que afirmavam que a fonte das boas obras existe dentro de nós mesmos. Assim é evidente que a razão para a predestinação é a vontade de Deus sozinha, por conta da qual o Apóstolo diz segundo o propósito de sua vontade. Para entender como Deus cria tudo e o quer por causa de sua própria bondade, deve ser realizado que alguém pode trabalhar por um fim de duas formas. [Uma pessoa pode agir] ou a fim de alcançar um fim, como os doentes tomam remédio para recuperar a saúde; ou [ela pode agir] por amor de disseminar o fim, como um médico trabalhará para comunicar saúde a outros. Mas Deus absolutamente não precisa de nada externo a si mesmo, conforme o Salmo 16 (2): "Senhor, tu és meu Senhor; tu és meu Bem; não há nada acima de ti." Portanto, quando é dito que Deus quer e realiza tudo por causa de sua própria bondade, isto não deve ser entendido como se ele agisse a fim de conferir bondade a si mesmo mas antes a fim de comunicar bondade a outros. Esta bondade divina é apropriadamente comunicada a criaturas racionais para que a criatura racional ela mesma possa conhecê-la. Assim, tudo que Deus realiza em referência a criaturas racionais é para seu próprio louvor e glória, conforme Isaías 43 (7): "Todo aquele chamado pelo meu nome, que criei para minha glória, que formei e fiz" para que ele possa saber o que é bondade, e neste conhecimento louvá-la. O Apóstolo assim acrescenta para louvor da glória de sua graça, para que o homem possa realizar quanto Deus deve ser louvado e glorificado. Nem ele diz "para louvor de justiça." Pois justiça entra em cena somente onde uma dívida está presente ou deve ser devolvida. Mas para o homem ser predestinado para vida eterna não é devido a ele—como foi dito, é uma graça dada em perfeita liberdade. Nem ele simplesmente diz da glória, mas anexa de sua graça como se fosse de uma glória graciosa. E graça é exatamente isto; a grandeza da graça é revelada no fato de que consiste na grandeza da glória. [Sua grandeza é mostrada] também na forma como é conferida; pois a concede sem quaisquer méritos precedentes quando os homens são indignos dela. "Deus prova seu amor por nós no fato de que enquanto éramos ainda pecadores Cristo morreu por nós"; e um pouco depois, "quando éramos inimigos, fomos reconciliados a Deus pela morte de seu Filho" (Rm 5:8 & 10). Por agora deve ser claro como a predestinação divina nem tem nem pode ter nenhuma causa senão a vontade de Deus apenas. Isto, por sua vez, revela como o único motivo para a vontade predestinadora de Deus é comunicar a bondade divina aos outros. — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:6

Agora o Apóstolo escreve sobre a quarta bênção (cf. 1:3), a de tornar-se agradável [a Deus] através do dom da graça. Quanto a isto ele faz duas coisas: Primeiro, ele toca na dádiva desta bênção. Em segundo lugar, ele mostra a maneira e as condições de sua concessão (1:7). Daí ele primeiro afirma: Somos predestinados para a adoção de filhos, para louvor da glória de sua graça—aquela graça, eu digo, na qual ele nos agraciou em seu Filho amado. Neste aspecto, deve ser notado que ser amado por alguém é idêntico a ser agradável a ele. Pois ele é agradável a mim aquele que eu amo. Agora, visto que Deus nos amou desde a eternidade—ele nos escolheu antes da fundação do mundo em amor, como foi dito (1:4)—como ele nos tornou agradáveis a si mesmo no tempo? Uma resposta é que aqueles que ele ama eternamente em si mesmo, ele os torna agradáveis [a si mesmo] no tempo de acordo com a medida em que existem em suas próprias naturezas. O primeiro [seu amor] é da eternidade e não é criado, o último acontece no tempo e é dito vir a ser. Daí o Apóstolo diz que ele nos agraciou, isto é, nos tornou agradáveis de forma que devêssemos ser dignos de seu amor. "Vede que amor o Pai nos deu, para que fôssemos chamados filhos de Deus; e somos!" (1 Jo. 3:1). Dois tipos de graça são costumeiramente distinguidos: graça carismática livremente dada sem ser merecida—"E se por graça, então não é mais por obras; senão a graça não seria mais graça" (Rm. 11:6)—e graça santificante que nos torna agradáveis e aceitáveis a Deus. Esta última é a graça tratada aqui. Note como as pessoas podem ser amadas pelo bem de outras, ou por seu próprio bem. Pois quando amo muito alguém, eu o amo e tudo o que lhe pertence. Somos amados por Deus, não pelo que somos em nós mesmos, mas naquele que por si mesmo é amado do Pai. Assim o Apóstolo acrescenta em seu Filho amado por cuja causa ele nos ama e na medida em que somos semelhantes a ele. Pois o amor se baseia na semelhança: "Todo animal ama seu semelhante: assim também todo homem seu próximo" (Ecl. 13:15). Por sua própria natureza, o Filho é semelhante ao Pai, ele é amado antes de tudo e essencialmente. Daí ele é amado naturalmente, e de uma maneira excepcionalmente excelente pelo Pai. Nós, por outro lado, somos filhos através da adoção na medida em que somos conformados a seu Filho; desta forma desfrutamos de certa participação no amor divino. "O Pai ama o Filho e lhe deu todas as coisas em sua mão. Quem crê no Filho tem a vida eterna" (Jo. 3:35-36). "Ele nos transferiu para o reino do Filho que ama" (Cl. 1:13). — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:7

A seguir (1:7), ele estabelece o próprio caminho [que a graça é dada]. A respeito disso ele faz duas coisas: primeiro, a parte de Cristo na forma como ela é dada. Em segundo lugar, a parte de Deus nisso, de acordo com as riquezas da sua graça (1:7b). Da parte de Cristo, ele escreve sobre duas maneiras pelas quais Cristo nos tornou agradáveis ​​[a Deus]. Pois dentro de nós existem dois antagonismos ao beneplácito divino, as manchas do pecado e as injúrias punitivas [infligidas pelo pecado]. A justiça se opõe ao pecado como a vida se opõe à morte, de modo que através do pecado, tendo nos afastado de nossa semelhança com Deus, deixamos de ser agradáveis ​​a Deus. Mas através de Cristo ele nos tornou agradáveis. Primeiro, de fato, abolindo a pena; e em referência a isso ele diz que em Cristo temos a redenção da escravidão do pecado. “Vós sabeis que não foi por meio de coisas corruptíveis, como ouro ou prata, que fostes resgatados da vã vida herdada de vossos pais, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e imaculado” (1 Pedro 1:18-19). “Tu nos redimiste para Deus, com o teu sangue” (Ap 5:9). Em segundo lugar, diz-se que somos redimidos porque através de Cristo somos libertados de uma escravidão em que fomos apanhados pelo pecado, sem que nós próprios sejamos capazes de nos satisfazer plenamente. Ao morrer por nós, Cristo satisfez o Pai e assim a penalidade do pecado foi abolida. De onde ele diz sobre a remissão dos pecados. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). “Está escrito que Cristo deveria sofrer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia, e que em seu nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados” (Lucas 24:46-47). O caminho [somos abençoados com graça] da parte de Deus é estabelecido de acordo com as riquezas de sua graça. Como se dissesse: Ao tornar-nos agradáveis ​​a si mesmo, Deus não só nos perdoou os nossos pecados, mas deu o seu próprio Filho para reparar em nosso favor. Isto veio de uma graça transbordante pela qual ele quis preservar a honra da raça humana enquanto, como se fosse por justiça, desejava que os homens fossem libertados da escravidão do pecado e da morte através da morte de seu próprio Filho. Assim, ao dizer de acordo com as riquezas de sua graça, ele parece afirmar: Que fomos redimidos e feitos agradáveis ​​[a Deus] através da satisfação de seu Filho vem de uma graça e misericórdia transbordantes, uma vez que a misericórdia e a compaixão são concedidas àqueles que não têm direito a elas. - Comentário sobre Efésios

Efésios 1:8

Tendo exposto as bênçãos geralmente dadas a todos, o Apóstolo agora se volta para aqueles favores especialmente concedidos aos Apóstolos. Esta seção se divide em duas partes: Primeiramente, ele propõe as bênçãos especiais dadas aos Apóstolos. Secundamente, ele indica sua causa (1:11). No que se refere ao primeiro, ele faz três coisas. Ele expõe as bênçãos particulares dos Apóstolos: Primeiramente, quanto à excelência de sua sabedoria. Secundamente, quanto a uma revelação única do mistério oculto (1:9a). Terceiriamente, ele sugere qual é este mistério (1:9b-10). Ele primeiro afirma: Segundo as riquezas de sua graça, todos os fiéis juntos, tanto vós como nós, possuímos redenção e remissão dos pecados através do sangue de Cristo. Esta graça superabundou em nós que, [como Apóstolos], a possuímos mais plenamente do que outros. Daí a temeridade—para não dizer erro—daqueles que ousam igualar a graça e glória de alguns santos com a dos Apóstolos. Pois esta passagem abertamente afirma que os Apóstolos são mais plenamente agraciados do que os outros santos, exceto Cristo e sua Mãe Virgem. Contudo, caso seja afirmado que outros santos foram capazes de merecer tanto quanto os Apóstolos mereceram, e consequentemente teriam tanta graça, deve-se dizer que isto seria um bom argumento se a graça fosse dada segundo os méritos—mas se fosse assim, "a graça já não seria graça" (Rm 11:6). Maior dignidade foi preordenada por Deus a alguns santos, e portanto ele infundiu graça mais abundantemente neles. Por exemplo, ele conferiu uma graça única a Cristo como homem quando o assumiu [a humanidade] para a unidade da [Segunda] Pessoa. Ele dotou com graças especiais tanto no corpo quanto na alma, a gloriosa Virgem Maria, a quem escolheu para ser sua mãe. Similarmente, aqueles a quem Deus chamou para uma dignidade única, os Apóstolos, foram dotados com uma graça correspondente. Assim o Apóstolo afirma em Romanos 8 (23): "e nós mesmos, que temos as primícias do Espírito." E uma Glosa comenta: "a sua parte é primeira em tempo e mais copiosa do que outros." Que temeridade, portanto, colocar algum santo posterior no mesmo nível dos Apóstolos. A graça de Deus superabundou nos Apóstolos, [enriquecendo-os] com toda a sabedoria. Pois os Apóstolos são postos sobre a Igreja para serem seus pastores: "E vos darei pastores segundo meu coração: e vos apascentarão com conhecimento e doutrina" (Jr 3:15). Duas qualidades devem caracterizar os pastores: um conhecimento profundo das verdades divinas e um cumprimento assíduo de ações religiosas. Eles devem ensinar àqueles confiados a eles a verdadeira fé; isto requer aquela sabedoria que consiste em conhecimento do divino, quanto ao qual ele observa em toda a sabedoria. "Pois vos darei boca e sabedoria, qual não poderão resistir e gainsay todos vossos adversários" (Lc 21:15). Eles também precisam de prudência para guiar seus súditos em negócios externos e temporais: "Sede portanto prudentes como serpentes e simples como pombas" (Mt 10:16). Assim a bênção especial da sabedoria dada aos Apóstolos é claramente expressa. — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:9

A recepção de uma revelação incomum é sua próxima bênção, que ele pudesse nos tornar conhecida o mistério de sua vontade. Como se tivesse dito: Nossa sabedoria não consiste em descobrir as naturezas das realidades materiais, nem o curso das estrelas, ou coisas assim; antes, concerne apenas a Cristo. "Decidi não saber nada entre vós, senão Jesus Cristo, e este crucificado" (1 Cor. 2:2). Portanto ele diz que ele pudesse nos tornar conhecida o mistério, ou seja, o segredo sagrado, oculto desde o princípio, o mistério da Encarnação. Ele acrescenta a causa deste mistério oculto quando diz sua vontade. Os eventos futuros são conhecidos apenas se suas causas são conhecidas; por exemplo, podemos determinar um eclipse futuro apenas sabendo o que causa um eclipse. Agora o mistério da Encarnação tem a vontade de Deus como sua causa já que ele desejou se encarnar por causa de seu intenso amor pelos homens: "Pois Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu Filho unigênito" (Jo. 3:16). Ainda a vontade de Deus é mais oculta que qualquer outra coisa: "Ninguém sabe o que pertence a Deus, senão o Espírito de Deus" (1 Cor. 2:11). Portanto, a causa da Encarnação foi ocultada de todos exceto aqueles a quem Deus a revelou através do Espírito Santo, como o Apóstolo menciona: "Deus nos revelou através do Espírito. Pois o Espírito perscruta tudo, até mesmo as profundezas de Deus" (1 Cor. 2:10). Portanto ele afirma que ele pudesse nos tornar conhecida o mistério que é um segredo sagrado—um segredo porque é de sua vontade. "Dou-vos graças, Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelastes aos pequeninos" (Mt. 11:25). "O mistério, oculto desde as eras e gerações, e agora manifestado aos seus santos, aos quais Deus quis dar a conhecer as riquezas da glória deste mistério" (Cl. 1:26-27). Ele então explica algo sobre este mistério (vv. 9-10). Seu pensamento é envolvente e deveria ser construído como: que ele pudesse nos tornar conhecida o mistério de sua vontade, que mistério é restabelecer todas as coisas em Cristo, ou seja, através de Cristo. Todas, ou seja, as que estão no céu e na terra. Este restabelecimento em Cristo deve estar na dispensação da plenitude dos tempos que, por sua vez, está de acordo com seu bom prazer. Assim, três aspectos do mistério são tocados; a causa do mistério, a conveniência temporal [de seu aparecimento], e seu propósito. De acordo com seu bom prazer brevemente resume a causa. Embora tudo o que agrada a Deus seja bom, a bondade é preeminentemente (antonomastice) apropriada ao prazer de Deus nisto [efetuar a Encarnação] porque através disso somos conduzidos a gozar perfeitamente da bondade. Como o Salmo 146 (11) declara: "O Senhor se agrada daqueles que o temem, que confiam em sua força"; e Romanos 12 (2): "para que províeis qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:10

O tempo conveniente foi nesta dispensação da plenitude dos tempos que Gálatas 4 (4-5) fala: "Mas quando veio a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para que resgatasse os que estavam sob a lei, para que recebêssemos a adoção de filhos." O problema infundado que os pagãos costumavam levantar é assim colocado de lado pelo Apóstolo. Pois como Jó 24 (1) observa: "Por que os tempos não são ocultos do Soberano?" Ele ordena e arranja tudo, incluindo o tempo; pois ele gerencia e acomoda a passagem do tempo àqueles eventos que ele deseja que existam no momento certo. Assim como outros eventos realizados por ele tiveram seu tempo especificado, de igual modo ele predestinou eternamente um tempo para o mistério da Encarnação. Este tempo, uma Glosa aponta, ocorreu depois que o homem foi convencido de sua própria estupidez perante a Lei [mosaica] escrita, quando adorava criaturas em vez do Criador—"Pois, dizendo-se sábios, tornaram-se loucos" (Rm. 1:22)—e de sua absoluta incapacidade de viver de acordo com as prescrições da Lei escrita. Assim os homens, não mais confiando em sua própria sabedoria e poder, não considerariam a vinda de Cristo como insignificante. Fracos, e em certa medida ignorantes, desejaria com entusiasmo o Cristo. O propósito do mistério é restaurar todas as coisas. Visto que tudo é feito para a humanidade, tudo seria restaurado [quando o homem fosse redimido]: "Naquele dia levantarei a tenda de Davi que havia caído; fecharei suas fraturas e a reconstruirei como era outrora" (Am. 9:11). Tudo o que está no céu, a saber, os anjos. Cristo não morreu pelos anjos, mas ao redimir a humanidade "ele preencherá as ruínas" (Sl. 109:6) deixadas pelo pecado dos anjos. Tenha cuidado com o erro em que Orígenes caiu, como se os anjos condenados fossem redimidos através de Cristo; isto foi apenas uma ficção de sua imaginação. E o que está na terra [será restaurado em Cristo] visto que ele reconcilia realidades celestiais e terrenas: "Fazendo paz pelo sangue da sua cruz, tanto as coisas que estão na terra como as que estão no céu" (Cl. 1:20). Isto deve ser compreendido em referência à suficiência [de suas ações redentoras], mesmo que, com respeito à sua eficácia, nem tudo seja restaurado. — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:11

Anteriormente o Apóstolo escreveu sobre como ele e os outros Apóstolos receberam uma abundância de graça de Cristo (1:8). Para que ninguém imaginasse que eles a mereciam, o Apóstolo rapidamente afirma que foram chamados por Deus gratuitamente, não por seus méritos pessoais. Esta seção é dividida em três partes: Primeiro, a gratuidade da chamada [Apostólica]. Segundo, a liberdade de Deus na predestinação (1:11b). Terceiro, qual é o fim de ambas [vocação e predestinação] (1:12). Eu indicava, diz ele, que a graça superabundou em nós e que tudo foi restabelecido em Cristo. O mesmo Cristo em quem também somos chamados por sorte, não por nossos próprios méritos mas por uma escolha divina: "Dando graças a Deus Pai, que nos fez dignos de ser participantes da sorte dos santos em luz" (Cl 1:12) porque "minhas sortes estão em tuas mãos" (Sl 30:16). Para entender isto deve-se perceber que muitos eventos humanos que parecem ocorrer por fado e acaso, na realidade são arranjados de acordo com a providência divina. O sorteio nada mais é do que uma busca pela orientação divina em assuntos contingentes e humanos. Agostinho, comentando o Salmo 30 (16), ensina que o sorteio não é um mal mas um meio de descobrir a vontade de Deus em uma questão duvidosa. Não obstante, três pecados devem ser evitados. Primeiro, é a superstição; pois qualquer religião que seja rasa e imoral é superstição. O pecado proibido de superstição seria incorrido quando o sorteio é realizado em liga com o diabo. Por exemplo, Ezequiel 21 (26) relata como: "o rei de Babilônia se pôs no caminho, na encruzilhada, buscando adivinhação, embaralhando setas: ele consultou os ídolos e olhou para o fígado." O embaralhamento das setas está relacionado ao sortilégio, e a consulta aos ídolos pertence à superstição. O sortilégio, além disso, é condenado lá (Ez 21) entre os pecados pertencentes à superstição. Segundo, o pecado de tentar a Deus deve ser evitado. Enquanto um homem puder descobrir e realizar por si mesmo o que deveria fazer, ele tenta a Deus se recorre aos sorteios, ou qualquer outro método deste tipo, para ascertain o que deveria fazer. Somente quando inevitavelmente ameaçado por situações onde alguém é impotente por si mesmo é que um homem pode licitamente recorrer a [formas extraordinárias de] questionar a Deus sobre o que deve fazer. "Mas como não sabemos o que fazer, só podemos nos voltar para você" (2 Par 20:12). A vaidade é o terceiro pecado. É cometida se investigarmos assuntos vãos que não nos pertencem; por exemplo, eventos contingentes no futuro. "Não vos pertence conhecer os tempos e as estações, que o Pai pôs em seu próprio poder" (At 1:7). Relativo a isto [propósito para o qual são sorteados], há três tipos de sorteios: alguns são divisórios, outros são consultatórios, enquanto ainda outros são divinatórios. Os sorteios divisórios são aqueles que as pessoas sorteiam quando estão dividindo uma herança e não podem concordar. Usando um certo pedaço de papel, ou semelhante, eles declaram: Aquele para quem cair terá esta parte da herança. Tais sorteios podem ser lançados licitamente: "O sorteio põe fim às disputas, e decide entre poderosos contendedores" (Prov 18:18) quando desejam dividir desta forma. Os sorteios consultatórios são usados quando alguém duvida o que deveria fazer e consulta a Deus sorteando. Jonas 1 (7) relata como, quando a grande tempestade veio sobre eles no mar, sortearam para buscar informação de Deus para que pudessem saber por qual pecado a tempestade havia ocorrido. Este método é lícito, especialmente em necessidades e nas eleições de governadores seculares. Portanto, os homens farão pequenas bolas de cera chamadas "bussuli," das quais algumas contêm pedaços de papel e outras não. Aquele que sorteie um "bussulus" com o papel dentro tem uma voz na eleição. Isto foi feito também, anterior à vinda do Espírito Santo, em eleições espirituais, evidenciado na escolha de Matias por sorteio (At 1:26). Agora que o Espírito Santo veio, porém, não é mais lícito nestas eleições visto que fazer uso delas seria uma afronta ao Espírito Santo. Deve-se crer, afinal, que o Espírito Santo proverá sua Igreja com bons pastores. Após a vinda do Espírito Santo, portanto, quando os Apóstolos escolheram os sete diáconos (cf. At 6), eles não sortearam. Assim, este método não é lícito em nenhuma eleição eclesiástica. Os sorteios divinatórios predizem eventos futuros reservados apenas ao conhecimento divino. Eles sempre são coloridos pela vanglória, nem podem ser recorridos sem uma curiosidade pecaminosa. Os sorteios, portanto, nada mais são do que uma questão sobre realidades cuja ocorrência depende da vontade divina. Visto que a graça depende da vontade divina sozinha, a graça da escolha divina é chamada uma sorte. Pois Deus, como por sorte, de acordo com sua providência oculta, chama os homens através de uma graça interior e não por conta dos méritos de alguém. Depois, quando ele diz predestinados segundo seu propósito, ele escreve sobre a predestinação livre de Deus a respeito da qual Romanos 8 (30) trata: "E aqueles que predestinou também chamou." A razão para esta predestinação não é nossos méritos mas a vontade de Deus sozinha, por conta da qual ele acrescenta segundo o propósito dele. "E sabemos que aos que amam a Deus todas as coisas cooperam para o bem; aos que são chamados segundo seu propósito" (Rm 8:28). Ele aprova o que predestinou segundo seu propósito visto que não só isto, mas também tudo mais que Deus faz ele o realiza segundo o conselho de sua vontade. "Tudo que Yahweh quer Yahweh faz, no céu e na terra, nos mares e em todas as profundezas" (Sl 135:6). "Meu conselho permanecerá, e farei o que me agrada" (Is 46:10). Ele não disse "segundo sua vontade" para que você não acreditasse que era irracional, mas segundo o conselho de sua vontade. Isto significa, segundo sua vontade que surge da razão; não que razão aqui implique qualquer transição em seus pensamentos, ela antes indica uma vontade certa e deliberada. — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:12

Finalmente, ele brevemente menciona o fim da predestinação e vocação de alguém, a saber, o louvor de Deus. Assim ele afirma que podemos ser para louvor de sua glória, nós que antes esperávamos em Cristo. Através de nós, que cremos em Cristo, a glória de Deus é exaltada. "As montanhas e as colinas vos saudam com louvor" (Is 55:12). O louvor da glória de Deus, como Ambrósio observa, ocorre quando muitas pessoas são ganhadas para a fé, como a glória de um médico está em uma grande clientela e sua cura. "Vós que temeis o Senhor, esperai coisas boas, alegria eterna e misericórdia" (Sir 2:9). — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:13

Depois que o Apóstolo enumerou as bênçãos oferecidas geralmente a todos os fiéis, depois aquelas especialmente dadas aos Apóstolos (1:8), começa a narrar as concedidas aos efésios propriamente. Esta seção se divide em duas partes: Primeiro, apresenta os favores concedidos a eles. Em segundo lugar, descreve seus sentimentos despertados pelos favores (1:15). O primeiro se divide em três partes segundo as três bênçãos concedidas a eles: Primeiro, a bênção da pregação. Em segundo lugar, a bênção da conversão à fé (1:13). Em terceiro lugar, a bênção da justificação (1:13-14). Com respeito ao primeiro ponto ele diz: Cristo em quem também vós, depois que ouvistes, isto é, pelo favor e poder dele ouvistes o anúncio da palavra da verdade, já que Cristo mesmo enviou aos vossos aqueles que a pregam. "Como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, sem haja quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?... A fé, pois, vem pela audição; e a audição pela palavra de Cristo" (Rm. 10:14-15, 17). Ouvem através da bênção daquele que lhes envia os pregadores: "Bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a guardam" (Lc. 11:28). O Apóstolo menciona a tríplice recomendação desta palavra pregada. É, em primeiro lugar, verdadeira; uma palavra de verdade. Com efeito, não poderia ser de outra forma, já que sua fonte é Cristo, acerca de quem João 17 (17) afirma: "Tua palavra é verdade." E Tiago 1 (18): "Ele nos gerou pela palavra da verdade." Em segundo lugar, é um anúncio de boas notícias. Daí ele diz evangelho: anuncia o sumo bem e a vida eterna. "Palavra de fé" é eminentemente (antonomasticamente) aplicável ao Evangelho como a comunicação do sumo bem. "Como é belos sobre os montes os pés do que traz boas notícias e prega a salvação... Sobe a um alto monte, mensageira de Sião" (Is. 52:7; 40:9). Isto se refere aos bens futuros. Os bens presentes são o que descrevem e recomendam [a pregação cristã] em terceiro lugar, pois ela salva. Assim ele diz de vossa salvação; se crida, confere salvação. "Não me envergonho do evangelho. Pois é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê" (Rm. 1:16). "Ora, irmãos, vos notorifico o evangelho que vos preguei, o qual também recebestes e no qual ainda perseverais, pelo qual também sois salvos" (1 Co. 15:1). Quanto à bênção da conversão à fé, ele afirma: em quem, a saber, Cristo, por cuja ação também vós crendo, fostes selados. Esta bênção é aplicada à fé, já que a fé é necessária para aqueles que ouvem. Em vão alguém ouviria a palavra da verdade se não cresse, e o próprio crer é por Cristo. "Pela graça sois salvos por meio da fé; e isto não vem de vós, pois é dom de Deus" (Ef. 2:8). Com respeito à bênção da justificação, ele menciona que vós fostes selados com o Espírito Santo que vos foi dado. Acerca deste [Espírito] três coisas são ditas; ele é sinal, o espírito da promessa, e o penhor de nossa herança. Ele é sinal, na medida em que por ele a caridade é infundida em nossos corações, distinguindo-nos assim daqueles que não são filhos de Deus. Quanto a isto ele diz vós fostes selados, separados da manada de Satanás. "Não entristeçais o Espírito Santo de Deus, pelo qual fostes selados para o dia da redenção" (Ef. 4:30). Assim como os homens marcam um sinal em seus rebanhos para diferenciá-los dos outros, assim também o Senhor quis selar seu próprio rebanho, seu povo, com um sinal espiritual. O Senhor tinha os judeus como seu próprio povo no Antigo Testamento. "E vós, meu rebanho, rebanho dos meus pastos, sois homens" (Ez. 34:31). "Nós, porém, somos povo seu e ovelhas de seu prado" (Sl. 95:7). Este rebanho era alimentado nos pastos terrenos dos ensinamentos materiais e dos bens temporais: "Se quiserdes e me obedecerdes, comereis o bem da terra" (Is. 1:19). O Senhor, portanto, diferenciou e separou deles a outros por meio do sinal corporal da circuncisão. "E meu pacto estará na vossa carne" (Gn. 17:13); antes disto diz: "Circuncidareis a carne do vosso prepúcio, e isso será por sinal do pacto entre mim e vós" (Gn. 17:11). No Novo Testamento o rebanho que tem é o povo cristão: "Regressastes ao Pastor e Bispo das vossas almas" (1 Pe. 2:25). "As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço e elas me seguem" (Jo. 10:27). Este rebanho é alimentado nos pastos da doutrina espiritual e dos favores espirituais; portanto, o Senhor o diferenciou de outros por um sinal espiritual. Este é o Espírito Santo, por quem aqueles que são de Cristo se distinguem dos outros que não lhe pertencem. Mas já que o Espírito Santo é amor, ele é dado a alguém quando essa pessoa é feita amante de Deus e do próximo. "O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rm. 5:5). Portanto, o sinal distintivo é a caridade que procede do Espírito Santo: "Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros" (Jo. 13:35). O Espírito Santo é aquele por quem somos selados. O Espírito é descrito como promessa por três razões. Primeiro, ele é prometido aos que creem: "Porei meu espírito novo dentro de vós... E vos darei um espírito novo" (Ez. 36:26, 37:6). Em segundo lugar, ele é dado com uma certa promessa, pelo próprio fato de ser dado a nós, nos tornamos filhos de Deus. Pois pelo Espírito Santo somos feitos um com Cristo: "Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não é dele" (Rm. 8:9). Como resultado de sermos feitos filhos adotivos de Deus, temos a promessa de uma herança eterna, já que "se filhos, também herdeiros" (Rm. 8:17). Em terceiro lugar, ele é chamado penhor, na medida em que nos faz certos da herança prometida. Adotando-nos como filhos de Deus, o Espírito Santo é o Espírito da promessa que também é o selo da promessa ainda a ser alcançada. — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:14

Porém, como é mencionado numa Glosa, uma leitura variante tem quem é o penhor de nossa herança, e talvez esta seja uma melhor interpretação. Pois um penhor difere do objeto em lugar do qual é dado, e deve ser devolvido uma vez que aquele que recebeu o penhor obtenha o objeto devido a ele. Um arras, porém, não difere do objeto em lugar do qual é dado, nem é devolvido já que é um pagamento parcial do preço em si, que não deve ser retirado mas completado. Deus se comunica a caridade conosco como um penhor, através do Espírito Santo que é o espírito da verdade e do amor. Portanto, isto nada mais é do que uma participação individual e imperfeita da caridade divina e do amor; não deve ser retirado mas levado à perfeição. Mais apropriadamente, portanto, é referido como arras do que como penhor. Não obstante, também pode ser chamado um penhor. Pois através do Espírito Santo Deus nos concede uma variedade de dons. Alguns desses permanecerão na pátria, como a caridade que "nunca termina" (1 Co 13:8); enquanto outros não durarão por causa de sua imperfeição, como a fé e a esperança "que desaparecerão" (1 Co 13:10). Portanto, o Espírito é chamado um arras em referência ao que permanecerá, e um penhor com respeito ao que desaparecerá. Ele acrescenta o propósito para o qual somos selados até a redenção. Pois quando um homem compra animais novos e os acrescenta ao seu rebanho, ele põe uma marca neles para o efeito de que os comprou. Agora Cristo comprou um povo dos gentios. "Tenho outras ovelhas que não são deste rebanho; a essas também devo trazer. Elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um pastor" (Jo 10:16). E neles ele imprime um sinal de compra: "Uma nação santa, um povo adquirido" (1 Pe 2:9) "que ele adquiriu com seu próprio sangue" (At 20:28). Cristo adquiriu este povo, não porque nunca fosse seu, mas porque anteriormente lhe pertencia e, apesar disso, ao pecar, se venderam a si mesmos numa escravidão diabólica que os oprimia. Assim não simplesmente afirma que o adquiriu mas acrescenta até a redenção, como se dissesse: Você não é estritamente uma nova aquisição; você é recomprado da escravidão do diabo através de seu sangue. "Vós não fostes resgatados com coisas corruptíveis, como ouro ou prata, da vossa vã maneira de viver transmitida de vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo" (1 Pe 1:18-19). Cristo nos comprou, portanto, através de uma redenção; não porque isto adicionasse algo a Deus já que ele não precisa de nenhum de nossos bens. "Se és justo, que lhe dás? Ou o que recebe de tua mão?" (Jó 35:7). O propósito para o qual Cristo nos adquiriu é para louvor de sua glória, para que Deus mesmo seja louvado já que "todos os chamados pelo meu nome, eu o criei para minha glória" (Is 43:7). — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:15

Depois de enumerar as bênçãos conferidas aos efésios por meio de Cristo (1,13), o Apóstolo revela agora como cresceu o seu afeto por eles. Esta seção está dividida em três partes: Primeiro, ele começa relatando os bons relatos que ouviu a respeito deles. Em segundo lugar, ele agradece pelas bênçãos que receberam (1:16a). Terceiro, ele acrescenta uma oração por bênçãos futuras (1.16b-19a). Houve duas coisas boas que ele ouviu sobre eles. Uma delas foi a fé pela qual foram devidamente orientados para Deus; a respeito disso ele comentou: Portanto, eu também, ouvindo da vossa fé que há no Senhor Jesus. Na verdade, a fé faz Deus habitar no homem: “Para que Cristo habite pela fé nos vossos corações” (Ef 3,17). Novamente, purifica os corações: “purificando os seus corações pela fé” (At. 15:9). Além disso, justifica sem recorrer à Lei: “pois consideramos o homem justificado pela fé, sem as obras da lei” (Romanos 3:28). O segundo bem é o amor, pelo qual se orientam adequadamente para o próximo; em referência a isso ele diz e do seu amor consistindo em obras de caridade. Este amor é um sinal espiritual de que o homem é discípulo de Cristo: “Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei, assim também deveis amar-vos uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,34-35). Este amor, eu digo, é para com todos os santos. Devemos amar todos aqueles que amamos com caridade, ou porque são santos ou para que se tornem santos. “Enquanto temos tempo, façamos o bem a todos os homens, mas especialmente aos que são da família da fé” (Gálatas 6:10). - Comentário sobre Efésios

Efésios 1:16

Depois (1:16a), o Apóstolo rende graças por estes bens e bênçãos dos quais ouviu falar, dizendo não cesso de dar graças a vosso respeito. Ao contrário, porém, ele não teria continuamente oferecido graças por eles. Respondo. Ao dizer não cesso, o Apóstolo quer dizer nos tempos requeridos; ou, não cesso porque minha atitude de ação de graças a vosso respeito é sem interrupção habitualmente comigo. "Não cessamos de orar por vós, e a rogar que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda sabedoria e inteligência espiritual" (Cl 1:9). "Lembro-me de vós constantemente, sempre em minhas orações fazendo petições" (Rm 1:9-10). Consequentemente, o Apóstolo ora pelas bênçãos que devem ser dadas a eles no futuro. Isto tem três divisões: Primeiro, ele estabelece certas que ele pede por eles. Em segundo lugar, ele as explica (1:17b-19a). Em terceiro lugar, ele revela o exemplar e a forma destas bênçãos (1:19b e seguintes). Com respeito ao primeiro ele diz: Não apenas dou graças pelas bênçãos do passado que recebestes e pelos bons relatos a vosso respeito, mas também oro para que, por todos os meios, estes cresçam no futuro, fazendo menção de vós em minhas orações a favor destes ao Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória. — Comentário a Efésios

Efésios 1:17

Deve-se reconhecer neste ponto que nosso Senhor Jesus Cristo é ao mesmo tempo Deus e homem. Na medida em que é homem, ele está relacionado com Deus, pois é composto de corpo e alma, ambos dos quais, sendo criaturas, estão necessariamente relacionados com Deus. Mas conforme é Deus, ele está relacionado com o Pai. "Eu subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus" (Jo. 20:17). Igualmente, como Deus ele é a glória do Pai: "que, sendo o brilho da glória dele, e a figura da substância dele" (Hb. 1:3). Ele é também nossa glória porque ele mesmo é a vida eterna: "Nós estamos no seu Filho verdadeiro, Jesus Cristo. Este é o Deus verdadeiro e a vida eterna" (1 Jo. 5:20). Portanto, ele diz o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo em relação a ele como homem, e seu Pai em referência a ele como Deus. Eu digo o Pai da glória, isto é, de Cristo que é sua glória. "Um filho sábio alegra a seu pai" (Pv. 10:1); e de nossa glória, na medida em que ele comunica glória a todos. Depois ele escreve as duas coisas que ele pede: o espírito de sabedoria e de revelação. Deve-se perceber aqui que certos dons são comuns a todos os santos e são necessários para a salvação, tais como fé, esperança e caridade. Estes eles já possuíam, como é evidente. Depois há outros dons especiais; ele ora para que recebam estes. O primeiro é o dom de sabedoria quando ele diz o espírito de sabedoria ao qual ninguém pode conceder a não ser Deus: "Quem jamais conheceu o teu conselho, a não ser que lhe desses sabedoria, e enviasses o teu Espírito Santo do alto?" (Sb. 9:17). O segundo dom pedido é o de entendimento, que consiste na revelação de mistérios espirituais que só Deus pode dar: "Existe um Deus no céu que revela mistérios" (Dn. 2:28). — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:18

Segue, ele explica o que pede: Primeiro, o que pertence ao dom da sabedoria. Segundamente, o que pertence ao dom da inteligência (1:18b). Ao dom da sabedoria pertence o conhecimento das realidades divinas. Portanto, pedir o dom da sabedoria é pedir que desfrutem de um conhecimento de Deus. Ele suplica isto dizendo no conhecimento dele, como se dissesse: Peço que, pelo espírito de sabedoria, os olhos do vosso coração estejam iluminados em um conhecimento mais claro de Deus. "Olha para mim, responde-me, Senhor meu Deus! Ilumina meus olhos; afasta o sono da morte" (Sl 12:4). Isto é o oposto daqueles cujos olhos estão iluminados apenas com respeito à realidade temporal quando é mais necessário e mais glorioso conhecer a Deus. "Não se glorie o sábio na sua sabedoria... nem o rico na sua riqueza: mas glorie-se nisto aquele que se glória, em que me compreende e me conhece" (Jr 9:23-24). Três aspectos pertencem ao dom da inteligência, um dos quais tem referência à vida presente, e dois ao futuro. A esperança, que é necessária para a salvação, pertence à condição presente: "pois pela esperança somos salvos" (Rm 8:24). Concernente a isto ele diz que saibais qual é, isto é, quão grande é a esperança da sua vocação, significando a virtude da esperança e que uma realidade imensa com ela se relaciona. Esta [esperança] é da máxima importância porque diz respeito às maiores realidades: "Ele nos regenerou para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos" (1 Pe 1:3). É também a mais forte das virtudes: "para que nós que já nos refugiamos tenhamos forte encorajamento para reter a esperança proposta; esperança esta que temos como ainda mais segura e firme âncora da alma, a qual entra [no santuário] através do véu" (Hb 6:18-19). Todavia, visto que o que esperamos diz respeito à vida futura, os outros dois aspectos [do dom da inteligência] pertencem ao futuro. Um, a recompensa essencial, é comum a todos os justos; a respeito do qual ele diz quais são as riquezas da glória da sua herança nos santos. Aqui escreve quatro características daqueles dons. Primeiro, eles são abundantíssimos, o que implica em riquezas. "Quem me obedece habitará seguro, tranquilo, sem temor do mal" (Pv 1:33); "Glória e riqueza estarão em sua casa" (Sl 112:3); "Comigo estão as riquezas e a honra, a riqueza duradoura e a prosperidade" (Pv 8:18). Segundamente, possuem a maior claridade, a respeito da qual ele diz de glória, "Glória, honra e paz a todo aquele que pratica o bem" (Rm 2:10). Terceiramente, são a mais permanente, com referência à qual ele declara da sua herança, pois o que é hereditário é possuído permanentemente. "Sua posteridade será estabelecida" (Ecl 31:11); "Senhor, tu repartiste minha taça de suavidade; tu lançaste minha sorte. As linhas caíram-me em belos lugares; minha herança é para mim excelente" (Sl 16:5). Quartamente, ele indica que serão a mais profunda, como nos santos. "Os sofrimentos do tempo presente não são dignos de comparação com a glória que há de ser revelada em nós" (Rm 8:18); "pois esta leve e momentânea tribulação nos produz um eterno peso de glória acima de toda comparação" (2 Co 4:17). — Comentário a Efésios

Efésios 1:19

O outro aspecto [do dom de compreensão] que ele expõe em referência à glória futura refere-se especialmente aos Apóstolos. Por isso ele pede que vocês saibam... qual é a suprema grandeza do seu poder sobre nós, os Apóstolos. Ele parece dizer: Embora conceda abundantemente as riquezas da sua glória a todos os santos, ele as concede em grande medida aos Apóstolos. Pois a grandeza de um poder é avaliada pelo que ele faz. Portanto, quanto mais o poder divino realiza em alguém, mais esse poder divino é revelado ali – mesmo que seja um e indiviso em si mesmo. Portanto, visto que um efeito maior do poder divino está presente nos Apóstolos, a grandeza deste poder residirá neles. Ele mostra qual é esse efeito maior presente neles ao dizer nós, os que cremos; nós que somos as primícias entre os que creem. "Nós também cremos. Por isso também falamos, sabendo que aquele que ressuscitou a Jesus, também nos ressuscitará com Jesus" (2 Coríntios 4:13). “Sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é capaz de cumprir o que lhe confiei até o último dia” (2 Timóteo 1:12). Aqueles entre vocês, portanto, por meio de quem outros são ensinados e chamados à fé — como os doutores [das ciências sagradas] — serão recompensados ​​de forma proeminente. Assim, uma Glosa afirma como “os grandes médicos desfrutarão de um certo aumento de glória acima daquela comumente possuída por todos”. Pela mesma razão, em Daniel 12 (3), os educados são comparados ao brilho do céu, enquanto os doutores são as próprias estrelas: “Os que são sábios brilharão como o brilho do céu: e os que levam muitos à justiça, como estrelas por toda a eternidade”. Depois de listar as bênçãos que ele espera que sejam concedidas aos efésios no futuro (1:16 e seguintes), o apóstolo discute o exemplo e a forma desses benefícios. Assim como a vida de Cristo é o modelo e a forma da nossa justiça, a glória e a exultação de Cristo são a forma e o exemplo da nossa glória e exaltação. Aqui o Apóstolo destaca dois pontos: primeiro, ele propõe de maneira geral a forma de nossa exaltação com suas bênçãos e dons. Em segundo lugar, ele discute isso em detalhes (1:20b e segs.). A atividade divina em Cristo é a forma e o exemplo da atividade divina em nós. Em referência a isso, ele afirma de acordo com a operação, isto é, à semelhança da operação, da força do seu poder, ou seja, o poder virtuoso de Deus, que ele operou em Cristo exaltando aquele que é a cabeça. Entenda que assim ele agirá poderosamente em nós. “Aguardamos um Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transfigurará o nosso miserável corpo para ser semelhante ao seu corpo glorioso, pelo poder que o capacita a sujeitar todas as coisas a si mesmo” (Filipenses 3:20-21). Nas Escrituras lemos frequentemente que seremos exaltados à semelhança da exaltação de Cristo. Por exemplo, Romanos 8 (17): “...desde que com ele padeçamos, para também com ele sermos glorificados”. Ou o Apocalipse 3 (21): “Aquele que vencer, eu lhe concederei que se sente comigo no meu trono; como eu mesmo venci e me sentei com meu Pai no seu trono”. - Comentário sobre Efésios

Efésios 1:20

Como resultado, ele especifica a forma e o exemplar com mais detalhes, mostrando o que pertence à exaltação de Cristo ao falar dele enquanto homem (v. 20b e seguintes). Ele escreve sobre três favores na exaltação de Cristo: Primeiro, a transição da morte para a vida, ressuscitando-o dentre os mortos. Em segundo lugar, a exaltação às alturas máximas da glória, colocando-o à sua direita (1:20b-21). Terceiro, uma elevação ao maior poder, e ele sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés (1:22-23). Quanto ao primeiro, ele afirma que foi de acordo com a operação que Deus Pai operou em Cristo pelo mesmo poder que ele compartilha com Cristo. Cristo restaurou-se à vida e foi restaurado à vida pelo Pai. “E, se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Jesus Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, por causa do seu Espírito que em vós habita” (Romanos 8:11). Colocá-lo à direita refere-se ao segundo [elemento na exaltação de Cristo]. Este ápice da glória pode ser visto sob três perspectivas: em sua relação com Deus, com as criaturas materiais e com as criaturas espirituais. Considerado em relação a Deus, ele está sentado à sua direita; isto não deve ser pensado como um órgão corporal – “Deus é Espírito” (João 4:24) – mas como uma forma metafórica de falar. A mão direita é considerada uma parte mais nobre e mais forte do homem; portanto, quando dizemos que Cristo Jesus está sentado à direita de Deus, deve ser entendido que, de acordo com a sua humanidade, ele participa das bênçãos mais escolhidas do Pai, e de acordo com a sua divindade, isso é entendido como igualdade com o Pai. “Javé falou ao meu senhor: Toma o trono à minha direita” (Sl 109:1); e o último capítulo de Marcos (16,19): “E o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi elevado ao céu e assentou-se à direita de Deus”. Nos lugares celestiais define a relação de Cristo com as criaturas materiais. Pois os corpos celestes ocupam o lugar mais elevado em comparação com os outros corpos; contudo, “Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus” (Efésios 4:10). - Comentário sobre Efésios

Efésios 1:21

Em relação aos seres espirituais, ele primeiro menciona que Cristo é exaltado sobre certos específicos, e segundo, sobre todos eles em geral (1:21b). Para entender isto, note que há nove coros de anjos, dos quais o Apóstolo aqui (1:21a) menciona apenas os quatro coros do meio. Acima destes estão os três coros superiores dos Tronos, Querubins e Serafins. Abaixo deles estão os dois coros inferiores dos Arcanjos e dos Anjos. Estes nove coros também são diferenciados em três hierarquias, ou autoridades sagradas [principatus], cada uma das quais abrange três coros. Todos os doutores concordam em atribuir os coros da Primeira Hierarquia. O coro mais alto é o dos Serafins, segundo são os Querubins, terceiro são os Tronos. Ao atribuir os coros entre as Hierarquias do Meio e Inferior, no entanto, Dionísio e Gregório discordam. Dionísio, [começando pelo mais alto] e descendo, coloca os Domínios como primeiro na Hierarquia do Meio, as Virtudes segundo, e os Poderes terceiro. No primeiro coro da Hierarquia Inferior ele coloca os Principados, segundo são os Arcanjos e terceiro são os Anjos. Esta listagem dos coros está de acordo com o texto presente, onde o Apóstolo começa, em uma ordem ascendente, do primeiro coro de Hierarquia, o sétimo [para baixo a partir dos Serafins]. Gregório, por outro lado, os arranja diferentemente. Ele coloca os Principados entre os Domínios e os Poderes, que é o segundo coro da Hierarquia do Meio; enquanto coloca as Virtudes entre os Poderes e os Arcanjos, que é o primeiro coro da Hierarquia Inferior. Este arranjo é apoiado pelas palavras do Apóstolo em Colossenses 1 (16): "Pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, domínios, principados ou poderes", onde ele enumera aqueles coros em uma ordem descendente. Reservando a classificação de Gregório para quando lermos a carta aos Colossenses, por enquanto seguiremos a abordagem de Dionísio, já que está de acordo com o texto à mão. Para entender isto, deve-se perceber que a estrutura da realidade pode ser considerada de três formas: Primeiro, conforme está presente na Primeira Causa de tudo, Deus. Segundo, conforme está nas causas universais. Terceiro, conforme a disposição das causas individuais. Visto que tudo o que acontece entre as criaturas ocorre com a assistência dos anjos, as três hierarquias angélicas são diferenciadas de acordo com a forma tríplice de conceber a estrutura da realidade. A uma pertence compreender os padrões inteligíveis das coisas no próprio ápice da realidade, Deus; a outra pertence compreender os padrões inteligíveis da realidade nas causas universais; enquanto a outra [compreende esses padrões] nas causas individuais. Pois quanto mais altas são as mentes angélicas, mais recebem a iluminação divina com maior universalidade. Portanto, a governança da realidade em relação a Deus pertence à Primeira Hierarquia. Por essa razão, os coros dessa hierarquia são nomeados com referência a Deus. Os Serafins são assim chamados porque ardem de amor e através disso estão unidos a Deus. Os Querubins são, por assim dizer, radiantes na medida em que possuem um conhecimento sobreeminente dos mistérios divinos. Os Tronos são assim denominados na medida em que neles Deus realiza seus julgamentos. Desses três coros o Apóstolo não faz menção aqui. À Hierarquia do Meio pertence a governança das coisas em relação às causas universais. Por isso os coros dessa hierarquia têm nomes associados ao poder, visto que as causas universais estão presentes nas coisas inferiores e individuais através de sua energia e poder. Três tarefas pertencem a esses poderes que governam universalmente. Primeiro, alguns devem dar direção através de seus comandos; segundo, outros devem dispor de qualquer impedimento ao cumprimento [desses comandos]; terceiro, alguns devem arranjar como outros executarão os comandos. Destes, o primeiro pertence aos Domínios que, como Dionísio observa, estão livres de qualquer subordinação; nem são enviados em [missões] externas, mas dão ordens àqueles que são enviados. O segundo pertence às Virtudes que facilitam a execução dos comandos. O terceiro pertence aos Poderes que executam os comandos. À Hierarquia Inferior devolve-se a orientação das coisas em relação às causas individuais, e são nomeadas a partir das [classes de objetos] confiadas a elas. Por isso, aqueles chamados Anjos executam o que pertence à salvação de pessoas individuais. A salvação e utilidade de personagens maiores é confiada aos Arcanjos. Principados é o nome daqueles que presidem cada uma das províncias. Cristo está acima de todos esses coros que foram discutidos. O Apóstolo faz menção especial apenas de quatro deles. A razão é que os nomes desses quatro coros são dados a eles pela sua dignidade, e visto que está tratando da dignidade de Cristo, ele os nomeia especialmente para mostrar que Cristo supera toda dignidade criada. Por conseguinte, quando ele diz e acima de todo nome que é nomeado, ele ensina que Cristo foi exaltado acima de toda criatura espiritual em geral. Havia afirmado anteriormente que Cristo foi exaltado acima de todas as criaturas espirituais cujos nomes estavam relacionados ao poder. No entanto, na Sagrada Escritura, além desses coros de anjos, outros coros de seres celestiais são mencionados; por exemplo, os Serafins (Is 6), Querubins (Ez 10, 11 e 41), e Tronos (Salmos), dos quais ele não falou. Portanto, ele mostra que Cristo, como homem, está exaltado acima de todos esses coros adicionando acima de todo nome que é nomeado. [Ele supera] não apenas aqueles que exercem autoridade, mas tudo o que pode ser nomeado. Pois deve-se reconhecer que um nome é dado para compreender o objeto [referido]; significa a substância do objeto quando o que o nome designa é a inteligibilidade precisa do objeto. Ao afirmar todo nome que é nomeado, ele nos deixa saber que a exaltação está acima de toda substância que pode ser conhecida e compreendida por um nome. Digo isto para excluir a substância da Divindade, que é incompreensível; então uma Glosa observa que acima de todo nome significa tudo o que pode ser nomeado. E para que não se pense que está acima do nome de Deus, ele insere que é nomeado. Pois a majestade divina não pode ser nem abraçada nem designada por um nome. Não apenas neste mundo, mas também naquele que há de vir, é adicionado, porque há muitos fatos nesta vida que compreendemos através do conhecimento e que nomeamos, enquanto os da vida futura não podem ser compreendidos ou nomeados: "Conhecemos em parte; e profetizamos em parte" (1 Co 13:9). Não obstante, os bem-aventurados na vida futura nomeiam esses últimos; são aquelas realidades das quais o Apóstolo diz em 2 Coríntios 12 (4), que "ouviu coisas inefáveis, que não lhe é lícito referir." Contudo Cristo está ainda exaltado acima destas. "Deu-lhe um nome que está acima de todo nome" (Fp 2:9). — Comentário sobre Efésios

Efésios 1:22

O Apóstolo já tratou anteriormente da exaltação de Cristo tanto do ponto de vista de sua passagem da morte para a vida (1:20a), quanto da de sua exaltação à mais alta glória (1:20b-21). Agora trata do poder imenso de sua exaltação. Quanto a isto ele faz duas coisas: Primeiro, ele discute o poder de Cristo com respeito a toda a criação. Em segundo lugar, então seu poder em relação à Igreja (1:22b-23). Ele afirma que, com respeito a toda a criação, Cristo tem poder universal já que Deus Pai sujeitou todas as coisas sob seus pés. A frase sob seus pés pode ser entendida de duas formas. Em uma é uma forma figurativa e simbólica de dizer que toda criatura está totalmente sujeita ao poder de Cristo. O que pisamos sob nossos pés certamente está sujeito a nós. Quanto a este poder o último capítulo de Mateus (28:18) afirma: "Todo poder me foi dado no céu e na terra." "Pois ao lhe sujeitar todas as coisas, não deixou nada que não lhe fosse sujeito" (Hb 2:8). Em outra acepção é uma forma metafórica de falar. Pelos pés a parte mais baixa do corpo é entendida, e pela cabeça a mais alta. Embora a humanidade e divindade não devam ser pensadas como partes de Cristo, não obstante a divindade é preeminente em Cristo e pode ser entendida como sua cabeça—"A cabeça de Cristo é Deus" (1 Cor 11:3). A humanidade é mais baixa e pode ser entendida como os pés—"Adoremos no seu escabelo" (Sl 132:7). O significado [desta passagem] é então que o Pai sujeitou não apenas toda a criação a Cristo como ele é Deus, a quem tudo está sujeito desde a eternidade, mas também a sua humanidade. Note como algo pode estar sujeito a Cristo de duas formas, alguns estão voluntariamente e outros involuntariamente. Orígenes negligenciou esta distinção de modo que esta palavra do Apóstolo ocasionou um erro em sua parte. Ele afirmou que tudo sujeito a Cristo, que é a verdadeira salvação, deve compartilhar em salvação. Ele concluiu que os demônios e condenados serão salvos em algum momento já que estão sujeitos sob os pés de Cristo. Mas isto é contrário à sentença do Senhor: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e seus anjos"; e ele conclui no final do capítulo, "E estes irão para o castigo eterno" (Mt 25:41, 46). Deve ser sustentado, portanto, que ele sujeita tudo sob seus pés. Alguns o fazem voluntariamente, como para seu Salvador. Por exemplo, os justos que cumprem a vontade de Deus na vida presente, e estão sujeitos a ele para que possam satisfazer seu desejo e vontade, aguardando o que Provérbios 10 (24) diz dos bons: "Aos justos lhes será dado o seu desejo." Outros, porém, estão sujeitos a ele involuntariamente, como para seu juiz, para que Cristo cumpra sua própria vontade a respeito deles. Estes são os maus a quem aquelas palavras em Lucas 19 (27) são aplicáveis: "Mas quanto aos meus inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os diante de mim." A seguir (v. 22b), ele trata do poder de Cristo com respeito à Igreja. A respeito disto ele faz três pontos: Primeiro, ele apresenta a relação de Cristo com a Igreja. Em segundo lugar, a relação da Igreja com Cristo (1:23a). Em terceiro lugar, ele explica esta relação (1:23b). Quanto ao primeiro, ele diz Deus Pai o fez cabeça sobre toda a Igreja, tanto da Igreja militante, composta de homens vivos no presente, quanto da Igreja triunfante, feita de homens e anjos na pátria. Por razões gerais certas, Cristo é até mesmo a cabeça dos anjos—"quem é a cabeça de toda a principalidade e poder" (Col 2:10)—enquanto Cristo é espiritualmente a cabeça da humanidade por razões especiais. Pois a cabeça tem uma tríplice relação com os outros membros. Primeiro, tem uma posição preeminente; em segundo lugar, seus poderes são difundidos [por todo o corpo] já que todos os sentidos nos membros são derivados disto; em terceiro lugar, é da mesma natureza [como os outros membros]. Assim, Cristo é cabeça dos Anjos com respeito à preeminência e à difusão [de seu poder]. Mesmo em sua humanidade Cristo ultrapassa os anjos: "Sendo feito tanto melhor que os anjos como herdou um nome mais excelente que eles" (Hb 1:4). Além disso, mesmo como homem, Cristo ilumina e influencia a eles; Dionísio prova isto das palavras de Isaías 63 (1): "Quem é este que vem de Edom, com vestes tingidas de Bozra?," afirmando que estas palavras são daqueles dos anjos mais elevados. A resposta que segue: "Sou eu, anunciando justiça poderosa para salvar," ele diz são as palavras de Cristo que lhes responde imediatamente. A partir disto deve ser entendido que Cristo não apenas ilumina os inferiores mas também os anjos mais elevados. Com respeito a uma conformidade de natureza, Cristo não é a cabeça dos anjos, "pois certamente ele não tomou para si anjos, mas tomou a descendência de Abraão" (Hb 2:16). [Por esta relação] ele é cabeça de homens apenas. "Você feriu meu coração, minha irmã," por natureza, "e minha esposa," pela graça (Cant 4:9). — Comentário a Efésios

Efésios 1:23

Ele fala da relação da Igreja com Cristo em que é seu corpo, na medida em que está sujeita a ele, recebe sua influência, e compartilha a mesma natureza com Cristo. "Assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, são um corpo, assim é com Cristo. Pois em um Espírito fomos todos batizados em um corpo" (1 Cor 12:12-13). Ele explica qual é seu corpo adicionando a plenitude dele. Para alguém perguntando por que há tantos membros em um corpo natural—mãos, pés, boca, e similares—poderia ser respondido que servem à variedade de atividades da alma. [A alma] em si é a causa e princípio destes [membros], e o que eles são, a alma é virtualmente. Pois o corpo é feito para a alma, e não o contrário. Desta perspectiva, o corpo natural é uma certa plenitude da alma; a menos que os membros existam com um corpo integral, a alma não pode exercer plenamente suas atividades. Isto é semelhante na relação de Cristo e da Igreja. Uma vez que a Igreja foi instituída por causa de Cristo, a Igreja é chamada a plenitude de Cristo. Tudo o que é virtualmente em Cristo é, de certa forma, preenchido nos membros da Igreja. Pois toda compreensão espiritual, dons, e tudo o que pode estar presente na Igreja—tudo o que Cristo possui abundantemente—flui dele para os membros da Igreja, e eles são aperfeiçoados neles. Assim ele acrescenta que Cristo é preenchido em todos os lugares já que Cristo torna este membro da Igreja sábio com a sabedoria perfeita presente em si mesmo, e ele torna outro justo com sua justiça perfeita, e assim por diante com os outros. — Comentário a Efésios